quarta-feira, 11 de março de 2026

O humanismo

 

Todo mundo procura definir o humanismo e alguns negam a sua existência e mesmo sua necessidade. O humanismo é uma abstração, é verdade, mas é um ideal utópico e se pode estabelecer alguns critérios de sua realização.

A defesa da humanidade, de sua vida, de sua permanência, é um começo promissor. Mas certamente nós temos problemas para definir um humanismo levando em conta que a humanidade não tem sempre e mais certamente nunca pessoas humanas, no sentido desta defesa.

Ao longo da História nós vemos violências intestinas na humanidade, a por em xeque este projeto. Foucault mesmo, em função dos grandes cataclismos do século XX, chegou a dizer “ o homem morreu” e esta frase tem tudo para ser uma vaticinio definitivo sobre a humanidade: talvez ela não tenha jeito e nós havemos de considerar esta possibilidade.

Este artigo é uma persistência quanto a esta utopia. Nós somos de uma época, diferente do passado, em que se projeta um futuro da humanidade. A utopia não acabou.

As propostas de utopia nunca são para a humanidade toda. Elas sempre se constróem a partir da negação de uma parte da humanidade: a “ utopia” dos nazistas consagrava o direito só da raça branca; a utopia marxista, só dos trabalhadores.

Na base dos cataclismos citados esão estas ideias. Uma revolução comunista não é para todo mundo, muito menos, claro, a dos nazistas. No meio disto inúmeras pessoas inocentes perderam a vida, sem até entender porquê.

Propor um caminho geral , da paz para a paz, que evite estas limitações das utopias recentes, é um objetivo de minha vida, agora, chegando ao final.

Não aceito de forma alguma a naturalidade dos crimes de Stalin, Hitler e do sistema social em que nós vivemos e intento discutir uma utopia que possa se erguer numa base construtiva e não destrutiva.

O critério não é destruir para construir algo em cima, mas resolver os problemas do presente e construir o futuro.

Existe uma desumanização no socialismo sim.

 Na medida em que o socialismo iguala as pessoas, passando por cima das condições da natureza, ele tembém cria situações de alienação.

O estado é em si, em qualquer época, alienante, porque ele é sempre ocupado com um grupo pequeno. Por mais que ele tenha afinidade com o povo este grupo acaba decidindo sem esta afinidade. Decide ee mesmo, segundo suas responsabilidades, que nem sempre se adequam ao que o restante quer.

Marx e Engels sempre afirmaram que não existia comunismo ou utopia sem o fim do estado. As duas realidades não são compatíveis. A humanidade tem que se governar a si mesma, nenhum grupo ficando acima dela.

Então o socialismo real não diverge desta norma de todos os estados passados e do estado burguês hodiernamente: um grupo controla a comunidade, segundo citérios supostamente coletivos, mas que na verdade não atendem à complexidade desta comunidade, formada por “ indivíduos concretos vivos”(Marx). Antes a suprimem.

A alienação , vista sempre como um fenômeno desumanizador burguês, está presente sim no socialismo e no socialismo real, porque o estado aqui tem o mesmo desenho do estado burguês, ainda que os compromissos sejam “ coletivos”.

O grupo social governado aliena a sua vontade(para usar os termos de Rousseau) a este grupo e fica pois alienado de si mesmo(em termos marxistas)porque não governa os seus interesses, as suas necessidades, por si mesmo.

Enquanto não há uma desalienação completa da sociedade, como um todo, o melhor é usar os termos social- democráticos e o estado previdenciário, para mitigar as consequencias deste processo, reconhecendo no bojo disto o papel da democracia e da cidadania, que, pele menos, garantem uma manifestação e visibilidade aos atores sociais, ainda que sob condições adversas(miséria, repressão) e é por este caminho de guermantes que se há de buscar a utopia e a desalienação final.


sábado, 7 de março de 2026

Hegel tempo e modo

 

A confusão que faz Hegel entre o movimento e os modos do movimento compromete esta visão de “ ciência”. Na verdade ele está colocando a dialética no conteúdo das coisas, no Ser. O movimento estaria no intra-ser, na sua essência e substância. É aquele principio de que uma coisa é ela e outra ao mesmo tempo. No Ser está o não-Ser, o seu contrário lógico, que o faz movimentar-se. Todo o ser tem o seu contrário. Então o contrário de movimento é não movimento. Como então algo que não é “faz” o que é? É lógico que muitos responderiam: o repouso é o contrário do movimento, como a física ensina.

