terça-feira, 21 de julho de 2026

Viagem à história da filosofia Locke

 

Continuo os meus estudos sobre os filósofos e pensadores. Como já expliquei em antigo artigo, pensador é aquele que reflete sobre qualquer assunto, sobre diversos temas, enquanto o filósofo é aquele que trabalha naturalmente só com a filosofia.

E há muitos anos também , usando critérios da professora Katia Muricy, disse eu que a filosofia é um sistema de pensamento, de ideias inter-relacionadas, metodicamente.

Um pensador pode tratar de economia, de psicologia, de pedagogia, mas um filósofo se define por trabalhar com a filosofia, com o pensamento puro, não referenciado a uma empiria.

Aliás muita gente entende a filosofia separada da empiria. A empiria só seria afeita à ciência prática enquanto que a filosofia fica só no pensamento puro.

No passado também ,já esclareci a minha posição: não é possível um pensamento que não seja influenciado direta ou indiretamente por uma experiência.

Ela pode não ter, no imediato, uma influência, mas está presente na formação do eu e do ego, eles se intercambiam dialeticamente, num diálogo permanente.

Existem filósofos que fazem filosofias empiristas, que admitem esta relação e até entendem que a origem do pensamento é a empiria, a experiencia do ser humano no contato com o mundo.

Hume, Leibnitz e... Locke.

Para eles nunca houve esta distinção, mas eles foram justamente criticados por reduzir tudo a uma experiência objetiva, sem levar em consideração as aptidões próprias, mentais, cerebrais, do ser humano.

Até o século XIX, Engels, por exemplo, se admitia somente a primazia da experiência, mas curiosamente isto reflete um certo intelectualismo objetivista e idealista, na media em que a experiência nunca exatamente nunca nos traz aquilo que os sentidos mostram. A pura aceitação do que a experiência, os sentidos nos traz é intelectualismo objetivista e idealista.

domingo, 19 de julho de 2026

viagem para Marte

 

A fila avançava devagar, como se o tempo quisesse prolongar aquele adeus.

O céu de São José dos Campos estava opaco, coberto pela poeira das naves que decolavam uma após a outra. O som das turbinas engolira o canto dos pássaros havia semanas. Na tela translúcida flutuando sobre a entrada da base, uma contagem regressiva: T-43 minutos para mais um embarque terrestre rumo a Marte.

A gente vai esquecer deles, mãe? — perguntou Luísa, apertando o pingente de prata que herdara da avó.

Clara olhou para a filha e não soube o que dizer. Como responder àquela pergunta com os olhos ainda vermelhos da visita ao jazigo? Como explicar que, apesar de toda a tecnologia, ninguém havia inventado um jeito de levar os mortos?

Não, filha... A gente nunca esquece. Mas dói como se traíssemos.Vc precisa aceitar isto.

E se eles acordarem? E se um dia voltarem?

Clara abaixou-se até o nível da menina.

  • Os mortos não voltam, meu amor. E mesmo que voltassem... não saberiam onde nos encontrar.

  • Podem voltar sim mãe,clonagem.a sra não falou nos avanços da ciência?

  • Os seus avós não estão em bom estado para a clonagem e além do mais os governos pararam com as clonagens,por causa do problema populacional.

As lágrimas vieram, contidas, mas certas. Ao redor, centenas de famílias viviam aquele mesmo luto coletivo. Cada passageiro da nave Arcádia carregava o peso de um planeta inteiro e de seus ausentes.

O homem à frente, um senhor de barba espessa e olhos de vidro molhado, carregava uma pequena urna. Os oficiais da Agência Espacial já tinham avisado: nada orgânico, nenhum resquício da Terra poderia ir. Nem cinzas. Ele sabia disso. Mesmo assim, não largava.

Meu pai sempre disse que queria ver outros mundos — murmurou o homem, falando com ninguém. — Acho que, pelo menos assim, ele vai comigo até a borda.

Desculpe, senhor — disse o agente uniformizado, aproximando-se com firmeza — não é permitido.

