segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Meu encontro com Marx e Freud II


Bangu me trouxe  de volta Freud


Série:Psicologia  e Pedagogia



A primeira vez que li Erich Fromm e  este seu livro extraordinário,muito simples  e didático,abriu-se  para mim uma quantidade de  possibilidades intelectuais por explorar.Talvez  tenha sido este um dos momentos  em que se constituiu a minha vocação de professor porque logo notei que estas duas matérias,psicologia  e pedagogia  estavam relacionadas,o que quando entrei na sala de  aula,se  confirmou.
Mais do que isto ,percebi que não existe uma teoria em ambos os campos do conhecimento que dê conta da complexidade do ser humano e digo isto sem medo de cair  no ecletismo ou mesmo na visão lógica ,pela  qual cada um dos pensadores  contributivos  de ambos,ocuparia o lugar destinado a ele.
A partir do momento em que li o livro,as críticas,os  rompimentos acontecem a  todo momento,bem como as reconciliações.
No caso de Freud,que eu li antes de Marx,pela leitura de Pavlov e por caminhar mais atento à militância,houve um imenso rompimento ,mas agora ,reconciliação.
Isto porquê  achava,como tantos ,que Freud era um idealista,um “ espiritualista” até,contrário ao materialismo. Diante das mudanças de  concepção que me fizeram ver que a  experiência humana é  materialidade também,posso colocar Freud num patamar que,eu creio ,ele mesmo aceitaria.Não quanto ao marxismo,que ele criticou no final da  vida,mas no da materialidade,das relações  sociais.
Dentro de uma concepção velha de materialismo,em que só as relações sociais importam ,Freud ressaltou o individuo,o sujeito.Isto parecia,no passado,uma tentativa monista de explicar tudo pelo sujeito e sua libido,mas é claro que Freud nunca buscou isto.Foi uma interpretação discutível de certos setores  do marxismo que  pretendeu ver no livro final da vida de Freud “ O Mal-Estar na Civilização”,um projeto universal explicativo,quando não era e não é.
Se Freud pode  ser acusado de negligenciar as relações  sociais ,o materialismo em geral pode  também quanto à  autonomia do individuo,à  progressiva autonomização do sujeito e neste particular Freud é ainda decisivo,porque foi ele,desde a “ Interpretação dos Sonhos” que colocou as balizas e possibilidades de  analisar o Sujeito,na sua vida mais íntima,por ele mesmo.
Ainda que  a questão da psicopatologia  tivesse uma preeminência  em seu trabalho,a descoberta das causas psicológicas da neurose  puseram a possibilidade de  discutir uma  vida saudável.O discurso explicativo da neurose era também base para um sentido  a construir por aquele que se “ curava” ou,pelo menos,se adequava,conscientemente,aos seus problemas,agora clarificados pelo médico.
E neste caminho de construção ,de sentido,a pedagogia  aparece,como consequência também possível,ou como continuadora  ou auxiliar de todo este processo de cura/sentido.A psicopatologia é perda de sentido,a educação ,a sua (re-)constituição.
A interpretação psicológica cria as bases ,no ego,para esta construção,após(?)a neurose,porque o ego é a substância do sujeito,o Sujeito,no tempo e  o sujeito no tempo é a primeira lição pedagógica,porque a única coisa  comum a todas as concepções de pedagogia é que  o Sujeito não se forma no imediato,mas na relação imediato/mediato.
Neste sentido a crítica da falta de uma visão psico-social de Freud não procede e quem vem exatamente em seu socorro é a pedagogia,porque as relações psico-sociais são importantes,mas elas não diluem a necessidade de abordar o aprendente,o Sujeito aprendente,na sua pura autonomia,nesta relação entre a  sua inadequação (neurose=imediaticidade=psicologia=atividade do analista)e  a  sua busca de adequação(sentido=mediaticidade=pedagogia=atividade do professor).
Sem este reconhecimento não há  pedagogia,porque não há aluno,não há pessoa distinta.À crítica de que nem todo aluno/aprendente tem neurose,respondo que a grande  contribuição humana de Freud está no fato de que a inadequação é normal na vida subjetiva humana.É até um valor transcendente.Uma experiência transcendente e necessária.Isto porque a neurose,a doença ,não é senão parte da experiência humana,mas a doença é parte,apenas,da inadequação natural do homem frente ao mundo,esta inadequação que é o impulso mesmo de  criação,de  sentido.Freud,pela  primeira vez e contra a psiquiatria do século XIX,afirma que não se pode  tomar a pessoa pela doença,que não há identificação absoluta entre estes  dois termos,como não há entre  a parte e o todo.
A possibilidade de  sentido,de transcendência(porque  além da doença)  é posta como inarredável,na medida em que o Sujeito é sempre  maior do que o sintoma,a doença,o preconceito,o conceito,classificações  e assim por diante.
Bangu me trouxe  Freud de volta na medida em que eu,como professor de Filosofia,tinha que lecionar Filosofia em Bangu,sexta-feira à noite(era de  propósito que a  direção colocava filosofia neste horário,uma disciplina sem importância para o direito)em plena faculdade de  direito,na qual os alunos queriam se formar,para ganhar não só dinheiro,mas prestígio profissional,já que sentiam excluídos(com as consequentes neuroses decorrentes  disto[imediaticidade/psicologia])),enquanto pobres e moradores de uma periferia.
Quando percebi este fato(professor/psicólogo)busquei na pedagogia e nas relações  sociais(psico-sociologia)elementos que diluíssem este complexo de inferioridade social,demonstrando  que os Filósofos eram pessoas,revelando detalhes  comuns a todos ,como a  homoafetividade de Sócrates,como um fator de sua personalidade e de sua filosofia.O riso relaxava os alunos e eles interagiam com uma matéria que ,aparentemente os separava do dinheiro e da vida o que não é verdade evidentemente.
Quando lecionei soberania popular em Ciências Politicas,era difícil conceituar este tema ,então usei a analogia com a  torcida do Flamengo,que representava em relação ao clube o mesmo que a nação em relação ao poder de Estado.Era a  torcida,como o povo,a origem do poder e da força do clube e  do time.
É lógico que neste primeiro momento não se forma um aluno de filosofia equipado,mas pelo menos ele inclui um saber,que,embora,pequeno o ajudará na vida e constitui parte de seu  sentido,porque já transcendeu os preconceitos e o complexo(de inferioridade).
Faz-se neste percurso(professor/aluno)uma crítica a Freud,por não incluir a psicologia  social,mas se o recupera no momento seguinte quando se reconhece,na  inadequação,no sujeito,distinto.E mais do que isto,ele ajuda a construir sentido,enquanto mantém esta identidade subjetiva,pura, e dialoga com a pedagogia,com a vida deste sujeito.
Será isto um círculo hermenêutico psicológico/pedagógico?Um circulo de  Gadamer?

