segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

As origens do pensamento de Hegel VIII Jacob Boehme

 

Um dos exemplos mais notórios da igualação do bem e do mal na dialética, é a questão dos judeus. Sacrificados na segunda guerra eles foram os garantidores definitivos da pátria judaica ,tornando impossivel a negativa dos outros povos quanto a este pedido.

Assim como supostamente aquele que compreende a liberdade só depois de ser escravo, aquele que morre injustiçado, sob tortura, é a condição da repulsa dos bons, é a condição do reconhecimento do bem.

Ainda me lembro de Francisco Julião se referindo a isto, aplicando na questão da exploração: quanto mais, mais a consciência nasce entre os trabalhadores.

Isto tudo encerra um cinismo , uma perversidade, que parece constituir a natureza do ser humano, assim como alei do menor esforço.

A complexidade da sociedade afasta os homens e o sofrimento daquele que não é visto e não tem importânca para ninguém. A figura de Cristo é uma tentativa de lembrar em todos os lugares que o sofirmento existe e que devemos lutar contra ele. Na faina diária ,no entanto, na busca incessante do dinheiro onde arranjar tempo para pessoalmente ajudar?

Nas democracias representativas ocorre aquilo que Rousseau já havia notado no “ Contrato Social”: há a alienação da vontade e nós dizemos que neste processo de alienação da vontade perde-se o compromisso quanto ao sofrimento humano.

Uma época de lembrar este sofrimento, estas injustiças, que ficam como temas da arte e da literatura( e de outros meios também), é a em que vivemos. É um avanço, mas é pouco, e a necessidade de encontrar um caminho se torna cada vez mais imperativo.

Só o pensamento resta como forma de denuncia real destes fatos, mas falta o rastilho de pólvora, a centelha do movimento. Depois da Revolução Russa , onde encontrá-la?

A teoria da alienação

 

Istvan Mesjaros colocava na origem da teoria da alienação a doutrina da graça da religião cristã e estava parcialmente certo. Mas do ponto de vista estritamente materialista a alienação ocorre quanto mais o homem se complexifica em suas relações. A resposta cristã é uma tentativa idealista de explicar o fenômeno, mas a verdade é que a teia de relações,quanto mais cresce, afasta cada vez mais o homem do homem, através de mediações de convencimento e poder que visam a dar uma organização social, a qual esconde injustiças e exploração.

Fica parecendo, com o que eu digo , que havia uma certa inevitabilidade no processo de crescimento material da humanidade, mas a minha impressão sempre foi esta, levando em conta as enormes insuficiências da humanidade em seus inicios na superfície terrestre. As condições geográficas também: relação com os alimentos, com os recursos naturais e nós poderíamos revistar a discussão posta por Montesquieu sobre os condicionantes geográficos da civilização.

Desde a comunidade primitiva a única forma de mantê-la como uma forma de organização mais justa e menos cruel é se afastar da civilização, como esta última construida: pela exploração das classes menos favorecidas, pela divisão injusta das riquezas, que ficam na mão das classes altas e pela supressão da liberdade da maioria do grupo social. Isto com as mais diversas justificativas ideológicas.

Mediações e mais mediações surgem ao longo do tempo para afastar o homem do homem e reuni-lo de novo é uma tarefa hercúlea ,dificil e cada vez mais complexa.

Mas é a partir da questão material, que deve haver a discussão sobre o problema desta alienação que separa o homem e a humanidade.

O uso pura e simples da religião, da perda da graça pelo pecado, simplifica demais: o homem não perdeu a graça divina , ele perdeu o seu imediato, a relação com a natureza, por culpa dos outros homens ,movidos por novos interesses, na medida do crescimento material da sociedade. A ser continuado.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

As origens do pensamento de Hegel VII Jacob Boehme o mal na prática

 

O problema do bem e do mal em Hegel é fruto do seu pensamento sobre a história, a sua filosofia da História, um conceito que é atinente praticamente a ele: ele inventou este termo, que vinha sendo gestado por Jacob Boehme e Mestre Eckhart.

Na sua filosofia da História o mal ocupa efetivamente um lugar legítimo. Como tantas vezes tenho demonstrado foi a partir da legitimação do terror na Revolução Francesa que Hegel começou a elaborar o seu pensamento histórico.

Para dar sentido a este momento da Revolução, um momento do tempo da Revolução, ele entendeu não como fracasso aquilo que outros intelectuais o entendiam como tal.

O fracasso da Revolução é um meio para se ter consciência do papel da justiça, da liberdade e do bem. Sem isto não haveria o nascimento desta consciência e desta luta.

Ainda me lembro de meu professor Roland Corbisier mostrando que só se tem, dialeticamente falando, consciência da liberdade porque se a perdeu, no âmbito da História.