Eu sei — respondeu ele, entregando a urna sem protesto. — Mas me deixem fingir que ele me acompanhou até aqui.

Clara viu aquilo e sentiu um nó se formar em sua garganta.Porque ele não colocou uma cinza no seu bolso?

Estamos deixando nossa história para trás — sussurrou para si.

Luísa olhou o céu e falou, quase como prece:

Será que em Marte tem cemitério?

Clara engoliu em seco, olhou em volta e respondeu com um sorriso triste:

Só para os que vão viver lá.

As portas da Arcádia se abriram com um sopro metálico. Entraram em silêncio. Como se não quisessem acordar os mortos.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Hegel e a História da Filosofia e a Filosofia da História meus estudos em História da Filosofia

 

Há uma diferença entre História da Filosofia e Filosofia da História. A narrativa do pensamento dos filósofos é uma coisa, outra é explicar a história sob um processo lógico admitido previamente.

Quem criou uma filosofia da História foi Hegel e esta discussão permanece até hoje, se existe ou não tal “filosofia”.

A maioria abandonou completamente este conceito, mas como acontece com toda a metafísica(que o é, a filosofia da história)alguns temas atinentes ao problema permanecem em disputa e discussão até aos dias de hoje.

Mas o que eu quero falar aqui neste artigo é sobre os meus estudos de filosofia, que eu já disse versam sobre a História da Filosofia. Não é que eunão me interesse pelos autores de filosofia. Mas eu procuro sempre trabalhar as circunstâncias nas quais os pensadores produzem as suas ideias.

Não acho possível separar uma coisa de outra e talvez fosse mais fácil entendê-los se esta perpsectiva histórica fosse colocada pari passu à sua descrição nos manuais de filosofia e história da filosofia.

Assim como na ciência fica mais fácil entender certos conceitos e ideias vendo a contribuição de outros e como se dá a chegada a certas descobertas(que é um empreendimento coletivo em grande parte), na filosofia e nas ciências sociais o mesmo ajudaria a entender melhor certos conceitos, analisando a sua gênese.

Eu trabalho com vários filósofos: Nietzsche; Hegel; Marx; platão ; aristóteles; os pré-socráticos; Kant , a filosofia clássica alemã; Heidegger ;Sartre et al e daqui por diante procurarei trabalhar constantemente com estes pensadores na sua perspectiva histórica, num esboço de história da filosofia, que busque os condicionamentos da sua obra.

Mas isto dentro também de uma procura de algo novo ou escondido nestas obras. Por mais que tenham sido debatidos estes autores há sempre algo a garimpar.



sexta-feira, 10 de julho de 2026

Hegel a identidade concreta e a identidade formal

 

A identidade concreta é a identidade do movimento(dialético somente?),a identidade formal, abstrata formal se constrói por um juizo que identifica(adequa) sujeito cognoscente e objeto cognoscivel. Se eu digo “a bola é redonda”, esta identidade é óbvia.

Farei uma explicação prévia sobre o juizo, que eu falei tanto em Kant:como se sabe Hegel divide o seu trabalho em três partes, a doutrina do Ser, a doutrina da essência e a do conceito.

Pelo conceito nós apreendemos a essência do Ser, mas o método de produção do conhecimento, segue além no juizo e daí para o silogismo.

O que dissemos no primeiro parágrafo se refere à identidade abstrato\formal. Mas há que se compreender que diante da unidade do conceito concreto “bola” existem muitas possibilidades de diferenças conceituais. A bola pode ser azul, pode ser de plástico, de encher de ar, enfim, uma infinidade de possilidades.

A escolha do sujeito “bola” tira-o do seu isolamento conceitual, a partir dos diferentes e possíveis predicados. Existe uma tensão entre os dois e inere ao sujeito a qualidade atribuida a ele(redonda).

Estes dois termos , sujeito bola e predicado redonda, só se constituem porque são diferentes. Tal significa que a unidade formal inicial a adequação entre dois termos “ a bola é redonda”,só se constitui porque eles são diferentes.

