sábado, 7 de março de 2026

Hegel tempo e modo

 

A confusão que faz Hegel entre o movimento e os modos do movimento compromete esta visão de “ ciência”. Na verdade ele está colocando a dialética no conteúdo das coisas, no Ser. O movimento estaria no intra-ser, na sua essência e substância. É aquele principio de que uma coisa é ela e outra ao mesmo tempo. No Ser está o não-Ser, o seu contrário lógico, que o faz movimentar-se. Todo o ser tem o seu contrário. Então o contrário de movimento é não movimento. Como então algo que não é “faz” o que é? É lógico que muitos responderiam: o repouso é o contrário do movimento, como a física ensina.

Contudo , hoje nós sabemos que nada está realmente parado e que o repouso é uma ilusão, como a relativistica ensina.

A lógica objetiva dialética parte do pressuposto de que ela expressa o movimento do real, mas nós vemos, com este exemplo ultimo e anterior, que existe uma discrepância entre o saber científico, objetivo e a dialética objetiva hegeliana.

É ilusório falar em repouso real ,como contrário ao movimento e assim sendo a dialética hegeliana objetiva é posta em xeque.

Se o movimento é continuo ,inercial, então não há leis dialéticas que expressam a sua verdade . A resistência à inércia é uma ilusão da ciência moderna que ainda influenciava Galileu e Hegel.

A mudança no paradigma científico mostra que a própria ciência(e a ciência da lógica), os próprios saberes, são atimgidos pelo movimento, não havendo como constituir uma certeza definitiva e absoluta.

Isto atinge também a ciência da lógica como vimos. Ela se constrói , nos seus modos, a partir das ciências em geral, que se modificam , que acrescentam saberes ao longo da História e então a ciência da lógica não só corre este risco, como é atingida por esta verdade o tempo todo.

A lógica, de modo geral, formal, subsiste, porque ela não se preocupa com o movimento , mas com a ordem das coisas. Quando se preocupa com o movimento aparecem contradições.



sexta-feira, 6 de março de 2026

Hegel e a questão do movimento

 

Hegel é a resposta mais ampla que existe sobre a questão do movimento, que começou com Galileu. Os croquis de Galileu sobre as fases de Vênus e os movimentos das luas de Júpiter convenceram o cientista da veracidade do movimento e da mudança, mas isto não s e tornou uma verdade geral de imediato.

Até o final do século XVII e entrando um pouco no seguinte, ainda era necessário convencer muita gente da sua existência. Movimento é mudança , é possibilidade, direção diferente e se isto cai nas mãos da humanidade, como caiu na França da revolução e do iluminismo, todos os poderes estão ameaçados.

Tanto na França , como na Alemanha, esta questão cresceu forte e rapidamente chamou a atenção dos respectivos iluminismos. Na Alemanha, a resposta “ definitiva”(se é que existe uma)é a dialética de Hegel, que parece, com suas leis complexas, ter justificado e explicado o movimento.

Mas por mais que Hegel tenha tentado cientificizar o movimento(tornando-o na verdade uma outra metafísica[ou seja um não-movimento])para dar-lhe um fundamento inatacável, o movimento, como eu já expliquei sobejamente em outros artigos, não é pré-dado, ele simplesmente é, se fazendo. Os modos pelos quais o movimento se manifesta são uma produção da natureza e da sociedade( movimento químico, a educação), mas ele se modifica na medida mesmo em que é livre.

Hegel colocou os modos à frente do movimento e é isto que compromete a “ Ciência da Lógica”: não existe nada como ciência do movimento, mas dos modos do movimento, como não existe um Ser de conteúdos, mas um ser em geral, que se movimenta.

De qualquer forma o reconhecimento da existênca do movimento se faz por Hegel, no fim do século XVIII e inicio do XIX e marca o começo da “ era das revoluções”, em que os poderes estabelecidos são derrubados.

Em nossa época parece ter havido uma derrota das revoluções, o que a torna o tempo da resignação e da incerteza, como dizia José Arthur Giannotti, mas o movimento continua aí.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Hegel e a lógica sem humanidade

 

A incorporação do mal é para construir uma lógica explicativa do real. Se não houvesse isto, esta lógica, como explicar o fracasso da Revolução Francesa? Em termos éticos abordar a história é depender de um projeto pré-estabelecido que dê sentido a ela e nem sempre fazer no imediato da pesquisa.

No meu modo de entender a Revolução Francesa significou um impulso de progresso relativo na humanidade. E seu impulso foi até o ano de 1889.

