domingo, 28 de dezembro de 2025

Serie mitos e verdades da segunda guerra

 

Posso agora voltar a dois temas que gosto muito:direito e marxismo e segunda guerra.

Em primeiro lugar tratarei deste ultimo tema,depois retorno ao outro.

A (re-)leitura ,mais sistemática,das memórias de Churchill,me permite fazer outras observações,além do quê,sob a perspectiva da maturidade.É como ler de novo,como se fosse a primeira vez.

E logo reestudei o problema relativo à Tchecoeslováquia em que Churchill tem uma posição quase semelhante à dos soviéticos,que não foram chamados para a cimeira de Munique.

Churchill é um daqueles que pensa que a guerra praticamente começou aí e é justamente sobre este fato que eu quero comentar.

A posterior invasão da Tchecoeslováquia,em março de 39,era a justificativa perfeita para o inicio do que viria a ser o inicio da segunda guerra.

Permanece(para mim) um mistério porque Reino Unido e França não declararam guerra neste momento,o que teria salvo a Polônia do que lhe aconteceu depois.

A Eslováquia tornou-se independente e os alemães invadiram os sudetas.Estes fatos diminuem decerto o impacto da invasão,isto sem falar nas pretensões da Polônia,que podiam soar como defensivas.

Mas a verdade é que esta invasão feria os principios do acordo de Munique e só uma declaração de guerra era a resposta possível e plausível.

Nas narrativas atuais estes fatos são ignorados:o pragmatismo do apaziguamento deixou a Polônia a descoberto e um espaço maior de manobra para os nazistas.

A razão para este apaziguamento todo mundo sabe: Hitler era um anteparo para os comunistas,mas chegou o momento de que este pretexto parasse de servir aos propósitos imperialistas de Hitler no âmago da Europa.Eu vou discutir isto proximamente.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Quando eu era professor

 

Eu iniciava as minhas aulas sobre abstração da seguinte maneira simples:é só o aluno pegar as características definidoras do Ser,do objeto e deixar de lado as acessórias.

Por exemplo uma cadeira:o que a define é a sua finalidade,uma forma apropriada para sentar. A sua cor ,o tipo de matéria,o design,tudo isto é acessório.

Mas eu às vezes tinha vontade de adiantar Kant mostrando que tais definições eram na verdade construções subjetivas porque na verdade não existe um tipo só de cadeira,um tipo só de material ou cor e que a finalidade da cadeira era algo abstrato.

E no final das contas o essencial e o acessório estão misturados na coisa,no Ser e que era apenas pelo pensamento que eram separadas.

O sentido moderno da fenomenologia ressalta exatamente este fato,de que o fenômeno se apresenta(presença)in totum.

Então a descoberta da essência ,pela abstração,não é fenômeno?O fenômeno cadeira só se dá pela sua essência ,que na verdade está interligada objetiva e necessariamente àquilo que é secundário ou acessório?

O fenômeno por definição é aquilo que se apresenta diante de um observador.A busca de sua essência definidora é a sua explicação,o desvelamento do Ser.

A essência e seus atributos não-essenciais(que ajudam a compô-la)velam o Ser e a abstração filosófica o desvela na sua essência e finalidade,bem como outras características.

A desconstrução do real proporcionada pela filosofia,não é a sua destruição,mas a sua compreensão e condição de sua reconstrução,pelo pensamento.

Quando eu era professor,de diversos modos eu buscava desconstruir o real de maneira a mostrar aos alunos como tudo era ilusório e como é o ser humano,kantianamente falando,quem atribui diversos significados e essências ao real.

Eu fazia também esta desconstrução com Descartes e Sócrates ,mas isto é assunto para um outro próximo artigo.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Sismondi 2 A crítica de Lênin a Sismondi

 

Ha algum tempo atrás eu escrevi um artigo sobre as verdades que Sismondi dissera. Que havia um desquilibrio entre a capacidade produtiva das máquinas do e no capitalismo e a capacidade de consumo da sociedade.

Uma vez que é discutivel a teoria da exploração de Marx(e eu não vou tratar dela aqui e agora),ficou para mim mais fácil de entender as crises do capitalismo desta maneira. Ela se junta a outras dicotomias de que eu já tratei e me parecem causas eficientes dos problemas que nós temos até hoje(o problema populacional por exemplo).

Em Lênin existe uma critica a este pensamento e eu vou me reportar a ela.

No livro “caracterização do romantismo econômico” lênin diz:

La primera conclusión errónea de esta errónea teoría se refiere a la acumulación. Sismondi no comprendió la acumulación capitalista, y en la acalorada polémica que acerca de esta cuestión entabló con Ricardo, resultó que en esencia la verdad estaba de parte de este último. Ricardo afirmaba que la producción crea su propio mercado, mientras que Sismondi lo negaba, y sobre esta negación fundó su teoría de las crisis.”

Tenho a impressão de que há uma incompreensão do que Sismondi disse:é que o mercado não dá conta da capacidade produtiva do capitalismo porque não é uma industria só que cria seu próprio mercado,mas muitas,que competem,produzem exponencialmente e num determinado momento não há mais capacidade de compra do mercado.

Outras razões concorrem para isto,como o achatamento dos salários,a acumulação primitiva,mas ,no final das contas o processo das crises tem um componente básico econômico,mas também politico,de organização da sociedade,na sua movimentação e luta pela concorrência.

Deste modo nós entendemos que persiste a grande possibilidade de Sismondi ter razão.Como Lênin responde a isto?Próximo artigo.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A crueldade fraternal

 dos direitos humanos

O Marquês de Sade foi um dos primeiros a identificar essa impessoalidade institucional em que nós vivemos. Ele tem uma visão negativa da República contrariamente a minha visão mas expressa com clareza o fato de que a República desencarnou as pessoas de sentimento de verdade para torná-las entidades iguais.Isso pra mim é positivo,mas parcial porque evidentemente os homens não se reduzem a República e à cidadania. E muito menos aos direitos humanos embora tudo isso seja o ideal de congraçamento que não se realiza, pelo menos até hoje. 