Mas até aí estamos em Kant: a escolha das diversas qualidades da bola não é como Hegel pensa, pois há uma dialética obrigatória entre estes dois termos.

O sujeito só existe dialeticamente pelo seu contrário o predicado. S é S porque se relaciona com o P, predicado e P é P porque é determinado por S.



terça-feira, 7 de julho de 2026

Hegel VI

 

Então o problema entre a abstração formal e dialética é que a primeira não pespega o movimento do Ser. Mas ela não está propriamente superada, mas limtida em seus prodromos.

De modo geral Hegel foi muito estudado e eu não pretendo seguir o caminho destes estudiosos. Fazer um texto é sempre fazer algo, por minimo que seja. Já vale achar um pedrinha pequena, como preconizava Heidegger.

Então, pretendo ,nestes artigos, focar nos dois livros principais de Hegel, fenomenologia e ciencia da lógica e alguns outros menos conhecidos, notadamente o último, para verificar a cientificidade ou não desta “ Ciência da Lógica”, se a lógica é uma ciência e se expressa a lógica das coisas.

Em grande parte esta pergunta já foi muitas vezes respondida, mas ela não tem a repercussão devida para que se compreenda o verdadeiro papel da dalética, que é um método especifico para prospectar certas realidades.

Se imaginarmos que o mundo obedece a uma lógica ,qualquer que seja ela, teremos que discutir qual a que predomina e a resposta será a dialética pois ela expressa o movimento, que é a coisa mais universal que existe. Sendo o não movimento pura ilusão.

Mas como nós temos falado, o movimento explica o que uma coisa é e que a coisa que é está em movimento.

Se objetivamente, no entanto, o movimento fosse tudo, fosse sempre, não haveria sequer como dizer a palavra Ser. Quando se diz tudo está em movimento, não quer dizer que tudo é movimento , que o todo é movimento, porque não haveria todo. Todo de quê?

É como se tudo se transformasse o tempo todo(a totalidade do tempo) num átimo.

O átimo não expressa o movimento, sendo parte dele: o movimento é uma extensão, como o Ser é extatico.

Então a dialética entre o tempo , o movimento e o Ser, é extensiva e se constitui de diversas partes que não se diluem umas nas outras, não são a mesma coisa, mas se relacionam viradas umas para as outras: Ser-Movimento-tempo.



domingo, 21 de junho de 2026

As consequencias morais e psicológicas da coletivização de stalin

A coletivização pelo alto de Stalin, em 1930, foi, como já expliquei ,um ato muito parecido com a formação dos estados-nacionais no ocidente.

Contudo no ocidente com a formação deste estado/nacional , em alguns lugares (não em todos, Portugal e Espanha fizeram uma repressão extrema)se manteve uma certa liberdade criativa.

A coletivização forçada teve que ser secundada por atividades criativas e livres, porque a sufocação da sociedade é impossível.

Neste periodo, da coletivização, que vai de 1928 até 1932, Stalin tomou uma série de medidas “libertárias”, assim como tinha acontecido, guardadas as devidas proporções, nos páises do ocidente, principalmente os referidos páises, que fizeram a sua nação a partir do estado.

Estas medidas consistiram em chamar novamente os intelectuais, garantir um pouco de liberdade. Isto era tudo controlado e em grande parte falso, porque só valia a fachada para o público e às vezes para os próprios artistas. Gorky demonstrou ser muito ingênuo quanto às intenções de Stalin.

Mas no final de contas esta coletivização é feita a partir do estado, que passa a permear como nunca permeara antes , a sociedade toda, no fenômeno politico conhecido como “totalitarismo”, que alguns teóricos atuais consideram semelhante ao do absolutismo monárquico.

Mas o fato é que ela organiza a sociedade dentro de um igualitarismo altamente útil para o governo. E inútil para a criação.

É uma versão politica do cristianismo católico em que todo mundo deve ser igual, não levantando a cabeça de modo nenhum.

Forma-se numa sociedade assim , o ressentimento e a inveja, que carimbam de culpa aquele que busca se destacar.