Caracterizar o terror como uma necessidade histórica é algo possível de constestar se nós levarmos em consideração como a História de fato é. Para Hegel existe uma filosofia da história pré-dada. É como se o seu desenvolvimento obedecesse a leis rígidas.

Mas a história não é assim. É outra questão saber porque Hegel raciocinou assim. Em outro artigo eu falarei disto aí.

A História é consequencial. É lógico que as forças desencadeadas pela revolução continuaram em Napoleão tornando a questão do terror de importância relativa. A queda no regime de terror não necessariamente garantiu a revolução. Mesmo no termidor, estas forças continuaram operando e desembocaram, como eu já falei, em Napoleão e suas guerras.

Mesmo depois de Napoleão ,após a restauração, como ocorreu na Revolução Gloriosa da Inglaterra, estas tendências prosseguiram. Todo mundo analisa a Revolução Francesa como tendo terminado no Termidor, mas isto não é verdade.

O progresso relativo da Revolução Francesa significa que em termos de direitos humanos houve muito pouco avanço, mas em termos de maior hegemonia do capitalismo, sim.

Muito embora a maior liberdade nascida dela tenha sido conseguida, os problemas de direitos humanos continuaram com a sociedade de classes. A História é assim mesmo, cada época histórica é assim mesmo: tem coisas positivas e negativas. Proudhon tem razão. De modo que a questão de Hegel justificar o Terror, como parte da História, revela um pouco a limitação da vida individual do pesquisador, que não tem uma visão de longo prazo possível.

domingo, 1 de março de 2026

De como a frase “aut césar aut nullius” é um problema psicológico

 

Diversos problemas psicologicos derivam deste delirio, supostamente dito por Júlio César. Contam as crônicas historicas que vindo para Roma, César se deparou com uma aldeiazinha e teria dito ao seu lugar tenente: “antes ser primeiro aqui do que segundo em Roma”.

Estas afirmações,constantes da História , nos mostram certos aspectos da psique humana. Não sou muito fã de explicar a História a partir do monismo psicológico(a partir de qualquer monismo), mas existe sim uma mediação explicativa ,unindo os lideres aos comandados.

Tem aquela frase atribuída ao anjo caído Lúcifer, que diz : “antes primeiro no inferno do que segundo no céu”. Eu falarei dela em outro artigo.

Aqui desenvolvo este tema de egocentria dos poderosos, que acaba por influenciar os pequenos, aqueles que vivem no cotidiano, sem nome. Este traço de união, entre poder e sem poder, explica sim muitas questões históricas, principalmente esta: a legitimação do poder.

Aquele homem, perdido no cotidiano, e que não se conforma se une ao lider para se sentir primeiro também, como ele. César não tinha a questão do culto à personalidade diante de si, mas tinha a da necessidade de legitimação e buscou, com Cleópatra uma ligação com o oriente. Quando disse esta frase ,revelava um conceito psiquico que é comum cada vez mais na sociedade: de alguma forma é preciso se sentir acima do cotidiano comum, sem poder, sem compensações, sem nada.

O poder de mandar neste cotidiano se faz com a ajuda de tantos que pensam assim: antes ser primeiro em casa do que segundo, no meio dos homens.

Ninguém psicologicamente suporta ser colocado de lado. Ser segundo numa aldeia produz uma sensação de ser o melhor e isto é relativamente suficiente para compensar a humilhação e o não reconhecimento.



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

As origens do pensamento de Hegel VIII Jacob Boehme

 

Um dos exemplos mais notórios da igualação do bem e do mal na dialética, é a questão dos judeus. Sacrificados na segunda guerra eles foram os garantidores definitivos da pátria judaica ,tornando impossivel a negativa dos outros povos quanto a este pedido.

Assim como supostamente aquele que compreende a liberdade só depois de ser escravo, aquele que morre injustiçado, sob tortura, é a condição da repulsa dos bons, é a condição do reconhecimento do bem.

Ainda me lembro de Francisco Julião se referindo a isto, aplicando na questão da exploração: quanto mais, mais a consciência nasce entre os trabalhadores.

Isto tudo encerra um cinismo , uma perversidade, que parece constituir a natureza do ser humano, assim como alei do menor esforço.

A complexidade da sociedade afasta os homens e o sofrimento daquele que não é visto e não tem importânca para ninguém. A figura de Cristo é uma tentativa de lembrar em todos os lugares que o sofirmento existe e que devemos lutar contra ele. Na faina diária ,no entanto, na busca incessante do dinheiro onde arranjar tempo para pessoalmente ajudar?