Contudo , hoje nós sabemos que nada está realmente parado e que o repouso é uma ilusão, como a relativistica ensina.

A lógica objetiva dialética parte do pressuposto de que ela expressa o movimento do real, mas nós vemos, com este exemplo ultimo e anterior, que existe uma discrepância entre o saber científico, objetivo e a dialética objetiva hegeliana.

É ilusório falar em repouso real ,como contrário ao movimento e assim sendo a dialética hegeliana objetiva é posta em xeque.

Se o movimento é continuo ,inercial, então não há leis dialéticas que expressam a sua verdade . A resistência à inércia é uma ilusão da ciência moderna que ainda influenciava Galileu e Hegel.

A mudança no paradigma científico mostra que a própria ciência(e a ciência da lógica), os próprios saberes, são atimgidos pelo movimento, não havendo como constituir uma certeza definitiva e absoluta.

Isto atinge também a ciência da lógica como vimos. Ela se constrói , nos seus modos, a partir das ciências em geral, que se modificam , que acrescentam saberes ao longo da História e então a ciência da lógica não só corre este risco, como é atingida por esta verdade o tempo todo.

A lógica, de modo geral, formal, subsiste, porque ela não se preocupa com o movimento , mas com a ordem das coisas. Quando se preocupa com o movimento aparecem contradições.



sexta-feira, 6 de março de 2026

Hegel e a questão do movimento

 

Hegel é a resposta mais ampla que existe sobre a questão do movimento, que começou com Galileu. Os croquis de Galileu sobre as fases de Vênus e os movimentos das luas de Júpiter convenceram o cientista da veracidade do movimento e da mudança, mas isto não s e tornou uma verdade geral de imediato.

Até o final do século XVII e entrando um pouco no seguinte, ainda era necessário convencer muita gente da sua existência. Movimento é mudança , é possibilidade, direção diferente e se isto cai nas mãos da humanidade, como caiu na França da revolução e do iluminismo, todos os poderes estão ameaçados.

Tanto na França , como na Alemanha, esta questão cresceu forte e rapidamente chamou a atenção dos respectivos iluminismos. Na Alemanha, a resposta “ definitiva”(se é que existe uma)é a dialética de Hegel, que parece, com suas leis complexas, ter justificado e explicado o movimento.

Mas por mais que Hegel tenha tentado cientificizar o movimento(tornando-o na verdade uma outra metafísica[ou seja um não-movimento])para dar-lhe um fundamento inatacável, o movimento, como eu já expliquei sobejamente em outros artigos, não é pré-dado, ele simplesmente é, se fazendo. Os modos pelos quais o movimento se manifesta são uma produção da natureza e da sociedade( movimento químico, a educação), mas ele se modifica na medida mesmo em que é livre.

Hegel colocou os modos à frente do movimento e é isto que compromete a “ Ciência da Lógica”: não existe nada como ciência do movimento, mas dos modos do movimento, como não existe um Ser de conteúdos, mas um ser em geral, que se movimenta.

De qualquer forma o reconhecimento da existênca do movimento se faz por Hegel, no fim do século XVIII e inicio do XIX e marca o começo da “ era das revoluções”, em que os poderes estabelecidos são derrubados.

Em nossa época parece ter havido uma derrota das revoluções, o que a torna o tempo da resignação e da incerteza, como dizia José Arthur Giannotti, mas o movimento continua aí.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Hegel e a lógica sem humanidade

 

A incorporação do mal é para construir uma lógica explicativa do real. Se não houvesse isto, esta lógica, como explicar o fracasso da Revolução Francesa? Em termos éticos abordar a história é depender de um projeto pré-estabelecido que dê sentido a ela e nem sempre fazer no imediato da pesquisa.

No meu modo de entender a Revolução Francesa significou um impulso de progresso relativo na humanidade. E seu impulso foi até o ano de 1889.

Caracterizar o terror como uma necessidade histórica é algo possível de constestar se nós levarmos em consideração como a História de fato é. Para Hegel existe uma filosofia da história pré-dada. É como se o seu desenvolvimento obedecesse a leis rígidas.

Mas a história não é assim. É outra questão saber porque Hegel raciocinou assim. Em outro artigo eu falarei disto aí.

A História é consequencial. É lógico que as forças desencadeadas pela revolução continuaram em Napoleão tornando a questão do terror de importância relativa. A queda no regime de terror não necessariamente garantiu a revolução. Mesmo no termidor, estas forças continuaram operando e desembocaram, como eu já falei, em Napoleão e suas guerras.

