domingo, 29 de março de 2026

A identidade no movimento

 

A identidade na metafísica, na ontologia de Aristóteles, é conhecida, mas quando se fala em identidade na dialética a coisa se complica.

Existem formas várias de pensar a identidade, porque existem várias dialéticas. E de acordo com estas várias dialéticas a identidade é constituida e entendida de várias maneiras também.

Nós podemos dizer que A diferente de -A, que o contrário de A é a sua condição de movimento; nós podemos dizer, junto com Heráclito pantha rei, “tudo flui” , de diversas maneiras.

Jacob Boehme , que eu já citei muitas vezes aqui, usava o principio de que a pluralidade de mundos ,de coisas, de seres, era causada pela palavra divina , que era a única coisa que as unificava.

Nós aqui tratamos da visão de Hegel que busca entender a complexidade do Ser. No caso de Heráclito o Ser era algo ainda em formação, em compreensão, mas em Hegel o Ser, aquilo que se põe como existente já possui uma complexificação maior.

Hegel propõe o Ser como “ o imediato indeterminado” ou seja, o Ser em geral, sem determinações , essências, aparências, que vão aparecer progressivamente na análise de suas determinações.

O uno e a diversidade contraditória são a totalidade constituída fundamental da dialética hegeliana. É a famosa síntese das multiplas determinações.

O ser é isto, uma totalidade contraditória, onde está a identidade. Quando se diz ,na metafísica, o Ser é, o mesmo não pode ser dito na dialética, considerando o movimento.

O ser é movimento, está no movimento e no tempo. E aquele que o observa está e é o movimento e o tempo(homem[espirito subjetivo]).

O espirito subjetivo é uma entidade quase mítica e quiçá mística(lembrando Boehme)porque não s e sabe bem o que ele é , já que tem acesso ao espirito absoluto(Deus[?]).

A identidade, para concluir, é a dialética do Ser e do não-Ser, a unidade e as diferenciações, que se definem por contradições, por determinações contraditórias, que constituem a identidade no e pelo movimento e o tempo.

sábado, 28 de março de 2026

A verdadeira classificação de Kant e de Hegel

 

Costuma-se classificar estes dois filósofos da seguinte maneira: idealista subjetivo e idealista objetivo, respectivamente.

Estas denominações são de uma época em que não se compreendia bem a filosofia destes dois pensadores.

Considerando que Kant trabalha com critérios pelos quais se constrói uma realidade, atribuindo significados a ela, nós não podemos mais interpretá-lo assim: na verdade ele é um criticista ou um criteriológico.

Colletti afirmou certa vez que Kant é mais materialista do que muitos materialistas por aí. Ele não é um idealista no sentido do que se tem desta palavra, um “subjetivista”, porque usa a experiência humana e a sensibilidade, que trazem para a subjetividade a realidade percebida pelos sentidos.

A percepção dos sentidos é real. Não há nada semelhante ao bispo Berkeley e a Hume, e Kant se refere a isto na Estética Transcendental.

No caso de Hegel é mais dificil corrigir a sua classificação, no entanto, não impossivel.

É certo de fato que ele é um idealista, porque tem um modelo subjetivo que compreende o real, mas este modelo é baseado num principio objetivo, a dialética.

A dialética, como eu já disse, é uma construção da subjetividade e não parte da objetividade.

O problema é esta objetividade , pois. “Idealista Objetivo” é algo impossivel de sustentar. Então “ subjetivo” como kant? Não , não tem como.

A melhor denominação de Hegel é que ele é um dialético, dentre grandes dialéticos como Heráclito e talvez Platão, sem falar em Plotino, Proudhon e tantos outros.

A linha de Hegel é esta. A melhor classificação de seu pensamento é entre os filósofos do movimento.