Nas democracias representativas ocorre aquilo que Rousseau já havia notado no “ Contrato Social”: há a alienação da vontade e nós dizemos que neste processo de alienação da vontade perde-se o compromisso quanto ao sofrimento humano.

Uma época de lembrar este sofrimento, estas injustiças, que ficam como temas da arte e da literatura( e de outros meios também), é a em que vivemos. É um avanço, mas é pouco, e a necessidade de encontrar um caminho se torna cada vez mais imperativo.

Só o pensamento resta como forma de denuncia real destes fatos, mas falta o rastilho de pólvora, a centelha do movimento. Depois da Revolução Russa , onde encontrá-la?

A teoria da alienação

 

Istvan Mesjaros colocava na origem da teoria da alienação a doutrina da graça da religião cristã e estava parcialmente certo. Mas do ponto de vista estritamente materialista a alienação ocorre quanto mais o homem se complexifica em suas relações. A resposta cristã é uma tentativa idealista de explicar o fenômeno, mas a verdade é que a teia de relações,quanto mais cresce, afasta cada vez mais o homem do homem, através de mediações de convencimento e poder que visam a dar uma organização social, a qual esconde injustiças e exploração.

Fica parecendo, com o que eu digo , que havia uma certa inevitabilidade no processo de crescimento material da humanidade, mas a minha impressão sempre foi esta, levando em conta as enormes insuficiências da humanidade em seus inicios na superfície terrestre. As condições geográficas também: relação com os alimentos, com os recursos naturais e nós poderíamos revistar a discussão posta por Montesquieu sobre os condicionantes geográficos da civilização.

Desde a comunidade primitiva a única forma de mantê-la como uma forma de organização mais justa e menos cruel é se afastar da civilização, como esta última construida: pela exploração das classes menos favorecidas, pela divisão injusta das riquezas, que ficam na mão das classes altas e pela supressão da liberdade da maioria do grupo social. Isto com as mais diversas justificativas ideológicas.

Mediações e mais mediações surgem ao longo do tempo para afastar o homem do homem e reuni-lo de novo é uma tarefa hercúlea ,dificil e cada vez mais complexa.

Mas é a partir da questão material, que deve haver a discussão sobre o problema desta alienação que separa o homem e a humanidade.

O uso pura e simples da religião, da perda da graça pelo pecado, simplifica demais: o homem não perdeu a graça divina , ele perdeu o seu imediato, a relação com a natureza, por culpa dos outros homens ,movidos por novos interesses, na medida do crescimento material da sociedade. A ser continuado.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

As origens do pensamento de Hegel VII Jacob Boehme o mal na prática

 

O problema do bem e do mal em Hegel é fruto do seu pensamento sobre a história, a sua filosofia da História, um conceito que é atinente praticamente a ele: ele inventou este termo, que vinha sendo gestado por Jacob Boehme e Mestre Eckhart.

Na sua filosofia da História o mal ocupa efetivamente um lugar legítimo. Como tantas vezes tenho demonstrado foi a partir da legitimação do terror na Revolução Francesa que Hegel começou a elaborar o seu pensamento histórico.

Para dar sentido a este momento da Revolução, um momento do tempo da Revolução, ele entendeu não como fracasso aquilo que outros intelectuais o entendiam como tal.

O fracasso da Revolução é um meio para se ter consciência do papel da justiça, da liberdade e do bem. Sem isto não haveria o nascimento desta consciência e desta luta.

Ainda me lembro de meu professor Roland Corbisier mostrando que só se tem, dialeticamente falando, consciência da liberdade porque se a perdeu, no âmbito da História.

Então o terror tem um significado positivo de abrir o caminho da luta pelo bem. Mas também o genocidio na época do nazismo? Segundo Hegel sim. Quando Althusser diz que a “história é assim mesmo” não está fazendo mais do que expressar aquilo que mais do que potencialmente Hegel formulou.

E mais do que isto, o mal pode produzir o bem:muita gente não s e dá conta de que,em grande parte, a descolonização pós-segunda guerra,a começar pela India, só foi possível com o enfraquecimento de Inglaterra e França na segunda guerra.

Muitos dizem que Hitler, se fosse correto, aceitava a derrota definitiva em fevereiro de 1943 em stalingrado e não prosseguia no conflito.

Mas a rigor a luta precisava continuar para que seus objetivos históricos pudessem se realizados , um dos quais era o enfraquecimento das potências coloniais já citadas.

A India foi beneficiária: a Inglaterra ficou totalmente depauperada, assim como a França e tudo por causa da continuidade da guerra, que Hitler insistiu em seguir.