Mesmo depois de Napoleão ,após a restauração, como ocorreu na Revolução Gloriosa da Inglaterra, estas tendências prosseguiram. Todo mundo analisa a Revolução Francesa como tendo terminado no Termidor, mas isto não é verdade.

O progresso relativo da Revolução Francesa significa que em termos de direitos humanos houve muito pouco avanço, mas em termos de maior hegemonia do capitalismo, sim.

Muito embora a maior liberdade nascida dela tenha sido conseguida, os problemas de direitos humanos continuaram com a sociedade de classes. A História é assim mesmo, cada época histórica é assim mesmo: tem coisas positivas e negativas. Proudhon tem razão. De modo que a questão de Hegel justificar o Terror, como parte da História, revela um pouco a limitação da vida individual do pesquisador, que não tem uma visão de longo prazo possível.

domingo, 1 de março de 2026

De como a frase “aut césar aut nullius” é um problema psicológico

 

Diversos problemas psicologicos derivam deste delirio, supostamente dito por Júlio César. Contam as crônicas historicas que vindo para Roma, César se deparou com uma aldeiazinha e teria dito ao seu lugar tenente: “antes ser primeiro aqui do que segundo em Roma”.

Estas afirmações,constantes da História , nos mostram certos aspectos da psique humana. Não sou muito fã de explicar a História a partir do monismo psicológico(a partir de qualquer monismo), mas existe sim uma mediação explicativa ,unindo os lideres aos comandados.

Tem aquela frase atribuída ao anjo caído Lúcifer, que diz : “antes primeiro no inferno do que segundo no céu”. Eu falarei dela em outro artigo.

Aqui desenvolvo este tema de egocentria dos poderosos, que acaba por influenciar os pequenos, aqueles que vivem no cotidiano, sem nome. Este traço de união, entre poder e sem poder, explica sim muitas questões históricas, principalmente esta: a legitimação do poder.

Aquele homem, perdido no cotidiano, e que não se conforma se une ao lider para se sentir primeiro também, como ele. César não tinha a questão do culto à personalidade diante de si, mas tinha a da necessidade de legitimação e buscou, com Cleópatra uma ligação com o oriente. Quando disse esta frase ,revelava um conceito psiquico que é comum cada vez mais na sociedade: de alguma forma é preciso se sentir acima do cotidiano comum, sem poder, sem compensações, sem nada.

O poder de mandar neste cotidiano se faz com a ajuda de tantos que pensam assim: antes ser primeiro em casa do que segundo, no meio dos homens.

Ninguém psicologicamente suporta ser colocado de lado. Ser segundo numa aldeia produz uma sensação de ser o melhor e isto é relativamente suficiente para compensar a humilhação e o não reconhecimento.



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

As origens do pensamento de Hegel VIII Jacob Boehme

 

Um dos exemplos mais notórios da igualação do bem e do mal na dialética, é a questão dos judeus. Sacrificados na segunda guerra eles foram os garantidores definitivos da pátria judaica ,tornando impossivel a negativa dos outros povos quanto a este pedido.

Assim como supostamente aquele que compreende a liberdade só depois de ser escravo, aquele que morre injustiçado, sob tortura, é a condição da repulsa dos bons, é a condição do reconhecimento do bem.

Ainda me lembro de Francisco Julião se referindo a isto, aplicando na questão da exploração: quanto mais, mais a consciência nasce entre os trabalhadores.

Isto tudo encerra um cinismo , uma perversidade, que parece constituir a natureza do ser humano, assim como alei do menor esforço.

A complexidade da sociedade afasta os homens e o sofrimento daquele que não é visto e não tem importânca para ninguém. A figura de Cristo é uma tentativa de lembrar em todos os lugares que o sofirmento existe e que devemos lutar contra ele. Na faina diária ,no entanto, na busca incessante do dinheiro onde arranjar tempo para pessoalmente ajudar?

Nas democracias representativas ocorre aquilo que Rousseau já havia notado no “ Contrato Social”: há a alienação da vontade e nós dizemos que neste processo de alienação da vontade perde-se o compromisso quanto ao sofrimento humano.

Uma época de lembrar este sofrimento, estas injustiças, que ficam como temas da arte e da literatura( e de outros meios também), é a em que vivemos. É um avanço, mas é pouco, e a necessidade de encontrar um caminho se torna cada vez mais imperativo.

Só o pensamento resta como forma de denuncia real destes fatos, mas falta o rastilho de pólvora, a centelha do movimento. Depois da Revolução Russa , onde encontrá-la?