Ao mesmo tempo que um ideal de bondade ,os direitos humanos são um escárnio diante dessa realidade a que estou me referindo. Só resta às pessoas protestar contra essa situação mas o núcleo da humanidade consciente dos problemas ,mas tendo necessidade de trabalho e de servir aos outros ,não tem a condição de por si mesmo intervir na problemática e só resta senão mandar o estado fazê-lo.

E como o estado responde?Com a mesma impessoalidade que identificamos logo acima no inicio do artigo.

Os meios para solucionar toda esta estrutura sádica,é também sádica,porque faz ouvidos moucos aos apelos e protestos das pessoas de bem e desvia estes interesses para interesses particulares,acantonados no Estado.

Esta análise o marquês não pode fazer ,mas nós deslindamos o seu desespero,que,possivelmente causava as suas transgressões.

Em outros artigos ponho as minhas concepções sobre porque as coisas são assim e como superá-las.

O principio da construção é mais dificil de realizar do que o da destruição,mas a destruição deixa marcas.Por isto sou otimista que no final das contas o primeiro principio predomine,SE HOUVER AÇÃO DAS PESSOAS DE BEM.Se este marasmo continua o futuro é sombrio e o risco de exetrminação é maior.

O marquês fica na destruição,mas ele tem um elemento redentor na sua personalidade e na sua obra:a denúncia.E enviesadamente expõe este lado que todos os esquecemos para podermos continuar:o sofrimento e desamparo humanos.




sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

A crueldade fraternal. (De volta)

 

Todos esses meus meus esforços para escrever artigos me conduzem a alguns temas que eu coloquei anos e anos e que agora me interessa retornar.O primeiro tema são os estudos sobre o Marquês de Sade. E diante da realidade em que vivemos cotidianamente,em que o mal prevalece sobre o bem, temos que recorrer a estes ensaios sobre o Marquês para poder entendê-la.

Eu já falei em outra ocasião que todas as transgressões expostas nos livros do Marquês de Sade são na verdade para dar legitimidade e autenticidade ao que ele discute. As transgressões servem para provar a sua vinculação com essa doença e com esse problema do sadismo ,mas ele tem uma discussão,pensamento, em torno disso.

O mundo é sádico porque nós vivemos uma realidade em que a parte que usufrui da felicidade convive com os que não;aqueles que vivem no bem-estar convivem com os que passam por torturas indescritiveis no seu dia a dia.

Torturas,não só em decorrência da violência e insegurança,mas igualmente pela condição econômica da sociedade,em que uns vivem no bem-estar e outros não.

O meu olhar é o de Fernando Peixoto ,que escreveu uma boa biografia do Marquês e associou,muito acertadamente, a questão do sadismo com a questão social,com a opressão e a carência absurda que faz os homens se desdobrarem em atividades nem sempre justas e corretas para obter miseros cobres e poder comer uma vez por dia,como se estivessem em campos de concentração e extermínio,nos quais metade de um pão era dada aos prisioneiros ,por dia,para trabalhar até a exaustão e...a morte.

Então nós temos duas realidade que convivem e não se ouvem,com alguma exceção ,o que muito agradaria ao marquês,sabendo que suas ideias correspondem à realidade.

Na verdade toda a sociedade sabe destes dois lados, o que é a pedra de toque do sadismo:aquele que acorda de manhã faminto e o que acorda com um lauto café.

Fico vendo estas imagens e adaptações do ser humano diante desta situação sádica.





sábado, 29 de novembro de 2025

O tempo em Descartes o Instante

 

Diante de uma “nova” realidade natural Descartes tem diante de si uma necessidade também nova:o definir o tempo.Nós temos que entender a questão do tempo:vários instantes numa sucessão.

Mas estes instantes são interligados?Diante de uma natureza que é vista agora sob o conceito de extensão como se pode entender estes instantes sem inter-relacioná-los?

O tempo,para estar na extensão precisaria ser um fluxo,vórtices.Gassendi opõe às concepções de Descartes,para quem o tempo é esta sucessão,uma ideia de fluxo que segue a extensão da natureza.

O tempo é elaborado como conceito e prática pelos homens,na observação diuturna do movimento,o movimento dos corpos,das coisas.

Mas as coisas,os corpos ,se movem em determinados momentos ,distinguidos pelos observadores.Quando se observa um carro se movendo nós podemos separar os momentos de sua locomoção:o primeiro momento perto de uma árvore,o segundo perto de um hidrante e assim por diante.Mas isto demove o caráter da extensão do objeto,do carro?

Mas objetar-me-á alguém que todos estes momentos não se comunicam,senão a partir desta extensão,que Descartes e os cartesianos definem.

Mesmo assim nós podemos definir que nesta extensão,que comunica-se com o momento anterior e o posterior,há momentos também,com possivelmente outros referenciais ,diluindo-a totalmente também,de modo infinito.

Em Descartes se fala de instantes infinitos que são apreendidos de modo fugaz e que não há como limitar estes instantes e o tempo.

Embora seja em última instância uma abstração criada pelo homem,a física moderna demonstra a veracidade desta assertiva ,de que há instantes infinitos:um átomo se movimente em instantes também.

Fala-se inclusive em átimo,o tempo de um átimo,o de movimentação do átomo e seus constitutivos,elétrons e prótons.



As explicações de Heidegger

 

No estudo que faço sobre “Ser e Tempo”,verifico que Heidegger afirma que na apreensão do ente existe um entendimento do ser,algo do Ser,mas este não tem universalidade de gênero .Ele não é generalidade.

Isto separa o ecz stens das essência,porque em toda generalidade existe uma essência de generalidade,uma sua definição.É neste momento que Heidegger retira toda a essência do Ser,que não é o “Ser em geral”,como às vezes colocamos aqui,mas o próprio ser como existência.

No entanto,eu continuo pensando no Ser que se coloca à maneira de algo,há momentos no tempo em que a essência se fixa,ou que está presente,presentificada,no tempo.

Esta passagem de um por-se a outro é no tempo e o tempo é feito de momentos que,ainda que fugazes ,mantêem a essência,uma réstia,pelo menos.

Eu devo me reportar a uma premissa que coloquei há muito e que devo colocar aqui para que o leitor me entenda:no dizer de Heidegger o homem não é isto ou aquilo,mas sentido,visto que sentido é presentificar-se ,é o por-se como algo e passar-se para um outro algo,permanentemente.