Esta definição recupera as suas maiores contribuições.

domingo, 22 de março de 2026

As Leis da dialética

 

Como eu tenho feito sempre a crítica destas leis da dialética eu preciso mostrar mais profundamente porque elas são contraditórias ao movimento. Naturalmene , quando Hegel se refere às leis da dialética, está se referindo ao processo (dialético) de conhecimento, o como se dá o conhecimento.

Toda Lei é uma relação essencial entre fenômenos. Uma relação que permanece em determinadas condições. É bom relembrar a definição de Monstequieu, logo no inicio do “ Espirito das Leis”: a lei expressa uma constante e necessária relação do real.

Portanto a Lei dialética deve obedecer a esta definição. Mas aqui surge um problema comum aí nas questões da lógica e dialética: esta relação é subjetiva ou objetiva? A subjetividade expressa somente as relações do real dialético?

Se nós fizéssemos uma lei da identidade subjetiva nós teríamos que acompanhar o processo psicológico de sua formação, o seu processo histórico-natural, tema afeito à psicologia.

Contudo tanto existe a dialética subjetiva como a objetiva, pelo menos, neste último caso, como suposição .

Nós temos analisado a inexistência de uma dialética objetiva: a dialética é subjetiva, mas ela organiza o mundo, torna-o compreensível e lógico.

O conhecimento e a lógica não são psicologias: o trabalho da subjetividade é autônomo em relação à psicologia. Não é ela que dá o significado da lógica.

Na lógica formal, que não está superada necessariamente, se digo este “homem é branco” eu subordino este fato a uma relação singular(perceptivel)entre o homem (sujeito) e a cor, que é um fenômeno geral. É formal porque não expressa o real como um todo, coisa que a lógica formal consegue. Ela pode dizer: “todo homem é racional; ernesto é homem, logo é racional”(silogismo). Um principio geral subordina o singular, que só é perceptível pela sensibilidade.( o singular é nomeado pelo sujeito, depois de observado{diria Heidegger; “este ernesto que eu vejo,(visar{Hegel}})

Então a identidade formal, A=A, homem= racional é esta que ,como vimos no primeiro exemplo, pode não expressar um real como um todo, coisa que é a dialética que intenta fazer.

Esboço de uma periodização da Revolução Russa

 

Quero fazer artigos sobre a periodização da revolução. A periodização das revoluções(como a da História) é importante para estabelecer o significado de suas fases e sua influência sobre a história subsequente.

Na Revolução Francesa a delimitação do terror com uma sua fase e da Reação Termidoriana, tem consequencias teóricas fundamentais.

Este último periodo antes de Napoleão se tornou um conceito de ciência politica, estudado até hoje. A questão do terror também.

O mesmo acontece com as revoluções inglesas: o “longo parlamento”, o periodo de ditadura, sob Oliver Cromwell, a guerra civil, enfim fases que determinam o conhecimento verdadeiro do processo revolucionário e histórico.

Assim é também com a Revolução Russa, òbviamente. E apesar dela ter acabado, em termos politicos, com o fim da URSS, continua tendo uma influência histórica( e politica em certos circulos).

Por intermédio de Trotsky e por comparação com a Revolução Francesa, este autor definiu o tempo de ascensão e fixação de Stalin e o stalinismo como “ reação termidoriana”, “ nosso termidor”.

Mas depois? E antes? Cabe-nos definir o começo da Revolução Russa, na primeira em 1905? A preparação , em meio à 1a guerra, faz parte da Revolução de 17?

Em principio nós entendemos que a Revolução começa em 1917. de 1917 até 1918 , dá-se a superação dos partidos burgueses na Assembléia Constituinte; de 1918 a 1920 os partidos de esquerda são suprimidos e se inicia a construção do regime de partido único e da URSS; após isto e a morte de Lênin, a ascensão de Stalin, até 1928 e após a sua consolidação como stalinismo até 1932. E depois?

Este é o primeiro esboço da Revolução Russa. Nos próximos artigos aprofundarei.

terça-feira, 17 de março de 2026

Coletivo é enganação

 

O coletivo e o coletivismo acima de tudo, é uma forçação de um determinado centro sobre o conjunto do povo. É mentira que a igualação pura e simples das pessoas garante a liberdade.

