terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Protágoras,o ensino da virtude

 

As minhas leituras profisionais de filosofia recomeçam com Platão,o Platão do diálogo Protágoras,dedicado à virtude e ao seu ensino,se é possivel ou não.

Antes de entrar propriamente na leitura faço algumas reflexões prévias.

Nos dias atuais a admissão de que é factivel  ensinar a virtude é maior ou totalmente aceita,em grande parte por causa da psicologia e da sócio-psicologia.Existem provas de que algumas pessoas que se desviam voltam para o caminho reto.

Mas na sua concepção rigida e dogmática e porque não dizer ideológica,Platão põe uma barreira ,quiçá definitiva,para justificar talvez a escravidão.

Na sua concepção utópica de estado ele admite a mobilidade ascendente,mas isto não é reservado a todos.

A questão,para mim mais importante,nestas palavras prévias,é que  efetivamente ninguém faz nada pelo outro,se este não  o quiser.

Curiosamente,na humanidade há esta barreira excepcional,que ,por paradoxo,é a condição de mudança individual e redenção.

O homem joga para os deuses,para o além, a tarefa de redenção,de expiação do crimes e erros cometidos.

Os gregos têm na figura de Hèrcules um exemplo de expiação pessoal,pelo uso da força para o bem,orientada para o bem,mas foram os deuses consultados para definir a saída redentora,cujos critérios são humanos e divinos,exigindo do criminoso ou pecador uma prova real da intenção de mudar.Uma prova divina é algo supostamente maior do que o homem suporta.

Com o tempo mais e mais o ser humano busca encontrar em si mesmo algo que ninguém lhe tira,que é exatamente a capacidade de se esforçar na expiação.

Quando alguém toma consciência dos graves erros que cometeu a primeira barreira(entre outras,em cada caso)é que esta auto-consciência acrescenta mais sofrimento.Somos induzidos a crer  que se tomarmos esta consciência,o alivio se apresenta.

Tal pode ser momentâneo:a constatação da verdade traz uma certa esperança de trilhar o caminho certo.Mas a idealidade não se identifica imediatmente com a complexidade do real e  do real subjetivo distorcido,que deve começar a ser compreendido.

Então no caminho da redenção por um bom tempo,duas ordens de problemas dificeis se colocam diante do sujeito:a luta para superar os problemas e os problemas propriamente ditos,que permanecem e não raro reagem à tentativa de sua supressão.

Esta verdade inicial,esta esperança inicial é que serve de mote,não ainda sentido,para se chegar ao fim.De certa maneira isto nos lembra a teoria da reminiscência de Platão:aquilo que está no inicio é o fim e o que está no fim,está no inicio.A alma que busca crescimento( e redenção)está na verdade indo para trás.

A autoconsciência inicial do homem o conduz para a frente onde e quando no momento de sua redenção,ele se esquece do passado,relembrando-o,pois superou o problema e se redimiu.(Hegel?).

Platão admite uma identidade entre esperança e realidade,depois do esforço.

 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Leituras de Hegel 1

 


Uma das coisas mais decisivas e importantes quando se fala de Hegel é mostrar os seus limites.Num momento preciso,1806,uma mudança em seu pensamento teve repercussões históricas notáveis,que vamos analisar aqui.

A diferença entre estes dois hegels a que afinal nos referimos,é entre o fenomenológico e o científico.No periodo conhecido como o de “ Jena”,em 1806,se dá a passagem tantas vezes debatida e conhecida entre este Hegel fenomenológico e o “científico”.