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O anti-Nietszche



 Série:Filosofia


Após  muitos  estudos eu digo que  não é  culpa de  Nietszche  e  de outros  filósofos,como queria  Luckács(“ A Destruição da Razão”),diretamente,a  gênese  do nazismo,mas indiretamente sim,porque ele,como tantos  outros filósofos,citados  pelo  marxista,acreditava  num papel  novo  para esta  figura  providencial,o  uber-mensch(além-do-homem),que não tem preocupações  morais.
Tenho  para mim que,numa época  de intenso moralismo,como foi a época vitoriana  na Europa  do século XIX,esta atitude correspondia  a uma  revolta  contra  a  pressão  que este moralismo exercia  sobre os espíritos  livres,principalmente nas relações privadas,impedindo o livre fluxo  das decisões  individuais,que  deviam ser sempre  referenciadas a este  coletivo-manada  que Nietszche  tanto desprezava  e eu  também.Escusado dizer que a  Igreja Cristã  em geral,ocupava  um lugar  fundamental neste vitorianismo,pela  imposição de  virtudes  cristãs,como  a  abnegação absoluta,o “ amai-vos  uns aos outros”,frase idealizada  que  nos “ obriga”,(os  que desejam se integrar   à manada...)a  oferecer  a  face  direita(ou a esquerda?),sem observar que  este tipo de amor  iguala  o que  tira  e o que bota a  criança  no forno crematório...
Mas,por  outro  lado,inquinar a  compaixão,a  virtude  paulina, como algo que  cria  o ressentimento,que  despotencializa  a vida,o uber-mensch,como se esta  se resumisse   na experiência  individual,gera  uma nova  idealização,uma nova ideologia,como consciência  falsa.
A  ausência  de culpa,substituída  pelo critério da “ má-consciência”,é  o vestíbulo da psicopatia,da  agressão,venha  de onde vier.
O  ter Nietszche elogiado  os judeus  não o livra de defender ,avant la  lettre,um fascismo judeu,que o há,sem  dúvida.
A característica  fundamental do Diabo é  querer ser  único,intocável,mas ele  é  apenas ressentimento,uma busca  de  experiência  singular que não se realiza e  que  é   a origem do ressentimento.O ressentimento se define por  querer  se  separar  do outro sem ser isto possível,porque São Francisco e  Hitler estão interligados.Então onde  se faz  a separação  e qual é  natureza  do bem e do mal?Na  dor.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A experiência humana ,o bem e o mal Ou Hitler e São Francisco