Em contextos especificos ,em que uma exigência objetiva(necessidades econômicas) organiza uma família pode dar certo, mas isto se os pais são capazes.

Havendo igualação pura e simples “nasce” obrigatoriamente um centro que organiza este “resto” autoritariamente , já que não tem condições, a partir da referida igualação, de reconhecer a complexidade da sociedade.

O coletivismo é , seguindo a teoria das degenerações de Aristóteles, uma necrose da república, Forma de Estado.

O marquês de Sade já tinha previsto que a república ia tomar para si funções que não são originalmente dela. Em essência o mundo privado sucumbiria ao mundo público.

O republicanismo moderno, como em outras épocas, sempre significou uniformizar um comportamento.

Isto acontece porque nunca se entendeu, pelo menos de inicio, que a república não é sozinha: ela precisa do estado de direito, da democracia e do mundo privado, como seus limitadores(principalmente o último), para não degenerar.

Pela república todos são iguais perante a lei, mas não são iguais no mundo privado e a democracia tem que reconhecer esta desigualação.

Certo , é possível pensar que o coletivismo vem do socialismo, mas o socialismo é republicano. Ele se refere( o socialismo) à pura igualação entre as pessoas , que já é um conceito republicano, por oposição às monarquias , que impõem a vassalagem e torna as pessoas súditas de uma pessoa só.

É neste contexto todo que a República aparece para mim como a origem de todo coletivismo, não só o socialismo. É mais um problema do igualitarismo, que entendo ser a razão de ser de muitas distorções do último século.

Assim como o Marquês de Sade antecipou os cadáveres dos campos de exterminio, nos “120 dias de Sodoma” , previu a diluição do individuo em “ Escola de Libertinagem”.

domingo, 15 de março de 2026

O crime e a revolução

 

Ao assistir o famoso filme “Lawrence da Arábia” houve um momento em que fui tomado pela necessidade de refletir sobre um tema muito importante na história das revoluções: a questão ética da participação do criminoso.

Hoje em dia existe muita confusão nisto aí. A esquerda atual confunde o ativista e o oprimido com o criminoso, mas isto não é de agora.

Na atividade politica revolucionária a aceitação de métodos criminosos e do próprio criminoso não é incomum.

Em experiências revolucionárias diversas o problema aparece lá: as figuras de Pancho Villa e Emiliano Zapatta são confundidos com criminosos.

E na China , Mao- tsé- tung, preconizou um certo despojamento quanto a este problema. Chegou a um ponto em que para ele bastava que a pessoa pudesse trabalhar para a revolução, sem perguntar se esta pessoa era boa ou ruim.

Mas tanto no périplo de Lawrence como no México a participação do crime visa a deslegitimar a revolução ou qualquer outro processo politico justo.

Se relacionar com criminosos, numa relação de obediência cega, como ocorre no filme de David Lean, deslegitimou a independência árabe, colocando-a sob suspeição, o que teve reflexo positivo depois para os colonizadores anglo-franceses.

No caso especifico do México, a mesma coisa: os revolucionários são criminosos, ladrões de cavalo e invasores de propriedade.

Certamente houve casos deste tipo nestes movimentos. É quase impossivel evitar, só se se fizer uma escola ética para a revolução, mas geralmente não se tem tempo para isto não.

A coluna Prestes no Brasil recentemente foi criticada por permitir estupros e roubos nas casas dos camponeses, nas pequenas cidades aí pelo interior do país.

Mas é como eu digo, embora seja dificil evitar, em nome da honra do processo de rebelião, é preciso. O mais legitimo e justo que este movimento for, mais razão ele terá para vencer e portanto crime e revolução não combinam.

sexta-feira, 13 de março de 2026

As utopias e a humanidade

 

Deste modo ,ainda que as utopias sejam endereçadas à humanidade, todo mundo tem uma concepção de humanidade, que exclui uma parte.