Ele mesmo nos fornece a diferenciação na ciência da lógica:

“Así es como, e n 1 a Fe no m en olo g í a de 1 Es p í r í tu , he intentado exponer la e o n e i en e i a . La conciencia es el espí- ritu en cuanto objeto concreto; pero su movimiento progresivo descansa únicamente -como ocurre con el desarrollo de toda vida, natural y espiritual- en la naturaleza de las es en e i a 1id a des puras. que constituyen el contenido de la lógica. La conciencia, en cuanto espíritu que aparece y que se libera en su camino de su carácter imediato y compacto, viene a ser saber puro, que tiene por objeto aquellas esencialidades puras mismas, tal como en y para sí son. Ellas son los pensamientos puros, el espíritu que piensa su propia esencia. El automovimiento de esos pensamientos es su vida espiritual, y es aquello por lo cual se constituye la ciencia y de lo cual es ella exposición.”

Como vemos nesta citação definidora de Hegel,a Fenomenologia trata da consciência que como movimento do pensamento reside na observação da realidade natural e social.Ela elabora o conceito sobre as coisas.

O automovimento próprio deste pensamento,Hegel diz,constitui a  ciência ,que por sua vez é uma ciência da lógica .

Vamos entender tudo isto:a fenomenologia é o movimento do pensamento puro,que elabora o conceito sobre as coisas;a ciência identifica os conteudos e essências das próprias coisas,em si e por si mesmas,no seu movimento real;um movimento que possui uma lógica, a qual se diferencia da metafísica,por deter em si um movimento que deixa em aberto a possibilidade de transformação do mundo,coisa que a metafísica não é capaz de fazer.Hegel pretende  substituir a metafísica pela lógica,sem o conseguir,como veremos depois.

Neste momento precisamos este passo da obra porque ele teve consequencias muito importantes para a história ulterior do pensamento e  da história em si mesma.

Isto porque o movimento identificado com esta forma de dialética moderna passou a ser dominante e a definir muito dos comportamentos de vários  movimentos,à esquerda e à direita.

Conforme nós já sabemos o que diferencia muito o pensamento dos intelectuais do seu tempo,é que ele entendia os desvios da Revolução Francesa como  naturais dentro do processo histórico geral.

Contudo,destas constatações iniciais  até o ano de 1806 a preocupação d e Hegel era de entender o processo geral do movimento a partir da consciência  ,mas não havia ainda algo semelhante com relação ao movimento próprio do Ser.

Os estudiosos demonstram que em determinados escritos da época em que ele morava em Iena a sua tendência foi atribuir o movimento dialético às coisas mesmas,aos conteudos sociais e naturais observados e que o mundo era lógico,uma alternativa à superação da metafísica,que Hegel desejava.

Quando  Revolução ocorreu notou-se que o passado tinha sido de alguma forma superado,pelo principio do movimento permanente,mas Hegel queria dar uma explicação lógica a este movimento.

Como fizera com a Revolução, agora ele entendia que o espirito de uma época podia ser abarcado por uma lógica cientifica,diriamos hoje objetiva.

Parece que a visão de Napoleão entrando soberano na cidade de Iena teve sobre ele o mesmo efeito que a constatação de que o terror e o termidor  eram partes do mesmo processo de auto-consciênccia da razão,esta razão ,primeiro fenomenológica e depois científica.

 

 

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

O Pensamento de Lênin III

 

O Pensamento de Lênin III

Esta análise das obras de Lênin não obedecem a um roteiro direto.Eu trato das obras de Lênin com as necessidades do presente.E também e por causa disto os temas que ainda são importantes discutir no mundo de hoje em que a sua influência é sentida.

Uma coisa é a Revolução Russa e suas consequencias e outra é o pensamento de Lênin.Quer dizer,em termos:a formação de Lênin é uma coisa,outra a Revolução Russa que se confunde com seu pensamento.

Agora nós intentamos analisar o pensamento de Lênin que influenciou na Revolução,levando em conta os debates posteriores e que repercutem ainda hoje.

Para tanto mais do que a teoria do partido ou seus escritos econômicos quero tratar dos temas politicos e mais do que isto ,ideologicos,que fundamentam a ideologia soviética e o stalinismo.

Nos meus estudos sobre marxismo encontrei a carta em que Marx negava a possibilidade de uma revolução de tipo comunista como ele preconizava.

