De conformidade com o artigo anterior devo dizer que, para mim, a utopia, como algo novo, deve superar integralmente o passado.
Com isto rompo com outro paradigma de Marx e dos marxistas, que é o de ter como modelo explicativo e histórico a Revolução Francesa.
Os meios para se chegar à utopia devem ser diferentes, consentâneos com o bem-estar que se quer obter neste futuro, que se quer próximo.
Certa ocasião, uma militante prestista do Partido Comunista, Zuleika Alembert se referiu ao fenômeno do stalinismo como parte de um periodo de homens fortes.
Em meio à sociedade capitalista, que buscou arrimo em figuras como Hitler e Mussolini,ser igual a eles, “forte”, soa como estar preso, ainda, ao passado. E isto não é utopia.
Utopia é para a frente, é juventude,porque continuidade. Dentro das reflexões que faço sobre Hegel e sua contradição fundamental entre as leis do movimento e o movimento em si mesmo, a revolução marxista, politica e mal fundamentada,acaba por reproduzir muito mais o passado, o modelo arcaico da sociedade, os pais ao invés dos filhos.
Sim ,porque a contradição da dialética hegeliana favorece , em última instância , o “modelo legal”, quer dizer mais as leis do movimento,do que ele mesmo.
A dialética hegeliana fica no passado, num processo constante de retorno ao ponto de partida.
Habermas, em seu livro “discurso filosófico da modernidade”, mostra,que seguindo o filósofo alemão, a modernidade se caracteriza por sua constante autofundamentação, isto é, por colocar-se no ponto de partida constantemente.
Mas eu penso que tal coisa é na verdade um (re)volta, nem sempre consequente para um modelo passadiço, que por sê-lo,pretende controlar o presente sem conseguir.
Marx se referia aos emblemas da República romana que orientavam a fase mais radical da Revolução Francesa, como um traço distintivo dela, simultaneamente revelador da falta de fundamentos presentes para ela. Toda ruptura é um recomeçar, do nada.Contudo nem sempre é possível encontrar fundamentos no presente para avançar no movimento. Há que buscar no passado um conteudo de continuidade que dá sentido às ações.
Quando Stalin apela para o nacionalismo, principalmente na segunda guerra(mas também antes)está exatamente à procura de fundamentos que lhe faltam.
Neste aspecto, o socialismo mal fundamentado e seu produto monstruoso não são mais do que a permanência daquilo que já devia ter ido e, portanto, igual ao que a revolução queria destruir.
É só destruição, não revolução, não transformação.