O marxismo se refere à classe operária, como a única capaz de acabar com todas as classes. Em principio esta “ superação” se dá pelo trabalho, mas se tornou politicamente e revolucionariamente uma supressão física.

Como construir o bem da humanidade, espelhando sangue pela terra? Isto não seria desumano? O desumano tem condições de criar o humano?

Se nós analisarmos o humanismo, como defesa de sua continuidade, matar uma parte dela não seria pô-la em risco?

Existe, pois , um traço entre o mal, o bem e a humanidade. Todos os cataclismos que vimos no século XX são baseados no fato de que matar uma parte da humanidade é legitimo, se a maioria, eventualmente prejudicada, oprimida ou explorada, se beneficia.

Todos raciocinam assim e reconheço que politica e historicamente isto tem uma razão de ser. Nunca fui santo de acreditar numa paz pura e absoluta, que nem sempre as pessoas de bem têm como garantir. O direito de defesa implica eventualmente(mas não raramente)em atingir os outros.

Contudo, se for possível evitar, eu prefiro, porque se o processo de transição for tranquilo e consensual as chances de retornar ao status quo ante são menores, porque não haverá ressentimento, ódio acumulado, recalque.

O processo de construção segue em frente sem problemas.

Histórica e politicamente, no entanto, há sempre reação e esta precisa ser levada em consideração.

No plano , no entanto, dos conceitos, dos valores, admitir que o outro não pertença à humanidade ou deva se associar a uma parte dela para ser humana, como se ser humano é algo concedido por alguém, me parece filosoficamente estranho.

A condição de humanidade não é dada a Hitler , no momento em que ele nasce?



quinta-feira, 12 de março de 2026

As liberdades “ burguesas”

 

O meu posicionamento a respeito da utopia sempre gerou agressões e cancelamentos por parte dos radicais, com os quais convivi parte da vida.

O esqueminha clássico marxista(até certo ponto é verdade)está na cabeça(dura)deles até hoje e qualquer atitude diferente é tida como traição, revisionismo, etc.

Mas como dizia Carlos Nelson Coutinho, revisionistas somos todos. Na ciência e no conhecimento, quero dizer, na sua produção, não há lugar para dogma definitivo.

O marxismo de Marx se tornou, como disse Marcuse, um dogma , cuja contestação pode significar prisão , tortura e morte, o que não tem sentido, se se pensa no bem-estar da humanidade.

Em última instância ,na cabeça (dura) destes radicais está sempre aquele modelinho emocional: os oprimidos se vingarão de seus exploradores, com sangue e ferro, custe o que custar, destruindo o velho mundo e fazendo um novo, perfeito e justo.

A história mostrou que a luta por uma utopia final não se faz assim, principalmente depois de tantas violências. Capitalizar o desespero dos oprimidos(que os há certamente) e fazê-los derramar sangue pela Terra, provou que a pura necessidade de vingança não vai resultar em nada.

Mas o importante para o radical, mais do que a solução do problema social, é ver a buguesia em postes , enforcada, bem como os inimigos exploradores, coisa que nem sempre a esquerda radical sabe identificar e por isto atiram a esmo.

Algumas construções do capitalismo(e da burguesia) , que fugiram a Marx, como as liberdades burguesas, a ciência , os direitos de cidadania, devem permanecer no futuro, assim como a capacidade produtiva exponencial deste modo-de-produção, que era a única coisa que Marx via de positivo no regime.

E dentro da sua dialética negativa, a burguesia e o capitalismo, cavavam o seu próprio túmulo com esta capacidade produtiva. Também os direitos civis, o estado de direito, os direitos humanos, a ciência, cavam o tumulo do capitalismo e é por eles, principalmente pela democracia e pelo direito ,que se pode barrar o regime e subsituí-lo por outro.

quarta-feira, 11 de março de 2026

O humanismo

 

Todo mundo procura definir o humanismo e alguns negam a sua existência e mesmo sua necessidade. O humanismo é uma abstração, é verdade, mas é um ideal utópico e se pode estabelecer alguns critérios de sua realização.