Lenin faria a revolução,a imaginou desde sempre,mas esta conexão não foi senão fruto de um desconhecimento das bases teóricas.

Até por razões pessoais,a execução de seu irmão maior ,que intetou contra o czar alexandre III,pretendia fazer a sua revolução.O fato real é que me todos os lugares se sabia que mais cedo ou mais tarde haveria na Rússia uma revolução.

A questão é saber quando ele imaginou este desenho,o modo como ele poderia fazê-lo.Na verdade é seguro que sem a primeira guerra,sem este cataclismo nunca antes conhecido ele não poderia elaborar a sua estratégia,mas foi a partir da adesão ao marxismo que se formou a idéia de uma revolução comunista na russia,seguindo uma revolução eventualmente burguesa,como aconteceu.


Primeiro fasciculo de comentários ao Corpus Iuris Civilis

 

Ulpianus libro primo institutionum


pr. Iuri operam daturum prius nosse oportet, unde nomen iuris descendat. est autem a iustitia appellatum: nam, ut eleganter celsus definit, ius est ars boni et aequi.


1. Cuius merito quis nos sacerdotes appellet: iustitiam namque colimus et boni et aequi notitiam profitemur, aequum ab iniquo separantes, licitum ab illicito discernentes, bonos non solum metu poenarum, verum etiam praemiorum quoque exhortatione efficere cupientes, veram nisi fallor philosophiam, non simulatam affectantes.


2. Huius studii duae sunt positiones, publicum et privatum. Publicum ius est quod ad statum rei Romanae spectat, privatum quod ad singulorum utilitatem: sunt enim quaedam publice utilia, quaedam privatim. Publicum ius in sacris, in sacerdotibus, in magistratibus constitit. Privatum ius tripertitum est: collectum etenim est ex naturalibus praeceptis aut gentium aut civilibus.


3. Ius naturale est, quod natura omnia animalia docuit: nam ius istud non humani generis proprium, sed omnium animalium, quae in terra, quae in mari nascuntur, avium quoque commune est. Hinc descendit maris atque feminae coniunctio, quam nos matrimonium appellamus, hinc liberorum procreatio, hinc educatio: videmus etenim cetera quoque animalia, feras etiam istius iuris peritia censeri.


4. Ius gentium est, quo gentes humanae utuntur. Quod a naturali recedere facile intellegere licet, quia illud omnibus animalibus, hoc solis hominibus inter se commune sit.

1.1.1. O Livro Ulpiano das Instituições pr. Para dar atenção ao direito é preciso primeiro saber de onde vem o nome do direito. mas chama-se justiça, pois, como Celso define elegantemente, o direito é a arte do bom e justo trato. 1. Por mérito de quem, quem nos chamaria sacerdotes: pois adoramos a justiça e professamos o conhecimento do que é bom e justo; 2. Há duas posições para este estudo: a pública e a privada. É um direito público que pertence ao estado do estado romano, e a propriedade privada aos interesses do indivíduo. O direito público consiste em ritos sagrados, em sacerdotes e em magistrados. O direito privado é triplo: é recolhido das leis naturais das nações ou autoridades civis. 3. É lei natural que a natureza ensinou a todos os animais, pois este direito não é próprio do gênero humano, mas de todos os animais que estão na terra e que estão no mar e são comuns às aves. Disso deriva a união de macho e fêmea, que chamamos de casamento, daí a procriação de filhos, daí a educação dos filhos; pois vemos que outros animais, mesmo animais selvagens, são considerados pela habilidade dessa lei. 4. É a lei das nações pela qual as nações humanas usam. Pode-se entender facilmente que isso se afasta do natural, pois o primeiro é comum a todos os animais e o último apenas aos homens.


TIT. 1

DE IUSTITIA ET IURE.

Iustitia est constans et perpetua voluntas ius suum cuique tribuens. 1. Iurisprudentia est divinarum atque humanarum rerum notitia, iusti atque iniusti scientia.