Sob dois aspectos isto sempre me causou espécie,porque no pensamento humano,como na vida humana não há uma rutura na experiência,exceto na psicologia e assim mesmo não é uma rutura completa,pois não se liberta da experiência como um todo.

E em segundo lembrando Heidegger,o fato de se falar em essência não significa que ela possua aristotélicamente uma substância,embora exista inevitavelmente.

A escolha do dasein tem como deixar de lado a substanz,mas não um minimo aspecto da experiência que dela dimana:um professor ensina por atos de ensinar,por se colocar de um modo,de um algo que ensina.

Como não diferenciar este algo,do de um médico?O sentido da vida só se constrói à maneira de algo?Se fossem duas presentificações pura e simplesmente como difrenciá-las?

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

PROUDHON E MARX O confronto

 


Agora também inicio um trabalho de comparação entre Marx e Proudhon,uma relação polêmica entre dois homens que amigos uma vez se tornaram inimigos figadais,diga-se de passagem,muito em função de Max.

Conheceram-se em Paris e tiveram noites de discussão acalorada ,mas respeitosa, sobre o problema candente de sua época,uma pergunta colocada nos idos de 1820,que dizia “com tanta capacidade produtiva,porque existem tantos miseráveis?”.

Ignora-se o que eles falavam nas madrugadas de Paris,mas provavelmente foi este o assunto.E embora inicialmente Marx tenha tecido elogios rasgados a Proudhon,depois destas tertúlias,mudou completamente a sua opinião.

Vejo a questão da seguinte maneira,após ter estudado o livro de Proudhon “Filosofia da Miséria”:o que separou Marx de Proudhon,foi o fato de que este último alegou ter descoberto o principio da mais valia,que está lá definida em seu texto.

Aquilo que Marx alegou ter sido descoberta dele,foi enunciado pela primeira vez por Proudhon: “tempo de trabalho socialmente necessário paraa produção de mercadorias”.

A meu ver,repito,foi este o motivo da discórdia entre os dois e de fato quem chegou primeiro a responder à pergunta de 1820,na segunda onda industrial, foi Proudhon.

Isto não quer dizer que Marx plagiou totalmente Proudhon,mas o roteiro explicativo do problema estava lá todo delineado.

Pretendo começar este confronto analisando o capitulo de Proudhon sobre o valor(depois eu falo sobre o que veio antes)e neste caso devo dizer que Marx corrigiu imprecisões de Proudhon,que era um prático sem formação universitária,mas a explicação está lá,in totum.

É duro de admitir mas é a verdade e tal corrobora com as afirmações que fiz em muitos artigos sobre os duvidosos(em termos éticos inclusive)caminhos da ciência e da busca do conhecimento.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

a extinção do estado e o advento do comunismo


Este é o livro a que eu me referi em artigo anterior.Mudou a minha cabeça em relação a Marx e à União Soviética.Não mudei imediatamente a minha visão do socialismo real ,mas ao longo de décadas eu não esqueci dele.

Hoje eu posso dizer que o desenho do Estado Socialista é burguês.O que caracteriza o estado burguês?Ele serve a uma minoria que mantém a maioria em segundo plano.

No estado socialista real uma minoria também governa e determina como deve ser a distribuição igualitária do produzido pelo país.

Nós vemos que em Marx que esta igualação é ilegitima e que o que ele preconiza é um estado socialista provisório,transitório,que unindo a sociedade, produza abundância de bens necessária à sua manutenção e progressiva extinção deste estado burguês,na medida em que se constrói um arcabouço administrativo que o substitui paulatinamente e suporta posteriormente a capacidade exponencial de produção.

Agora acrescento eu:quanto mais este sistema se mantém, mais tempo livre se pode obter e o ideal comunista verdadeiro(não o socialismo real),se implanta.

 

As várias dialéticas

 

Inicio aqui o meu texto tão esperado sobre as várias formas de dialética que eu espero desembocar em Hegel\Marx. Eu vou associar esta nova linha de pesquisa com a discussão sobre as categorias da dialética constantes dos manuais soviéticos que eu estudei quando era mais jovem e neófito do marxismo.

Este trabalho está podendo ser feito única e exclusivamente porque encontrei uma lista destas dialéticas num livro de sociologia de Georges Gurvitch.

Ele inicia a sua lista com o indefectivel Platão.Em um artigo há muitos anos passados eu já houvera posto o problema de se não há ou não uma dialética em Platão e revelei que para alguns autores sim e para outros não.

Contei uma historinha de que perguntei-o a meu professor Sotero Caio,da UERJ e ele meio enfadado disse que não porque Platão afirmou que para contrapor dialéticamente os seus termos,de modo a realizar a sua ascese teve que fazer o seu famoso “ parricidio” com relação a Parmênides,o homem do “ o que é,é e o que não é”.

Mas na verdade o reconhecimento do parricidio mostra o contrário:ó há parricidio quando se mata o pai e as suas concepções que ficam esquecidas ou superadas.

Ele teve sim que construir uma dialética,muito retorcida.Uma dialética só ascensional,que recusa a queda na empiria e que se constitui por uma recusa da sensibilidade pela metade,porque ela é essencial à ascese.

Há dialética porque não há uma recusa total mas um reconhecimento do perigo que é cair na empiria na doxa(opinião),procurando lembrá-lo permanentemente no processo de subida à pefeição,ao mundo das ideias perfeitas.

Gurvitch faz uma lista de características das várias dialéticas:positiva,negativa,apologética,intuitiva,empirica,racional,ascendente,descedente e assim por diante.

A de Platão ele diz ser apologética,ascendente,positiva e racional.O destrincharemos em um próximo artigo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Um novo escaninho Filósofos da religião Sto Agostinho e o tempo

 

No capitulo XI da autobiografia de Sto Agostinho nós vemos um dos momentos altos da filosofia ocidental:o tempo.

E logo na abertura ele expõe aquilo que seria no futuro a doutrina da predestinação de Calvino: Deus decide desde sempre ,de forma perfeitissima e sua vontade não pode ser modificada pela do homem.

Este é um dos motes fundamentais do futuro protestantismo:a volta a Santo Agostinho,deixando para trás a figura de São Tomás de Aquino,que colocara a igreja católica como intercessora única entre homem e Deus.