Então o terror tem um significado positivo de abrir o caminho da luta pelo bem. Mas também o genocidio na época do nazismo? Segundo Hegel sim. Quando Althusser diz que a “história é assim mesmo” não está fazendo mais do que expressar aquilo que mais do que potencialmente Hegel formulou.

E mais do que isto, o mal pode produzir o bem:muita gente não s e dá conta de que,em grande parte, a descolonização pós-segunda guerra,a começar pela India, só foi possível com o enfraquecimento de Inglaterra e França na segunda guerra.

Muitos dizem que Hitler, se fosse correto, aceitava a derrota definitiva em fevereiro de 1943 em stalingrado e não prosseguia no conflito.

Mas a rigor a luta precisava continuar para que seus objetivos históricos pudessem se realizados , um dos quais era o enfraquecimento das potências coloniais já citadas.

A India foi beneficiária: a Inglaterra ficou totalmente depauperada, assim como a França e tudo por causa da continuidade da guerra, que Hitler insistiu em seguir.



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

As origens do pensamento de Hegel VI Para além de bem e mal.

 

Toda a discussão de Nietzsche sobre bem e mal denota uma época protestante, em que cada vez mais se procura diluir esta disitinção entre bem e mal.

Esta visão católica de Bem e Mal absolutos, vai sendo progressivamente superada pela visão reformada, que já vê o homem de uma maneira diferente.

Passando por Kant(pietista, protestante), para quem o mal radica na humanidade, embora a distinção permaneça , os seus meios de apuração e construção se modificam ao ponto de se buscar algo diferente do bem e do mal absolutos.

Mas a questão não é esta ,para mim: sempre o mal e o bem são construidos, como uma dialética psicológica a ser bem entendida e interpretada.

O absoluto não existe, é uma abstração criada pela subjetividade e que tem um sentido místico( Boehme) de abandono à religião e à crença(Kierkegaard-Boehme), mas não realidade, muito menos objetiva. Em qualquer época, mesmo de predominio da catolicidade, é uma ilusão pensar que o mal e o bem são absolutos.

Interesses de poder, lógico, fundaram esta concepção, mas ela nunca foi real.

Contudo, entendo que há uma diferença fundamental entre o Bem e o Mal, que não pode ser diluída como Nietszche quer. É necessário fazer uma distinção entre aquele que joga uma criança no forno crematório, e aquela que a retira.

Tem estas atitudes um caráter absoluto? Se dissermos que são construidas temos que aceitar uma certa diluição ou fraqueza de fundamento nelas?

O reconhecimento do mal participa da atitude do bem? Se não houvesse o mal, o diabo, não haveria o reconhecimento do bem? E no cotidiano, em que o mal não aparece assim tão definido(forno crematório), em que medida a presença do mal se faz sentir como catalisador do bem?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

As origens do pensamento de Hegel V Jacob Boehme “O Mal ensina(?)”

 

Continuando nossa análise sobre as relações hegelianas e de Boehme sobre o bem e o mal, nós temos que tratar do problema pedagógico.

Muita gente entende que a forma de educar é expor a pessoa ao mal. O esforço, por exemplo, do soldado, se constitui como principio pelo conhecimento do mal.

Em muitos exércitos , entre os marines, exibem-se imagens de morte, tortura, aos pretendentes ao oficio , para mostrar-lhes em que estão entrando.

Mas eu faço uma distinção entre o problema militar e a educação, no sentido corriqueiro do termo, civil: o problema militar é eventual e implica na aceitação da violência como forma de obter o que se quer.

Na vida corriqueira admitir que a exposição ao mal “ educa” a pessoa, as crianças, não tem sentido, antes representa uma forma de sadismo, de imposição de sofrimento.

Aqui se observa que o que leva as pessoas a crescer, a buscar educação, é o sentido de responsabilidade com os outros e o compromisso com o bem, por si mesmo, e não referenciado ao mal.

O sacrificio que se faz em nome de uma causa ou de alguém não necessita de comparação com o mal, mas o seu reconhecimento e a necessidade de sua superação.

Mas então Kant está errado em dizer que o mal radica na humanidade? O que ele quer dizer é exatamente reconhecer a grande possibilidade do mal em si mesmo, mas a noção de bem ,contrastada com este reconhecimento , vale por si.

Somente no plano racional, da consciência, é que se pode pensar numa dialética de bem e mal, entendida como um processo de reconhecimento do que é ruim para a humanidade.

Nunca está presente necessariamente o mal , realmente ,o mal em si mesmo, na subjetividade, porque assim não poderia fazer uma distinção formal entre bem e mal.