2. His generaliter cognitis et incipientibus nobis exponere iura populi Romani ita maxime videntur posse tradi commodissime, si primo levi ac simplici, post deinde diligentissima atque exactissima interpretatione singula tradantur. alioquin si statim ab initio rudem adhuc et infirmum animum studiosi multitudine ac varietate rerum oneraverimus, duorum alterum aut desertorem studiorum efficiemus aut cum magno labore eius, saepe etiam cum diffidentia, quae plerumque iuvenes avertit, serius ad id perducemus ad quod leniore via ductus sine magno labore et sine ulla diffidentia maturius perduci potuisset.

3. Iuris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere. 4. Huius studii duae sunt positiones, publicum et privatum. publicum ius est quod ad statum rei Romanae spectat, privatum quod ad singulorum utilitatem pertinet. dicendum est igitur de iure privato, quod tripertitum est; collectum est enim ex naturalibus praeceptis aut gentium aut civilibus.

TIT. 1 JUSTIÇA E DIREITO A justiça é uma vontade constante e perpétua que dá a cada um o seu direito,o que lhe é devido. 1. A jurisprudência é o conhecimento dos assuntos divinos e humanos, a ciência do justo e do injusto. 2. Quando essas coisas são geralmente conhecidas e começam a nos explicar os direitos do povo romano, parece possível que seja mais convenientemente entregue, se primeiro os detalhes forem dados de maneira suave e simples, depois a mais completa interpretação. caso contrário, se, desde o início, logo sobrecarregarmos a mente destreinada e débil dos devotos pela multidão e variedade de coisas, faremos dois ou um fugirem dos estudos, por causa do grande esforço, e muitas vezes até pela desconfiança, que muitas vezes afasta os jovens; ele não poderia ter sido apresentado mais rapidamente por causa do trabalho incrível. 3)Estes são os preceitos da lei: viver honrosamente, não ferir o outro e atribuir a cada um o seu. 4. Há duas posições para este estudo: a pública e a privada. É um direito público que pertence ao estado do Estado romano; um direito privado que pertence aos interesses do indivíduo. Devemos falar, portanto, de direito privado, que é tríplice; pois é coletado dos preceitos naturais de nações ou autoridades civis.

Fasciculo de Direito-corpus

A abordagem do corpus iuris civilis exige sempre um método,um referencial.Ao longo da vida eu sempre usei o materialismo histórico,mas agora,na maturidade penso sempre da seguinte maneira:fazer uma interpretação básica,sem muita adesão e fazer referências aos métodos.

O desenvolvimento do Imperio Romano propiciou uma compreensão mais total do direito romano.O imperio romano é a culminação dos impérios do mundo antigo e como culminação ele encerra o mundo antigo.Ele é esta culminação porque ele era diferente,apresentando um ideal geral,quase humano.

Os impérios,antes do romano se caracterizavam pelo seguinte:eram alianças comerciais impostas por um centro politico,mais forte naturalmente(pelo menos por um determinado tempo),nas quais se cobrava uma taxa de proteção ou de ajuda para a produção.

O império ateniense ,destruido pela guerra do Peloponeso,era assim e também o cartaginês derrotado e substituído pelo romano também ,que,este ultimo, acrescentou inovações que o fizeram mais duradouro.

Nós poderíamos falar à maneira de Hegel para mostrar a diferença fudamental que ele representa:materialmente ele não se reduz mais ao aspecto mercadológico,mas em termos de ideias apresenta uma nova finalidade,um novo ideal, humano.

O materialismo histórico contestaria o que estou dizendo,mas entenda-se bem:é lógico que houve mudanças no sistema de trabalho,nas relações de cidadania,mas o que unificava nestes finais dos tempos romanos,era um ideal humano ,que jazia potencialmente no império mas que se cristalizou no cristianismo que o reconheceu e propôs,quando a escravidão acabou.Por isto um império ilegítimo por natureza se tornou pai do ocidente.