Em Sto Agostinho esta relação se dá pelo coração humano e o coração de Deus,mas é lógico que somente Deus tem a certeza da fé humana.E mediada pelo tempo.

Trata-se de trabalhar e viver a vida na esperança de que Deus dê ao homem a sua graça.

Mas acima de tudo este artigo visa a mostrar como uma (re-)volta ao passado tem como impulsionar o futuro através de modificações no presente.

E também inaugura uma trilha de pesquisa que sempre me interessou:os filósofos religiosos e aqueles que perpasssam uma época de poucas descobertas cientificas válidas.

No passado e no rastro do cientificismo eu acreditva que havia uma relação necessária entre a ciência e a filosofia e em grande parte esta relação se dá na história não poucas vezes,mas quando há uma ausência de trabalhos científicos o que faz a filosofia?

Discute a linguagem,discute Deus como um simbolo(embora não o seja para os teólogos),discute a história,as narrativas biblicas,tirando-lhes significados psicológicos e axiológicos.

De modo que esta dicotomia ciência/filosofia não é obrigatória e por isto podemos utilizar os filósofos teológicos como uma outra via,digamos,de compreensão da filosofia diante do homem e da vida.

domingo, 16 de novembro de 2025

Os aforismos de Hegel

 

O ano de 1806 para Hegel foi decisivo.Foi neste ano que ele assistiu a batalha de Iena e dela tirou conclusões universais,a partir da vitória de Napoleão.E também se casou e teve sua lua-de-mel...

O ano em que ele escreveu a fenomenologia do espirito,mas “evoluiu” para uma concepção “científica” da dialética.

E neste ano escreveu alguns aforismos que retratam um pouco a sua mentalidade naquele periodo em que realiza uma tremenda mudança no seu pensamento e na vida.

Este terceiro aforismo vai ser comentado por mim.Está em castellano.

§3

Existe efectivamente un partido cuando éste se escinde en sí mismo. Así sucede con el Prostentatismo, cuyas diferencias ahora se deben reparar con intentos de unificación –una prueba de que ya no existe. Ello porque, en el escindirse, la diferencia interna se constituye como realidad. Con el nacimiento del Prostentatismo habían cesado todos los cismas del Catolicismo. –Ahora la verdad de la religión cristiana viene a ser continuamente probada, pero ya no se sabe para quien; porque ya no es con los Turcos que tenemos que ver.


Ele se refere ao fato de que o protestantismo,básico no seu pensamento,nasceu quando já não havia mais cisma na Igreja Católica,mas agora existem cismas constantes na religião reformada,que não aproveita para ninguém,na Europa.

Digo eu:só para a religião mesmo e para seus interesses.

Uma das características mais importantes do protestantismo,desde Lutero,ou principalmente a partir dele,foi ter admitido múltiplas interpretações possíveis da Biblia.

Talvez não fosse um desejo dele Lutero e de muitos reformadores,mas sem isto não possível destruir a estrutura monolitica e hierárquica da igreja católica na idade média.

O pluralismo ocidental ganhou força com esta verdade:existem muitas vozes para chegar a Deus,para chegar a uma verdade e isto tem que ser admitido,apesar das divergências.

Hegel se propõe a fazer uma renunificação através da filosofia,que busca reconciliar o homem com Deus ,através da dialética,deixando de lado estas inumeras vozes e colocando a religião num novo patamar e com um novo papel:rector das condutas,mas não dirigente da politica e da sociedade.

Este é um dos motivos para uma ciência da lógica dialética.




sábado, 8 de novembro de 2025

Não existe totalidade absoluta

 

No pensamento de Hegel a totalidade é vista como coincidente com absoluto,com o Ser em geral.Mas,lembrando Kant,não há principio que se identifique totalmente com o absoluto.

A totalidade é construída e limitada.Ela diz mais respeito à ciência ,com um objeto formal de investigação,do que à filosofia,mas Hegel a extende para esta última.

A totalidade particular,científica,tudo bem,mas na filosofia apresenta problemas e perigos.

A generalidade filosófica não tem como ser abarcada ,como dissemos,pela totalidade.Muito embora Hegel não associe a totalidade ao gênero,considera a filosofia como ciência e que ,portanto,possui um objeto formal, a ser restituido pela linguagem.(ciência da lógica dialética).

Há uma diferença entre a totalidade legitima e totalitária,que seria aquela,esta última,que extrapola os limites da totalidade construida,segundo critérios objetivos.

Ainda que seja possível fazer,na filosofia ,uma totalidade,há que ter cuidados para ela não se tornar uma totalidade absoluta.

O absoluto é só uma verdade subjetiva psicológica,uma “queda” no dizer de Kierkegaard.

Já falei muito sobre esta limitação de Hegel não reconhecida por ele.Daí é que vinha o seu pânico com relação à dialética,como pontuou Leandro Konder ,que era o pânico de controlar o movimento.

A totalidade de tudo o que existe,do Ser,é impossivel.A dialética mesmo é impossivel de acompanhar,pois suas leis são sempre ultrapassadas pelo movimento real.

Mas nesta problemática entre totalidade legitima e totalitária,ou seja,que se impõe existe algo muito sério,porque se a totalidade fica nos seus limites ela acaba com o movimento e por isso a totalidade que vai além destas linhas ,é necessária,como negação da legitima,para que tudo continue.

Contudo,isto não elimina o que eu disse ,que não existe totalidade absoluta,bem como o absoluto.



quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Aplicações da fenomenologia Heidegger

 

Na verdade,para ser fiel ao pensamento de Heidegger nós temos que reconhecer que não há mais essências,muito menos no ontisch .

Eu,ao colocar essências no ontisch ,estou me referindo,segundo ele, a coisas paradas,extáticas,dir-se-ia como Platão.

O ser é colocado por Heidegger no tempo e tem,pois,uma dynamis,que o fundamenta agora.

Aquilo que chamamos a existência ,que se manifesta de diversas maneiras,não é como essências,mas como um ente que se põe à maneira de algo.

Assim sendo a marcha da existência se faz não pela sucessão de essências,mas como a marcha dos entes que se colocam de um determinado modo,como um algo,que é o ser do ente.