A defesa da humanidade, de sua vida, de sua permanência, é um começo promissor. Mas certamente nós temos problemas para definir um humanismo levando em conta que a humanidade não tem sempre e mais certamente nunca pessoas humanas, no sentido desta defesa.

Ao longo da História nós vemos violências intestinas na humanidade, a por em xeque este projeto. Foucault mesmo, em função dos grandes cataclismos do século XX, chegou a dizer “ o homem morreu” e esta frase tem tudo para ser uma vaticinio definitivo sobre a humanidade: talvez ela não tenha jeito e nós havemos de considerar esta possibilidade.

Este artigo é uma persistência quanto a esta utopia. Nós somos de uma época, diferente do passado, em que se projeta um futuro da humanidade. A utopia não acabou.

As propostas de utopia nunca são para a humanidade toda. Elas sempre se constróem a partir da negação de uma parte da humanidade: a “ utopia” dos nazistas consagrava o direito só da raça branca; a utopia marxista, só dos trabalhadores.

Na base dos cataclismos citados esão estas ideias. Uma revolução comunista não é para todo mundo, muito menos, claro, a dos nazistas. No meio disto inúmeras pessoas inocentes perderam a vida, sem até entender porquê.

Propor um caminho geral , da paz para a paz, que evite estas limitações das utopias recentes, é um objetivo de minha vida, agora, chegando ao final.

Não aceito de forma alguma a naturalidade dos crimes de Stalin, Hitler e do sistema social em que nós vivemos e intento discutir uma utopia que possa se erguer numa base construtiva e não destrutiva.

O critério não é destruir para construir algo em cima, mas resolver os problemas do presente e construir o futuro.

Existe uma desumanização no socialismo sim.

 Na medida em que o socialismo iguala as pessoas, passando por cima das condições da natureza, ele tembém cria situações de alienação.

O estado é em si, em qualquer época, alienante, porque ele é sempre ocupado com um grupo pequeno. Por mais que ele tenha afinidade com o povo este grupo acaba decidindo sem esta afinidade. Decide ee mesmo, segundo suas responsabilidades, que nem sempre se adequam ao que o restante quer.

Marx e Engels sempre afirmaram que não existia comunismo ou utopia sem o fim do estado. As duas realidades não são compatíveis. A humanidade tem que se governar a si mesma, nenhum grupo ficando acima dela.

Então o socialismo real não diverge desta norma de todos os estados passados e do estado burguês hodiernamente: um grupo controla a comunidade, segundo citérios supostamente coletivos, mas que na verdade não atendem à complexidade desta comunidade, formada por “ indivíduos concretos vivos”(Marx). Antes a suprimem.

A alienação , vista sempre como um fenômeno desumanizador burguês, está presente sim no socialismo e no socialismo real, porque o estado aqui tem o mesmo desenho do estado burguês, ainda que os compromissos sejam “ coletivos”.

O grupo social governado aliena a sua vontade(para usar os termos de Rousseau) a este grupo e fica pois alienado de si mesmo(em termos marxistas)porque não governa os seus interesses, as suas necessidades, por si mesmo.