Todo o império se caracteriza por impor-se,mas o romano conseguiu algo mais na hora de desaparecer,algo mais laém dos outros imperios:uma legitimação.

Acima eu coloquei um parecer de Ulpiano e depois o inicio filosófico com o corpus.

Mas na verdade o sistema do corpus expressa a visão institucional do império romano:de cima para baixo e com absoluta intocabiliadde do pater famílias.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O problema da ideologia resposta a uma professora

Conforme com o que eu pus no meu livro “Petição de Principio”,no qual expresso os meus criterios de trabalho e de pesquisador,sou um pesquisador independente,que só tem especialização em filosofia moderna e contemporânea.

Sou,com muito orgulho,autodidata.Um esforçado(repito:com muito orgulho).Não fui recebido de forma republicana nas universidades onde eu tentei fazer o meu mestrado e doutorado.

As universidades são mais politica e reprodução de poder do que busca de saber.Muita gente vai desdenhar isto aí,mas eu tenho prova e mais argumentos para dizer estas coisas.

Por agora,no entanto,o que eu quero é simplesmente oferecer as razões ,já ditas,no meu referido livro,para não citar autores das supraditas universidades e não respondê-los quando insistemente vêm nas minhas redes contestar conceitos emitidos por mim.

Vou abrir uma exceção neste momento porque a insistência aumentou muito e por razões de minha vida pessoal acho que deveria polemizar com este autor,se este autor quiser.Porque eu não me coloco abaixo de ninguém,pelo que eu disse acima.Eu me considero uma pessoa capaz de discutir com quem quer seja estes temas de que  eu trato aqui,mesmo pessoas com mestrado e doutorado.Tirando Miguel Reale pai,Euclides da Cunha e Gilberto Freyre ,que obtiveram reconhecimento no exterior mui merecido,não estou abaixo de ninguém.

Em termos de marxismo me considero um dos maiores conhecedores não só no Brasil.

E por causa do modo como a minha relação se deu com a academia ninguém tem o direito,dentro dela,de me tratar professoralmente ou de cima para baixo ou muito menos me ameaçando.

O meu critério básico é que se alguém veio aqui é porque está lendo o meu trabalho.Se não gosta dele,passe ao largo.Se gosta ,mas não concorda e quer demonstrar isto ,vem até aqui e diretamente  e em público,reconhecendo a minha qualidade.

Defendo democracia de mérito,mesmo na sociedade de classes e o reconhecimento do valor de uma pessoa ,ainda que não tenha canudo,titulo.O meu conceito de reconhecimento é o de Hegel,que o tirou dos liberais.

Se acha que eu estou agindo mal,vai na justiça e me proibe,que eu vou até ao STF para lutar pelo meu direito.Se eu estivesse no socialismo real muitas pessoas que me atacam aqui já estariam me impedindo ou coisa pior(porque eu insistiria).Abandonei o socialismo real.

Então,pela primeira vez eu vou citar uma professora que vem sempre nas minhas redes,instagram e facebook,secundada por dois garotões  e eventualmente um senhor de meia-idade,numa postura de,penso eu,desafio.Como disse acima,se quiser falar comigo toma a iniciativa,porque já tomou.Eu não sou desafiante não,é ela:trata-se de Marilena Chauí,cuja trajetória,eu,como nós todos comunistas militantes,seguimos desde os anos setenta.

Eu ainda possuo jornais dos anos setenta aqui com entrevistas desta professora,que tem ,curiosamente ,interesse em reconhecer pessoas de fora  da academia e que não têm certificação por parte desta última,muito contrário.

Tiro estas conclusões de um documentário que assisti nos anos 90   sobre um crítico de cinema,se não me engano,Evaldo Cabral.Ela tem esta sensibilidade aparentemente.

Numa democracia de mérito não é a mediação do papel,do canudo,que legitima o reconhecimento,mas o fato real em si mesmo.Com a profissionalização de todas as atividades humanas,nos últimos decênios,ninguém reconhece o valor de alguem que atue sozinho e  que não tenha previamente algo por trás ou um titulo,ainda que não seja de um lugar de ponta.