Graciliano Ramos detestava colocar em seus escritos a palavra algo ,que,para ele,não designava nada.

Mas no caso de Heidegger o “algo” se refere a alguma coisa que se move no tempo e que não pode ser reduzido a uma essência definitiva.

A essência do professor,que dá aula,convive com a de pai,irmão,cidadão e assim por diante ,cabendo ao observador(mas não ao praticante)abstrair estas outras essências,para ficar com uma,no caso,a de professor.

Mas a prática objetiva,o modo de agir no tempo ,no imediato,é o ato de ensinar,condicionado pelas circunstâncias.

O ser do ente é aquele que se põe neste modo e ente(ontisch)é este algo,depurado pela observação e praticado em si mesmo no tempo.

Eu continuo dizendo que uma coisa não exlcui a outra e que Heidegger exagera um pouco nestas distinções,mas não há como negar que a existência é esta prática constante,no tempo,no cotidiano e que a sua distorção pode ser analisada e recuperada pela fenomenologia,que funda uma psicologia,uma possível nova psicologia.

É neste processo psicológico que eu acho que ainda mantém Aristóteles no timão:como analisar um professor,no seu caminho existencial,sem trabalhar com o extático,com o Ser e as essências?

O que significa o Ser pelo Ser Heidegger

 

A diferença entre as visões do Ser de Aristóteles ,Platão e de Hegel para a de Heidegger é que esta última uma visão é pura,pelo ser mesmo.

Nos filósofos citados,o Ser é tudo e nada ao mesmo tempo.Ele é a possibilidade de tudo e como definição ele é nada,porque nenhuma essência,contida nele ,o define,o abarca totalmente.

Assim sendo quando falamos do Ser não dizemos nada.É um falatório constatativo,como o materialismo histórico.

Somente pela fenomenologia,quando procuramos as possibilidades de essências ,dizemos algo do Ser,sem citá-lo,mas admitindo-o como existente.

Hegel colocara esta problemática na sua “ Fenomenologia” ao dizer que Deus esquecia-se do mundo,do Ser,ao constatar e construir essências infinitas,municiando o mundo.

Mas aqui ainda temos um Ser que se define pelas essências,inclusive a sua ,o ecz-stenz,a existência.

Em Aristóteles e Platão só se analisa o Ser pela sua essência,a ser investigada e estudada.No caso de Platão as Idéias,enquanto que Aristóteles define o Ser como uma essência substantiva.

Tomemos o exemplo de Hans Kelsen,no caso do direito:a teria pura do direito explica o direito por ele próprio. O conteúdo do direito é a sua força para se impor.A sua heteronomia imposta(Estado).

Mas é lógico que existe uma crítica de minha parte,que sou kantiano:se o direito só subsiste se for capaz de se impor,não prescinde de conteúdos justificadores e organizadores,porque a força ,em si mesma,não cria nada,como mostrou Rousseau.

No caso de Heidegger,e sua proposta de explicar o ser-por-si-mesmo,sofre,de mim,idêntica crítica:se é verdade que o Ser no tempo se modifica,não permanece como Ser,mas como manifestações de essências ou antes manifestações das essências.

Heidegger se encaminha para chamar estas transformações de existência (embora ele não se declare como tal[existencialista]),mas quais são estas transformações da existência?



Canudos e o comunismo III reflexões sobre o que é de fato comunismo

 

Depois de décadas reobtive um famoso livro sobre a ditadura do proletariado,de Ettienne de Balibar,que li em 1977.

Neste livro eu verifiquei os verdadeiros critérios usados por Marx para definir o que é ditadura do proletariado,socialismo e comunismo,no sentido,este último,que ele entendia e que foi,a meu ver ,deturpado pelo socialismo,por Lênin e os bolcheviques.

Vamos com calma,é muita coisa.

As questões que vão ser colocadas por Marx aqui,provêem de dois textos importantíssimos: “A critica ao programa de Gotha” e “ A Guerra Civil em França”.

As nossas primeiras elucubrações começam com uma carta de Marx a Bracke de 5 de Maio de 1875.

Como Marx põe a questão da extinção do Estado na rabeira do desenvolvimento do capitalismo e do comunismo?

Balibar ressalta que há uma diferença entre Engels e Marx quanto a esta questão.Numa carta de 1891 a Bebel,Auguste Bebel de 28 de março deste mesmo ano,Engels preconiza o fim do Estado,enquanto na carta a Bracke Marx ainda fala de um “estado no futuro comunista”.

Balibar tem um certo sofrimento com esta diferença,mas tanto Marx quanto Engels entendiam o estado futuro como uma instãncia administrativa apenas.Isto está nos textos sobre o anarquismo. Os dois possuiam esta visão homogênea sobre o Estado.

O Estado opressor é só aquele que serve a uma classe. O Estado de classe.

Balibar tenta juntar os dois pela questão de extinção deste Estado,mas a premissa é aquele que eu coloquei acima.

Na discussão com a social-democracia,com Lassalle,que inventou o termo,o problema do que é o estado,de como ele deve ser aparece.

Eu vou tratar disto no próximo artigo.

Leituras de Hegel II

 

O segundo problema aventado acima é o da pedra de toque da dialética.Existem várias dialéticas,mas o que a define fundamentalmente é a oposição básica entre dois termos,supostamente reais ou mentais(produtos da consciência).

Leandro Konder ,em seu livro sobre Hegel,faz a analogia com o “dia”.

Esta palavra “ dia” tem a ver com o dia,de cotidiano:ele significa a translação do sol de um ponto de ascensão para o de chegada no horizonte;dia quer dizer esta passagem de um ponto a outro que se opõem.Lética,vem de “ aletheia”,verdade.

A busca da verdade por um processo de oposição minima entre dois pontos.A construção de algo entre eles é a dialética.

Em meio às várias formas de dialética o ponto essencial é que o movimento tem que ser explicado.E a condição é que um ponto se explica pelo outro.

Em Platão a racionalidade se opõe à sensibilidade,que é o seu contrário(persiste a discussão se em Platão existe uma dialética[mas o método é dialético]).

Neste duplo,existe já a negação do primeiro termo,dir-se-ia ,a tese:a antítese é a sensibilidade,mas podemos fazer ao contrário.