temas: Série Filosofia



Se a experiência  humana  é  comum,se   não há ruptura e em algum momento  todos  temos algo igual em cada  individuo,em cada sujeito,existe algo que  une  Hitler e São Francisco de Assis e  pior:o que define a  humanidade,são   os  termos de  igualdade e  não  o que  diferencia um ser do outro.Em última  instância o que  difere não acaba com os  elementos  de igualação em toda a experiência.
Quando Nietszche  fala  no “ trans valorador”,aquele  que tem valores  próprios  esquece que esta  experiência (dos  valores)é comum.
Mesmo as figuras que  estão além da “manada” têm um pezinho lá.Nem adianta chamar em socorro o tempo,alegando que muitos  vivem o seu tempo de forma  separada  dos demais,porque  o tempo é  também uma experiência,ainda  que Heidegger diga  que  não  há(lógico) a  experiência   da morte;esta  não-experiência  não  funda a  diferença ,já  que  ex-nihilo nihil.É uma pretensão de certos  filósofos  isto  tudo...Uma  idealização.
Mesmo aquele  homem providencial só o é  considerado dentro de  certo sistema (experiência)de valores e  é a  ele que  deve o seu reconhecimento,porque embora este homem alegue não dar  importância,o faz falsamente,pois  é  presa  da  vaidade de  sê-lo,sempre(sempre=experiência=tempo),até  porque  afirma  esta(sua)condição.
Tudo se  complica quando se aborda o problema  do bem e  do mal,reduzido então a boa  e má  consciência (para  si,sem o outro).Se a referência  a si mesmo  é experiência,como não  falar numa medida transcendente de bem  e mal?É fácil  criticar os modelos  moralistas rígidos,impostos  à  “manada”  pelos  poderes  religiosos e laicos  da História,mas  a existência/experiência humana não pode  ser senão uma construção,mais ou menos consciente, de convivência.
Então a maioria que elegeu  Hitler  guarda em si uma legitimidade em relação  a  ele  e às suas ações porque  a convivência/experiência  coletivos é esta medida e  os  valores  transcendentes  de bondade do santinho de  Assis  estão perdidos  para sempre.
Ocorre que  mesmo na  construção da  convivência(maioria),na  reunião das vontades(Rousseau)critérios  prévios(transcendentes)existem e  querem ser reconhecidos  como algo que  os  governe  dali por  diante.
Não tem sentido construir  uma coletividade(manada?)para  oprimir a  si mesma,ou para  que se forme dentro dela  outra,para  oprimir  parte dela.
Na  construção permanente da  experiência  coletiva humana(manada?)os  critérios  transcendentes,que a confirmam,estão presentes,expostos  ou não.Confirmam  porque  são  a origem e o sentido desta  construção,mas como referenciais  específicos  eles  padecem de uma  suposta e  aparente fragilidade,diante do bem e  do mal,enquanto valores,pois o que é  bom para um sistema pode  não ser para  outro.
O critério possível,fundante para os  valores  transcendentes,está  fora deles e se expressa  na atitude diferente de  Hitler e São Francisco:um joga uma  criança no forno crematório e o outro se  compadece,dá  água e  ajuda.
No limite entre o imanente(a  dor) e o transcendente encontramos este  fundamento  dos  valores,não axiológico.