Talvez o que impeça estes intelectuais de virem aqui me ver seja isto,que eles “estão concedendo este titulo” à minha pessoa.Acho tal coisa um absurdo.

Dito isto vamos ao que me  trouxe aqui.Continuando a seguir o trabalho desta professora,sempre de maneira crítica,lembro-me de dois episódios capitais:nos anos 80 acompanhei na ufrj um curso de filosofia do professor Roland Corbisier.Num determinado dia  o professor se referiu ao livro “O que é ideologia”,considerando-o “ muito ruim”(no entender dele,eu não acho). No final dos anos 90 uma pequena polêmica com José Guilherme Merquior que  a acusou de atribuir a si própria um pensamento de outro autor.Segundo Merquior ela “ teria esquecido umas aspas”.

O segundo episódio não tem importância.Não investiguei.Mas o primeiro gerou muitas questões a mim e a nós comunistas militantes que debatiamos o problema da ideologia.

A questão que fundamenta este artigo,como o leitor já nota,é o da ideologia.A professsora sempre manda uma aula de ideologia para minhas redes,baseada no seu livro famoso.

Em certa ocasião Corbisier esteve próximo da professora e nós, na juventude do partido, reclamamos(não diretamente)de não ter polemizado  com ela.

A polêmica naqueles anos,que já havia sido assentada na Europa,era se o conceito de ideologia de Marx estava superado pelas formulações de outros autores ,sobretudo Gramsci.

O que se punha era:se a consciência era falsa ,se não fundamentada na ciência,no real,na verdade ,era,no entanto,verdadeira para o sujeito.Montei no sindicato dos professores ,em 1984,um curso com Carlos Nelson Coutinho ,que,logo no inicio,exemplificou este fato com a frase “ainda que Deus não exista objetivamente,existe para quem acredita”,e eu digo e acrescento ,de vários modos possiveis(simbolo,valor,conhecimento,esperança).

Mas existencialmente a relação entre o sujeito e Deus é de modo básico e fundamental,não fechado,mas que supostamente adequa o homem a algo fora dele.

Esta reflexões valem para a ideologia.Para  a professora Marilena Chauí a ideologia é como Marx disse:falseia o real e é oposto à ciência ,ao conhecimento verdadeiro.Se Roland Corbisier fez uma crítica a esta definição ,o fez quanto à Marx igualmente.Chamou Marx de muito ruim...

O conteúdo do video confirma estas concepções.No entanto observemos este trecho do livro de Leandro Konder “ A questão  da Ideologia”.

Na introdução ele cita Bobbio e principalmente um autor que eu não conhecia,Stoppino,para quem “a ideologia tem dois significados,fraco e forte .[...]o  fraco é aquele que se refere ao conjunto de crenças,idéias e valores politicos que orientam os comportamentos coletivos na ordem publica.O forte é aquele que se refere à Marx ,como distorção do real.”

Francamente esta distinção não me parece válida:a questão é que a ideologia pode significar uma conformação do mundo,por parte do sujeito ou pode ser uma distorção.

A dificuldade de se definir Ideologia se dá porque é impossivel saber se um discurso é verdadeiro ou não ,na investigação da complexidade do real.O meu indefectivel Kant ajuda a entender:o real é um simulacro,é inalcançável,mediata e imediatamente(não gosto do termo simulacro,mas vou usá-lo aqui,porque é mais comum).Em que momento há a intencionalidade de distorcer o real,com algum propósito(intencionalidade um conceito fenomenológico,heusserliano),há que responder.

De novo a questão de Deus:Deus é usado para desviar a atenção do oprimido quanto à sua condição,mas não se há de duvidar da crença legitima e verdadeira de muitas pessoas.Em que momento há a manipulação e em qual, não.