Uma das características da dialética é que podemos começar de qualquer lado para “produzir” e compreender o movimento,mas na verdade na dialética de Hegel sempre existe um ponto de partida,uma tese,que é “contestado” por uma antitese,mas o movimento tende a diluir esta preeminência.

Hegel cria um ser que se movimenta pelo seu oposto ou não-ser :o oposto de macho é fêmea,que gera a sintese do filho.No caso do finito e do infinito,seguindo a dedução racional(Aristóteles),este segundo precede o primeiro,dentro do conceito de totalidade.

Mas outros dialéticos reformulam o conceito de dialética:David Straus coloca a triade cristã,pai,filho e espirito santo ou na ordem pai,deus-pai,espirito santo e filho(Cristo).

Se olharmos bem não há oposição entre deus e ES e com o filho que também é deus ,a não ser colocando o epiteto pai e filho,mas mesmo assim o espirito santo não não-deus,mas “diferente”.Se a relação se dá entre deus e maria,é entre macho e fêmea e gera um filho humano\deus,mas Maria não é Deus.

Outra forma de dialética é a de Proudhon ,com os conjuntos práticos,que Sartre reinvindicou para si,mas que são de Proudhon.



Mais leituras de Hegel

 

Continuando as minhas leituras de Hegel e preparando meu segundo livro sobre ele,trato novamente do fulcro do seu pensamento:a dialética.

A dialética visa explicar o movimento,visa responder a esta questão candente dos últimos dois séculos(considerando o tempo de Hegel),que veio desde o nascimnto da ciência moderna:se o movimento existe e se aplica à sociedade.

Já me referi em outro artigo à origem dos fundamentos do pensamento hegeliano,que está na sua(dele) análise sobre a Revolução Francesa e o acometimento do terror e da reação termidoriana.

O fato é que dois problemas já foram abordados por mim:o problema de se uma coisa é ele e outra ao mesmo tempo e qual é a pedra de toque da dialética.

No primeiro eu analisei o pensamento de Popper e vou aplicá-lo na questão central da dialética hegeliana:o finito e o infinito.

Nós vimos que se não houver uma dialética entre estes dois termos não há possibilidade de explicar a dialética,provando-a e muito menos o universo,o Ser em geral.

Se cada um destes termos fosse visto de per si,não haveria como explicar o infinito,que seria uma noção atemporal e metafísica.Se só abordássemos o finito não teriamos a existência do infinito,o que é absurdo,embora muitos o ponham.

O infinito guarda uma relação dialética com o finito,que o compõe ,em infinitas partes.

Segundo a dialética no finito está o infinito,a sua condição e no infinito está o finito,sua condição.Ambos são uma coisa e outra,concomitantemente.

Mas analisemos o problema:se dissermos que no finito está o infinito,já não será o finito,finito,mas infinito;se dissermos que a parte finita constitui o infinita teremos que separar estes dois termos e mudar a dialética,pois o não-ser do finito é infinito(absurdamente separado dele)e do infinito é o finito,que está separado dele,para constituir o infinito.

Como se vê,no nascedouro a dialética demonstra que uma coisa não pode ser ela e outra simultâneamente,só explicando o erro de Hegel a sua concepção de tempo e suas limitações temporais.

Mas é uma tentação pensar que estes dois termos se relacionam no tempo.O tempo finito das coisas,do Ser,se une ,no tempo,para fazer o infinito,mas dividir assim em partes o tempo,mesmo a filosofia anterior a Hegel(Descartes),encontrou dificuldades.

O segundo problema eu vou tratar no próximo artigo.



sábado, 1 de novembro de 2025

CANUDOS COMO COMUNISMO II

 

Eu ia manter o artigo anterior como suficiente para responder ao professor que veio no meu youtube,mas revirando a minha biblioteca digital descobri um texto muito bom de Luiz Antonio Moniz Bandeira “O sentido social e o contexto politico da guerra de Canudos”,onde,no segundo parágrafo,ele se refere ao “ comunismo cristão”.

A região de canudos fora ocupada ,em priscas eras,por indigenas,que tinham a terra como propriedade coletiva.Quando Conselheiro ,em 1893,fundou o Belo Monte,manteve esta característica.

Moniz Bandeira cita Euclides da Cunha:

... a propriedade tornou-se-lhe uma forma exagerada de coletivismo tribal dos beduínos: a apropriação pessoal apenas dos objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia. Os recém-chegados entregavam ao Conselheiro noventa e nove por cento do que traziam, incluindo os santos destinados ao santuário comum. Reputavam-se felizes com a migalha restante.”

Este relato não é exato,não é bem assim,mas está próximo do igualitarismo cristão.Não s e contentavam com migalhas.Possuíam a propriedade das casas e dos instrumentos de trabalho,mas a terra era uma proporpiedade comunal e o principal da produção era entregue ao grupo ,para repetir os preceitos de São Paulo(São Paulo era comunista[aliás seu fundador]):

Entre eles nenhum necessitado havia, pois todos os que possuíam terrenos ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no ao pé do Apóstolo. E a cada um era distribuído conforme a sua necessidade" 32.
Por este texto Moniz Bandeira nós ficamos sabendo que Euclides comparava Canudos às propostas utópicas de Fourier e Owen,em que não havia propriedade sobre a terra.

E no século XVIII,ainda seguindo a narrativa de Moniz Bandeira,a experiência da República Guarani 33 repetia o modelo do comunismo cristão e das formas de organização indigenas,que não estavam presentes no Sul,mas em todo o Brasil,por motivos óbvios.

Vou fazer uma análise disto no próximo artigo.


terça-feira, 21 de outubro de 2025

O estereótipo

 


Nos meus estudos em dicionários encontrei uma palavra que me suscitou no pensamento algumas reflexões.Todo mundo sabe que eu trabalho muito com a questão da experiência.O pensamento não é de forma alguma igual à experiência,mas contém algo dela,nele.

Símbolos ,imagens,estereótipos,carregam algo da experiência,mas não são tocados por ela mais.

Se houvesse nos estereótipos algo permanente da experiência,do novo,não seria possível compreender o mecanismo de todo preconceito,como algo que se impõe às pessoas.