Enquanto não há uma desalienação completa da sociedade, como um todo, o melhor é usar os termos social- democráticos e o estado previdenciário, para mitigar as consequencias deste processo, reconhecendo no bojo disto o papel da democracia e da cidadania, que, pele menos, garantem uma manifestação e visibilidade aos atores sociais, ainda que sob condições adversas(miséria, repressão) e é por este caminho de guermantes que se há de buscar a utopia e a desalienação final.


sábado, 7 de março de 2026

Hegel tempo e modo

 

A confusão que faz Hegel entre o movimento e os modos do movimento compromete esta visão de “ ciência”. Na verdade ele está colocando a dialética no conteúdo das coisas, no Ser. O movimento estaria no intra-ser, na sua essência e substância. É aquele principio de que uma coisa é ela e outra ao mesmo tempo. No Ser está o não-Ser, o seu contrário lógico, que o faz movimentar-se. Todo o ser tem o seu contrário. Então o contrário de movimento é não movimento. Como então algo que não é “faz” o que é? É lógico que muitos responderiam: o repouso é o contrário do movimento, como a física ensina.

Contudo , hoje nós sabemos que nada está realmente parado e que o repouso é uma ilusão, como a relativistica ensina.

A lógica objetiva dialética parte do pressuposto de que ela expressa o movimento do real, mas nós vemos, com este exemplo ultimo e anterior, que existe uma discrepância entre o saber científico, objetivo e a dialética objetiva hegeliana.

É ilusório falar em repouso real ,como contrário ao movimento e assim sendo a dialética hegeliana objetiva é posta em xeque.

Se o movimento é continuo ,inercial, então não há leis dialéticas que expressam a sua verdade . A resistência à inércia é uma ilusão da ciência moderna que ainda influenciava Galileu e Hegel.

A mudança no paradigma científico mostra que a própria ciência(e a ciência da lógica), os próprios saberes, são atimgidos pelo movimento, não havendo como constituir uma certeza definitiva e absoluta.

Isto atinge também a ciência da lógica como vimos. Ela se constrói , nos seus modos, a partir das ciências em geral, que se modificam , que acrescentam saberes ao longo da História e então a ciência da lógica não só corre este risco, como é atingida por esta verdade o tempo todo.

A lógica, de modo geral, formal, subsiste, porque ela não se preocupa com o movimento , mas com a ordem das coisas. Quando se preocupa com o movimento aparecem contradições.



sexta-feira, 6 de março de 2026

Hegel e a questão do movimento

 

Hegel é a resposta mais ampla que existe sobre a questão do movimento, que começou com Galileu. Os croquis de Galileu sobre as fases de Vênus e os movimentos das luas de Júpiter convenceram o cientista da veracidade do movimento e da mudança, mas isto não s e tornou uma verdade geral de imediato.

Até o final do século XVII e entrando um pouco no seguinte, ainda era necessário convencer muita gente da sua existência. Movimento é mudança , é possibilidade, direção diferente e se isto cai nas mãos da humanidade, como caiu na França da revolução e do iluminismo, todos os poderes estão ameaçados.

Tanto na França , como na Alemanha, esta questão cresceu forte e rapidamente chamou a atenção dos respectivos iluminismos. Na Alemanha, a resposta “ definitiva”(se é que existe uma)é a dialética de Hegel, que parece, com suas leis complexas, ter justificado e explicado o movimento.

Mas por mais que Hegel tenha tentado cientificizar o movimento(tornando-o na verdade uma outra metafísica[ou seja um não-movimento])para dar-lhe um fundamento inatacável, o movimento, como eu já expliquei sobejamente em outros artigos, não é pré-dado, ele simplesmente é, se fazendo. Os modos pelos quais o movimento se manifesta são uma produção da natureza e da sociedade( movimento químico, a educação), mas ele se modifica na medida mesmo em que é livre.

Hegel colocou os modos à frente do movimento e é isto que compromete a “ Ciência da Lógica”: não existe nada como ciência do movimento, mas dos modos do movimento, como não existe um Ser de conteúdos, mas um ser em geral, que se movimenta.

De qualquer forma o reconhecimento da existênca do movimento se faz por Hegel, no fim do século XVIII e inicio do XIX e marca o começo da “ era das revoluções”, em que os poderes estabelecidos são derrubados.