Então nós temos um país em que ninguém larga de ninguém, ninguém deixa de lado os costumes e os arranjos familiares para manter o estado das coisas.

A coletivização pelo alto de Stalin, em 1930, foi, como já expliquei ,um ato muito parecido com a formação dos estados-nacionais no ocidente.

Contudo no ocidente com a formação deste estado/nacional , em alguns lugares (não em todos, Portugal e Espanha fizeram uma repressão extrema)se manteve uma certa liberdade criativa.

A coletivização forçada teve que ser secundada por atividades criativas e livres, porque a sufocação da sociedade é impossível.

Neste periodo, da coletivização, que vai de 1928 até 1932, Stalin tomou uma série de medidas “libertárias”, assim como tinha acontecido, guardadas as devidas proporções, nos páises do ocidente, principalmente os referidos páises, que fizeram a sua nação a partir do estado.

Estas medidas consistiram em chamar novamente os intelectuais, garantir um pouco de liberdade. Isto era tudo controlado e em grande parte falso, porque só valia a fachada para o público e às vezes para os próprios artistas. Gorky demonstrou ser muito ingênuo quanto às intenções de Stalin.

Mas no final de contas esta coletivização é feita a partir do estado, que passa a permear como nunca permeara antes , a sociedade toda, no fenômeno politico conhecido como “totalitarismo”, que alguns teóricos atuais consideram semelhante ao do absolutismo monárquico.

Mas o fato é que ela organiza a sociedade dentro de um igualitarismo altamente útil para o governo. E inútil para a criação.

É uma versão politica do cristianismo católico em que todo mundo deve ser igual, não levantando a cabeça de modo nenhum.

Forma-se numa sociedade assim , o ressentimento e a inveja, que carimbam de culpa aquele que busca se destacar.

Então nós temos um país em que ninguém larga de ninguém, ninguém deixa de lado os costumes e os arranjos familiares para manter o estado das coisas.


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Cientificidade em Hegel II

 

Como tenho explicado sobejamente existe um momento de abordagem do real em que se diferenciam ciência e filosofia: o imediato indeterminado, segundo Hegel.

Aristóteles entendia a filosofia como ciência, juntava ciência e saber filosófico no estudo do Ser, enquanto Ser e lhe atribuía uma essência determinada, o existente.

Com o tempo foi se observando que este ser , este existente, possuia muitas essências e que nenhuma delas podia defini-lo. Defini-lo com uma essência é paralisá-lo.

A essência da existência , bem como de materialidade(Physis), que é aquilo que se põe como tal, é meramente constatativa, isto é, dela não deriva nada.

Há que colocar conteúdos e essências várias no Ser para poder compreendê-lo em sua pluralidade mas também em seu movimento.

Hegel, por isto, interessado no movimento, afirma que o “Ser é o imediato indeterminado”, isto é , não tem principio, senão existência, mas entendeu que havia uma ciência da lógica dialética e do movimento na medida em que a contradição era a responsável pelas manifestações do que existe.

Como tenho dito , objetivamente não é assim que acontece, não havendo um objeto rigido na dialética, pois uma coisa não é ela e outra simultaneamente, pelo menos na objetividade, na natureza, o que é essencial.

Logo o “ imediato indeterminado” separa a filosofia da ciência, que nasce de uma determinação primacial, a relação sujeito\objeto.

Aqui haveria a primeira contradição dialética objetiva a movimentar o conhecimento do mundo e a apreender este movimento objetivo.

Heidegger reconhece-o quando usa este conceito de Hegel para separar o ôntico do ontológico, o filosófico do cientifico respectivamente.

Hegel aplica esta dialética ao direito e por via de consequencia à sociedade , afirmando que o direito regula as relações objetivas e dialéticas de carecimento da sociedade.

A sociedade precisa do direito para que não hajam carecimentos, insatisfações na sociedade, mas ele , “cientificamente” entende este todo social junto, fechado na ciência da lógica. Tratarei disto depois.