Quer me parecer  que a professora continua numa concepção que já foi inteiramente superada.O falso pode ser verdadeiro para o sujeito,lembrando a dialética do falso e do verdadeiro em Hegel,de que Lukacs  trata no “História de Consciência de Classe”(de forma errada a meu ver).

Idêntico erro cometem os intelectuais de esquerda quanto ao direito.Esta é uma das razões pelas quais deploro a especialização dos profissionais do pensamento e da pesquisa.Quem faz filosofia,só estuda filosofia,mas quando se aborda um autor erudito e interdisciplinar como Marx os problemas aparecem.

Marx  fazia uma abordagem semelhante ao da ideologia,no que tange ao direito,exceto na sua juventude.Na “ critica à filosofia do direito de Hegel”,Marx ainda o entende como instância autônoma.Mas,  e esta é uma das provas de que existe um jovem e um velho Marx(me lembro de como tive dificuldade em explicar  esta verdade a Gerd Bornheim),a transformou numa “ superestrutura” destinada a falsear de igualdade as relações de exploração no capitalismo,fazendo do estado de direito inútil,o que facilitou muito a ação totalitária de Stalin...

O direito,como a ideologia, tem como ser a favor ou contra a opressão,dependendo da ação humana revolucionária e compreensiva.

Tem muito radical que vem me jogar pedra aqui que me joga na cara que o direito legitimou a escravidão ,mas o idiota não vê que outra lei fixou a liberdade dos negros,pelo menos formalmente,o que é muito importante.

A solução deste erro ideológico de Marx,no direito,é compreender a distinção entre  common law  e  civil  law .Na verdade o direito é repressivo,de fora para dentro,ao usar códigos,que visam exigir da sociedade,de uma sociedade que não se normatiza,o cumprimento das leis.A civil law é assim,mas a commom law é aquela em que o código não existe,uma vez que a sociedade é capaz de se normatizar e discutir cada caso com autonomia.Marx aqui foi ultrapassado e ,inadvertidamente ,criou as condições para  a violência em nome do comunismo do futuro.

A ideologia é mais dificil de deslindar.Quando eu tomei conhecimento da visão de ideologia de Marx achei estranho que figuras ligadas à revolução russa,como Bukharin e Suslov,fossem tidas como “ideólogos” neste sentido positivo,de verdade.Havia aí uma contradição.

O direito sovético,desde a constituição de 1937,sempre se submeteu à ideologia,aos ideólogos.Não que expressasse o pensamento deles,mas ainda que expressando,se submetiam às necessidades politicas futuras,se tornando letra morta quase que totalmente.A começar que você pode dizer o que quiser desde que não atinja a intocabilidade do governo ,que certamente não erra(como Lênin e  Stalin e Marx não erravam).

É assim que eu entendo ideologia,desde os anos 80 e muitos pensam assim.Supondo que a professora pense ainda como Marx,para mim é uma manifestação de sectarismo,tanto na filosofia, como no marxismo e no direito.

Com a palavra o(a)desafiante.

 


sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

A natureza humana nós manuais soviéticos

 

Tantas vezes venho aqui criticar o materialismo,que possui limites essenciais.Em artigo recente tratei desta verdade.Lá no fundo o materialismo que não se limita revela o seu caráter basicamente tosco.

Todo materialismo tem uma base muito duvidosa.A acusação de boçalidade,dos idealistas e teólogos,faz sentido,porque não raro esta linha de pensamento se torna muito redutiva,olhando o mundo só pelo seu prisma.

A oposição propalada pelo marxismo entre idéias e relações materiais,materialidade,é falsa como há muito tempo eu mostrei seguindo uma pletora de autores que já o tinham feito em outras épocas.

Desta forma o materialismo descamba para diversas distorções se não tiver esta capacidade de ver os seus limites.

Em Marx,a dialética materialista ,o materialismo dialético acaba sendo uma ideologia,no sentido dele próprio,porque como já foi demonstrado(por mim inclusive)não há uma dialética da natureza.A natureza,o Ser,não se movimentam por contradições,nem na concepção de Hegel e de Marx(que são afinal iguais[eu também já tratei disto]).

