A fila avançava devagar, como se o tempo quisesse prolongar aquele adeus.
O céu de São José dos Campos estava opaco, coberto pela poeira das naves que decolavam uma após a outra. O som das turbinas engolira o canto dos pássaros havia semanas. Na tela translúcida flutuando sobre a entrada da base, uma contagem regressiva: T-43 minutos para mais um embarque terrestre rumo a Marte.
— A gente vai esquecer deles, mãe? — perguntou Luísa, apertando o pingente de prata que herdara da avó.
Clara olhou para a filha e não soube o que dizer. Como responder àquela pergunta com os olhos ainda vermelhos da visita ao jazigo? Como explicar que, apesar de toda a tecnologia, ninguém havia inventado um jeito de levar os mortos?
— Não, filha... A gente nunca esquece. Mas dói como se traíssemos.Vc precisa aceitar isto.
— E se eles acordarem? E se um dia voltarem?
Clara abaixou-se até o nível da menina.
Os mortos não voltam, meu amor. E mesmo que voltassem... não saberiam onde nos encontrar.
Podem voltar sim mãe,clonagem.a sra não falou nos avanços da ciência?
Os seus avós não estão em bom estado para a clonagem e além do mais os governos pararam com as clonagens,por causa do problema populacional.
As lágrimas vieram, contidas, mas certas. Ao redor, centenas de famílias viviam aquele mesmo luto coletivo. Cada passageiro da nave Arcádia carregava o peso de um planeta inteiro e de seus ausentes.
O homem à frente, um senhor de barba espessa e olhos de vidro molhado, carregava uma pequena urna. Os oficiais da Agência Espacial já tinham avisado: nada orgânico, nenhum resquício da Terra poderia ir. Nem cinzas. Ele sabia disso. Mesmo assim, não largava.
— Meu pai sempre disse que queria ver outros mundos — murmurou o homem, falando com ninguém. — Acho que, pelo menos assim, ele vai comigo até a borda.
— Desculpe, senhor — disse o agente uniformizado, aproximando-se com firmeza — não é permitido.
— Eu sei — respondeu ele, entregando a urna sem protesto. — Mas me deixem fingir que ele me acompanhou até aqui.
Clara viu aquilo e sentiu um nó se formar em sua garganta.Porque ele não colocou uma cinza no seu bolso?
— Estamos deixando nossa história para trás — sussurrou para si.
Luísa olhou o céu e falou, quase como prece:
— Será que em Marte tem cemitério?
Clara engoliu em seco, olhou em volta e respondeu com um sorriso triste:
— Só para os que vão viver lá.
As portas da Arcádia se abriram com um sopro metálico. Entraram em silêncio. Como se não quisessem acordar os mortos.