Mas isto não significa que em todo estereótipo não exista uma experiência humana passada,que se cristaliza nele.

Quanto ao futuro ele pode ser impermeável,mas a experiência contida neste conceito que se cristaliza.

O problema,no entanto,é que ao longo do tempo e na complexidade social,temos que admitir coisas que não são experiência.Temos que admitir esta rutura com o movimento da humanidade.

Há coisas que permanecem,como modos transcendentais,em relação ao tempo.São não-tempo.

Então a transcendentalidade não se refere a Deus e a ideias perfeitas somente.

Há coisas que não são tocadas pela experiência ,pela experiência contínua.O pensamento está nesta situação?Ele é algo mais do que experiência?

Se respondermos que sim como vamos definir o pensamento,pelo menos,do ponto de vista filosófico?

Do ponto de vista científico é possível saber o que é o pensamento,mas da perspectiva filosófica é mais dificil,principalmente admitindo a sua relação com a experiência humana.

Seria um momento de intersecção entre filosofia e ciência?Seria pura representação das coisas,inter-relacionadas pela subjetividade?



quarta-feira, 8 de outubro de 2025

As relações humanas mais críticas ao socialismo

 

Não há problemas em um corpo social se todos se gostam.Tal é dificil na sociedade como um todo.Um dos sonhos da revolução russa e da utopia em geral, é transformar a divisão de classes em “o reino do amor”:retiradas as barreiras que separam o homem do homem,ele se abraçará em definitivo,com o seu próximo,porque ele reconhecerá a humanidade do outro e em si mesmo.

Esta visão idealizada provém do cristianismo ,que preconizava um mundo extático,em que os homens não põem nada entre eles,vivendo para sobreviver e para congraçar diariamente com o seu semelhante.O ideal medieval da (quase)imobilidade.

Mas diante da evolução histórica da humanidade,com esta idealização sendo contraditada pela verdade da sociedade,as discussões passaram para pergunta sobre aquilo que separa os homens.

E aí Rousseau,no “discurso sobre a desigualdade”,acusa a propriedade.

A partir daí todos amplificaram a idealização e esperam afastar a propriedade para chegar àquele mesmo desejo do cristianismo ,sem o admitir.

Mas na verdade não há prova nenhuma de que o afastamento resolva de vez e automaticamente,o imbroglio da humanidade.

Mais ainda os homens são diferentes e as relações sociais são complexas.

O socialismo é resultado desta ingenuidade:tornou tudo coletivo está solucionado o problema,porque ser coletivo,isto é,ligado ao seu semelhante,tornou-se humano.

Eu nem vou usar o fato de que existem más pessoas no âmbito da humanidade,para destruir esta idealização,mas o ideal de humanidade,mesmo que ela fosse boa,por inteiro,é apenas uma construção sobre o que seria o bem final.

Todo ideal é uma referência geral do que seria bom,do que é a humanidade,porque uma definição dela é sempre parcial,não total ,do que é a coisa definida.

Por isto identificar a humanidade com o socialismo é idealização.Com consequncias graves.

sábado, 4 de outubro de 2025

Aplicações da Fenomenologia

 

Agora que nós entendemos como funciona a fenomenologia a partir de nossas análises de Heidegger,podemos usá-la para entender o sentido em vários ramos da atividade humana.

Hoje vou tratar da História:o biógrafo Jon Lee Anderson cita um episódio da vida do biografado.Depois que el che deixou de ser guerrilheiro,para tornar-se ministro da economia,um companheiro das lutas o tratou com uma rispidez típica do tempo passado,ao que Guevara redaguiu:agora companheiro,tem que levar em conta a minha posição aqui.Já não somos guerrilheiros.

O antigo revolucionário foi absorvido pelo estado cubano,que ele,como marxista,queria(e devia)acabar,mas ao contrário,usa o seu novo papel para exigir um respeito diferente,uma vez que senão ele e o estado,representantes do povo,poderiam ser atingidos.

Fenomenologicamente,a essência de guerrilheiro comunista foi substituída pela de ministro da economia,de um país especifico.

Tal mudança de essência enseja e organiza vários debates e discussões em torno do personagem:ele deixou de ser comunista autêntico(segundo a teoria)quando assumiu este posto?Existe uma ruptura real entre o guerrilheiro e o ministro?Se assim for ,tal pode ser aplicado a outros personagens do mundo comunista.E ao comunismo,ao tomar o poder do estado.

Existe uma essência de Guevara?Talvez a fixemos narrando a sua biografia e então podemos dizer que nos referimos a este ernesto,já que não existe uma ernesticidade padrão(aristotélica)que una todos os ernestos do mundo ou alguns.

E outras questões podem ser aventadas aqui:o que definiria o dasein,o “ isto” de Ernesto Che Guevara?Qual a sua verdade moral e psicológica?

Há compossibilidade entre o humanismo de Guevara e o ato dele matar um jovem porque roubou leite em pó?

Quem defende que só a policia possa usar armas,pode defender Guevara,que aconselhava que o povo ficasse armado?

Perguntas a serem respondidas nos próximos artigos.



sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Série sobre filosofia

 

Já inumeras vezes falei sobre a minha relação com a filosofia.Mas retorno a ela e aos meus altos estudos,a partir de hoje.É que sou acusado às vezes de ser um generalista em matéria de filosofia:uso a história da filosofia,pegando este ou aquele autor a esmo?Não,de modo algum.

É porque a minha visão de todo saber é mediatizado necessariamente pelo tempo histórico:eu não analiso nenhum pensador ou filósofo anacronicamente,isto é,como algo meta-temporal ou histórico,fechado em si mesmo.Ao contrário ,dentro de sua datação e dos seus condicionamentos históricos.

É minha filiação kantiana que me leva a este raciocinio:a partir de Kant é que se analisa o passado dentro de uma perpsectiva de movimento temporal.

Muito se fala que a questão do movimento é só a partir de Hegel,mas ele cristaliza um movimento que vem desde Kant,desde o iluminismo alemão.

Na medida em que o conhecer é o modo de conhecer,os modos que se sucedem só se sucedem no tempo.No tempo em geral e no tempo qualificado,histórico.