Em nossa época parece ter havido uma derrota das revoluções, o que a torna o tempo da resignação e da incerteza, como dizia José Arthur Giannotti, mas o movimento continua aí.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Hegel e a lógica sem humanidade

 

A incorporação do mal é para construir uma lógica explicativa do real. Se não houvesse isto, esta lógica, como explicar o fracasso da Revolução Francesa? Em termos éticos abordar a história é depender de um projeto pré-estabelecido que dê sentido a ela e nem sempre fazer no imediato da pesquisa.

No meu modo de entender a Revolução Francesa significou um impulso de progresso relativo na humanidade. E seu impulso foi até o ano de 1889.

Caracterizar o terror como uma necessidade histórica é algo possível de constestar se nós levarmos em consideração como a História de fato é. Para Hegel existe uma filosofia da história pré-dada. É como se o seu desenvolvimento obedecesse a leis rígidas.

Mas a história não é assim. É outra questão saber porque Hegel raciocinou assim. Em outro artigo eu falarei disto aí.

A História é consequencial. É lógico que as forças desencadeadas pela revolução continuaram em Napoleão tornando a questão do terror de importância relativa. A queda no regime de terror não necessariamente garantiu a revolução. Mesmo no termidor, estas forças continuaram operando e desembocaram, como eu já falei, em Napoleão e suas guerras.

Mesmo depois de Napoleão ,após a restauração, como ocorreu na Revolução Gloriosa da Inglaterra, estas tendências prosseguiram. Todo mundo analisa a Revolução Francesa como tendo terminado no Termidor, mas isto não é verdade.

O progresso relativo da Revolução Francesa significa que em termos de direitos humanos houve muito pouco avanço, mas em termos de maior hegemonia do capitalismo, sim.

Muito embora a maior liberdade nascida dela tenha sido conseguida, os problemas de direitos humanos continuaram com a sociedade de classes. A História é assim mesmo, cada época histórica é assim mesmo: tem coisas positivas e negativas. Proudhon tem razão. De modo que a questão de Hegel justificar o Terror, como parte da História, revela um pouco a limitação da vida individual do pesquisador, que não tem uma visão de longo prazo possível.

domingo, 1 de março de 2026

De como a frase “aut césar aut nullius” é um problema psicológico

 

Diversos problemas psicologicos derivam deste delirio, supostamente dito por Júlio César. Contam as crônicas historicas que vindo para Roma, César se deparou com uma aldeiazinha e teria dito ao seu lugar tenente: “antes ser primeiro aqui do que segundo em Roma”.

Estas afirmações,constantes da História , nos mostram certos aspectos da psique humana. Não sou muito fã de explicar a História a partir do monismo psicológico(a partir de qualquer monismo), mas existe sim uma mediação explicativa ,unindo os lideres aos comandados.

Tem aquela frase atribuída ao anjo caído Lúcifer, que diz : “antes primeiro no inferno do que segundo no céu”. Eu falarei dela em outro artigo.

Aqui desenvolvo este tema de egocentria dos poderosos, que acaba por influenciar os pequenos, aqueles que vivem no cotidiano, sem nome. Este traço de união, entre poder e sem poder, explica sim muitas questões históricas, principalmente esta: a legitimação do poder.

Aquele homem, perdido no cotidiano, e que não se conforma se une ao lider para se sentir primeiro também, como ele. César não tinha a questão do culto à personalidade diante de si, mas tinha a da necessidade de legitimação e buscou, com Cleópatra uma ligação com o oriente. Quando disse esta frase ,revelava um conceito psiquico que é comum cada vez mais na sociedade: de alguma forma é preciso se sentir acima do cotidiano comum, sem poder, sem compensações, sem nada.

O poder de mandar neste cotidiano se faz com a ajuda de tantos que pensam assim: antes ser primeiro em casa do que segundo, no meio dos homens.

Ninguém psicologicamente suporta ser colocado de lado. Ser segundo numa aldeia produz uma sensação de ser o melhor e isto é relativamente suficiente para compensar a humilhação e o não reconhecimento.