Em sua biografia se diz que Marx desejava escrever uma lógica,uma lógica dialética,a partir do Capital.A luta pela vida e a consequente falta de tempo o impediu.Lênin afirmou a respeito que embora Marx não tivesse elaborado este seu sonho,deixou-nos “a lógica do Capital”.

Forçoso é reconhecer que os manuais soviéticos futuros derivam deste sonho de Marx.Muita gente atribui a Engels o caráter limitado e dogmático deste manuais,principalmente porque teriam derivado das considerações do companheiro de Marx,em seu Anti-Durinhg,mas sabemos,por intermédio das pesquisas de Gustav Meier ,que Marx viu e aprovou este livro bastante dogmático,tendo,inclusive,contribuido um pouco para ele.

Os manuais soviéticos e porque não stalinistas são originários desta base marx engelsiana.

Em outros artigos pretendo analisar o grau de culpa dos dois nesta simplificação vulgar.Mas o ponto nodal ou os pontos nodais do problema eu ponho agora:

Os manuais partem de alguns principios ab ovo ,nas concepções dos fundadores.Que existe uma ciência dialética fechada explicativa de tudo.A consequencia nos manuais é que ,do ponto de vista deles,a solução do problema humano já está dada e é só segui-los para alcançar a utopia.

O segundo ponto vem daí:se é assim,basta ter a vontade para implementar aquilo que já está dado.A tomada de consciência do problema da exploração impulsiona a compreensão e a revolução.

Esta tomada de consciência,quando algum marxista diz é sempre taxado de “ idealista” e na URSS e em outros locais,muita agente foi presa ou sofreu algo pior por causa disto,mas no volume III das Obras Escolhidas de Marx e Engels,da editorial vitória ,Marx usa estes mesmos termos,em relação à ciência do proletariado,os materialismos histórico e dialético .

Tomar consciência destas “ciências” é a condição da transformação.

A partir daí,mas seguindo o roteiro simplificador do materialismo,os manuais e stalin consideraram como metafísica a existência de uma natureza humana,como base da ação humana e puseram na vontade pura e simplesmente a base da tomada de consciência.A vontade como base(que está em Marx também)é outro termo similar ao nazismo,ao totalitarismo de direita.

De quebra a crítica à natureza humana é uma crítica à filosofia de Tomás de Aquino,mas nos próximos artigos vou mostrar como estes manuais têm mais a ver com este filósofo do que se imagina.


Kant como ferramenta III

 Mas se liga às leituras de Habermas em que esta distinção entre a linguagem comum e a profissional se faz também,sem falar no livro discurso filosófico da modernidade em que há um cristianismo douto(teologia) e outra popular.Mas todas estas antinomias são fatos comuns no pensamento profissional e popular.De vez em quando ele aparece e adquire um significado revolucionário, como na independência dos eua(ou revolução)em que o senso-comum serviu de base para o avanço em direção à liberdade.

É o aprofundamento da simples razão que eu proponho aqui.À rede complexa de categorias ofereço critérios para a abordagem imediata do real,para quem está no senso-comum.Também aplicações eu quero fazer de Kant sobre a realidade.

Nisto o meu passado de professor me inspira.

Tal distinção,evidentemente,apresenta problemas:em certos setores do conhecimento,como na psicologia,o senso-comum parece prescindivel.

Questões freudianas são conhecidas no passado:a relação de Alexandre o grande com seu pai Felipe II são extremamente edipianas;no romance os Maias de Eça Queiroz também e igualmente no primo Basilio.Sem falar em Hamlet.Poderiam estas pessoas,pelo senso comum,pela experiência,resolver o problema que lhes afligia?Se sim,para quê Freud?Ainda não respondi a esta pergunta,mas o caminho não é o de prescindir de senso-comum.Não penso,como tantas vezes digo ,que o mundo seja monista,que só uma causa governa o mundo e só um método exista.Mas aí é outra questão.