A compreensão do movimento podia e pode se consolidar aqui,para ser desenvolvida posteriormente.

Então a análise de cada pensamento adquire sistematicidade enquanto relacionados com este desenvolvimento histórico-temporal,em cada movimento histórico-temporal.

Não é catar milho na história do pensamento,mas a sua conexão com o desenvolvimento da humanidade.

Porque a partir daí o leitor tem como entender a contribuição de cada filósofo e pensador.

E mais do que isto uma série de problemas próprios destes condicionamento aparecem para apreciação.

Até onde vai a História?A História da filosofia?Qual a relação entre a história em geral e a filosofia e assim por diante.

É assim que vejo a filosofia.



sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Dasein II

 

Eu voltei aqui para analisar a questão de Kant e Ariano Suassuna,para esclarecer certos problemas que aparecem frequentemente quando faço uma defesa deste filósofo.

Não estou afirmando de jeito nenhum que a percepção do mundo não seja válida.Que não se possa saber nada.Isto aparece sempre que Kant é defendido.

Então,nós não podemos ter certeza de nada?Não podemos confiar na policia ao investigar um crime,porque não se conhece a coisa em si?

O próprio Kant procurou,na Estética Transcendental,se afastar do Bispo Berkeley,garantindo que é possível conhecer sim ou fazer uma conexão real com o mundo,através da percepção.

Mas nós conhecemos este dasein,este “ isto” que está diante de nós.O que não podemos é um conceito universal,uma apreensão universal de tudo e saber tudo sobre este “ isto” que se coloca diante de nós.

Mesmo na investigação de um crime,se observarmos bem,muita coisa fica irreparavelmente escondida.Num acidente aéreo também.

Não há como restituir o real total em circunstância nenhuma,mas parte dele sim.

A totalidade hegeliano\marxista é só uma construção ,uma união de partes e parcialidades do real,segundo critérios previamente estabelecidos.

Kant acredita que algumas coisas são universais,mas a crítica deste pensamento é algo mais complexo e para um outro artigo.

Aqui eu pretendo dirimir estas desconfianças recorrentes sobre a impossibilidade de conhecer,que não provém de Kant.

Na análise investigativa de um crime,de um acidente aéreo,a percepção dos fatos é conhecimento sim e tem como produzir os efeitos desejados,bem como o ato de fazer ciência tem elementos de comprovação certos e claros.

Não é o fim da previsibilidade científica,mas uma sua relativização.Uma limitação essencial da certeza.

sábado, 13 de setembro de 2025

No dasein de novo problema da coisa em si

 

Ocorreu-me esta semana uma questão,quando vi um video de Ariano Suassuna criticando a “ding-an-Sich”,quer dizer repetindo as críticas tradicionais.

Kant,como já expliquei,nunca disse que não se pudesse conhecer algo,um copo na mão(como no video),uma mesa,ou uma pessoa.O dasein ,o isto que observamos no imediato é plenamente cognoscível.

Contudo,uma definição geral de uma coisa,não é possível de fazer,porque existem inúmeras manifestações delas próprias,não uma só.

O copo na mão de Ariano Suassuna não pode ser definido por uma essência geral de copo.Copo é definido como um recipiente que retém liquidos a serem bebidos ou manipulados.

Só nesta definição nós podemos incluir uma gama quase que infinita de recipientes que possuem usos diversos do copo.

Até mesmo se juntarmos as mãos e bebermos água poderíamos chamá-las de copo?

A filosofia e a razão não provam que a realidade existe.O ser humano só tem a percepção das coisas.O Dasein,o isto que observamos o apreendemos pelos sentidos:há uma adequação entre a expressão linguística do copo,este copo,que a une à percepção,mas,como acabamos de ver,a definição do que um copo é,para além da percepção de um copo singular,este copo,não é possível.

A expressão linguística do dasein é só pela descrição/narração do que ele é,mas mesmo assim é dificil restituir o real.Este copo é bojudo,como tantos outros;é transparente,como tantos outros ,serve para beber liquidos,como tantos outros;serve para beber vinho,porque tem uma abertura menor que permite sentir o bouquet e assim por diante.

No fundo só se pode dizer que o copo tem características e foi usado num contexto especifico,numa data e numa ocasião,cujos critérios de identificação são meramente convencionais:no dia x do ano x Ariano Suassuna pegou um copo na mão e o usou para desancar Kant.

Acaso então não se pode fazer um nexo cognitivo,no caso ,por exemplo,de crimes?

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Porque falo em Utopia II

 

Foi Marcuse quem colocou o problema de se superar a visão cientificista do marxismo,exposta principalmente por Engels,em “ Do socialismo utópico ao socialismo cientifico”,que dá conta de que após o socialismo utópico vem o científico.

Mas nós vimos que não é assim,não só pelos descaminhos do socialismo (“cientifico”),mas também pelas possibilidades contidas no termo genérico utopia e na própria realidade,que como coloquei no artigo anterior,apresenta problemas não resolvidos até hoje.

Chegou a hora de responder às perguntas do artigo anterior:quem garante que a iniciativa privada irá desaparecer?A empresa vai desaparecer?O mercado?O direito?

Partindo do pressuposto de que o homem tem uma natureza e características próprias desta natureza,não se pode deslindar os seus maiores problemas com uma concepção e um ato de vontade.

E já vimos que não está contido no teorema alienação\desalienação a resolução final dos problemas humanos,porque movimento nenhum está pré-dado.

O homem não vai se encontrar consigo mesmo,agindo segundo a vontade.Ele constrói o caminho onde criará as condições para ocupar-se de si mesmo:o tempo livre.

Ocorrendo o tempo livre,repito,quem garante que algumas formas de existência do capitalismo não permaneçam,ainda que modificadas?

Por este motivo não existe uma utopia pronta ,mas alguns elementos básicos a discutir e outros a construir,como num novo pacto da humanidade,humanitário.

A desigualdade,por exemplo,trará enormes problemas,porque nem todos aceitarão e um modo de convencimento há que construir.

Diminuir a distância entre as pessoas e elevar a base social de riqueza ajudam,mas isto,em princípio não garante,repito ,que as diferenças de capacidade não contaminem o solidarismo humano esperado no futuro.

Como prever agora um futuro perfeito?Se existe?