sábado, 29 de julho de 2017

Prévia de meu livro " A Massa"



Einstein
Einstein nasceu na Cidade de Ulm ,Alemanha,em 1879,num período já de  crescimento do anti-semitismo.O fato das circunstâncias de sua infância terem sido narradas  da maneira que eu disse acima têm a ver com este anti-semitismo crescente na Alemanha e a  atitude Einstein sempre foi marcada desde então por uma reação constante ao preconceito.
Contudo não é verdade que ele fosse propriamente mau aluno.O modo como as pessoas vêem o bom ou ruim depende  da situação em que estão envolvidas e em que foram educadas.
Espera-se sempre,qualquer pai,que os filhos apresentem logo suas armas diante da vida.Desde pequenos  são exigidos sinais de qualidades sociais das crianças e Einstein não demonstrou isso.Mas isto tem que ser revisto,porque Einstein revelou sim sinais de super-dotação científica e matemática.Só que em função do seu auto-conhecimento ele se apegou às suas aptidões  largando de mão o resto.
O romance da ciência é exatamente uma narrativa que se começa historicamente para defendê-la da superstição ,mas vai se transmudando ao longo da história em versão de poder,interesse econômico,arte compensatória e até teatro porque esta visão de Einstein parece sugerir a  necessidade de insuflar em outras uma compreensão de humanidade a estes novo deuses da História ,de modo que não fique uma barreira entre as pessoas comuns e os gênios.
Neste sentido isto é até bom,mas é inverídico e deve ser denunciado.Nestes últimos anos se vem dizendo que Einstein foi um mito:não é bem assim.Ele só não era tão distante e tão independente dos outros como o romance disse.Não há singularidade absoluta na História,mais para frente eu vou colocar inúmeros exemplos desta verdade.Por  agora  é preciso guardar esta revisão.
Einstein II
O que eu aprecio na contribuição de Einstein é que ela deriva de uma trajetória pessoal de luta em busca do conhecimento,coisa  que foi comum no passado e hoje não é por influência deste estado totalitário geral que é o mundo em que nós vivemos.
Outra verdade:Leonardo da Vinci
Leonardo é,como muitos homens da renascença  ,dotado de uma saber universal,mas este  galardão não é assim uma coisa tão perfeita.Existem problemas gnosiológicos,éticos e pedagógicos nesta afirmação.Gnosiológicos porque qual o conhecimento que é objeto do trabalho de Leonardo?Éticos,porque em decorrência disto,podemos saber qual é a sua profissão?E pedagógicos,porque sem analisar estas duas questões não podemos mostrar aos estudantes quem é realmente  a qual a importância desta figura.
Ocorre que na luta do cotidiano a ciência também usa de meios para predominar,que muitas vezes conduzem ao fetichismo,à idolatria.


Idolatria e  educação
Estas atitudes idolátricas,que servem ao propósito de vender,acabam criando uma barreira entre os “ grandes homens” e as  pessoas comuns,principalmente  os alunos,que se inibem.
Tudo passa a ser fundamentalmente imitar estes “ grandes homens” e se não é possível construir as mesmas obras que eles toda a vida estudantil perde sentido.
Isto traz para o professor a tarefa de mostrar que o caminho de cada um é importante,que os “ grandes homens não estão sozinhos”.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Acerca dos comentadores em filosofia

Serie metalinguagem em filosofia



O que seria de Aristóteles sem os comentaristas árabes?Ele não teria chegado a São Tomás de Aquino,que o usou para construir uma autoridade gnosiológica e " paralisar" o conhecimento.Ficar só nos filósofos obedece a esta lógica tomista de poder e paralisação do conhecimento.Na história como na vida o passo seguinte é o mais importante,porque a vida e o tempo não param.É possível ,e isto se vê em alguns momentos da história ,que fiquem só os comentaristas.Há comentaristas de Descartes como Beyssade que são indispensáveis,de David Hume e Locke também e hoje não se pode ler Marx,principalmente o Capital, sem ler ,pelo menos junto,toda a discussão em torno dele nos últimos cem anos,sem o quê o militante se torna uma criança.
É lógico que a origem,a fonte das discussões se dá sempre com os filósofos.Eu já defini:filósofo é aquele que tem um pensamento-fonte de outros.Ele é original como fonte de outros pensadores.
Um pensador,um filósofo,no entanto,não são dissociados do mundo e de seus antecessores,mesmo estes originais.
Não existe Derrida sem Heidegger e eu,Ernesto Maggiotto Caxeiro,posso usar como fonte interpretações de Derrida,mas nem este nem eu somos filósofos no sentido próprio do termo.E a originalidade não é absoluta.
Também é um problema o grau de universalidade que um filósofo alcança.Os poucos grandes filósofos são universais.
Contudo,a passagem do tempo vale para eles e a  humanidade também,nos seus erros e incapacidade eventual de serem absolutamente transhistóricos,transtemporais.Ninguém controla a sua imortalidade de modo nenhum.
A discussão entre filósofos e comentadores é,guardadas as devidas proporções,a mesma entre professor e aluno e é exemplificada aqui pela relação famosa entre São Tomás de Aquino e Aristóteles.
Quando se alega a verdade de um mentor,digamos,busca-se a intocabilidade,o poder,porque em princípio e sempre a relação é de questionamento,pois sem isso não haveria filosofia,bem como qualquer saber.Não haveria tempo,passo seguinte.
Por mais genial que seja um autor está sujeito a erros e é um direito e uma necessidade questioná-lo.
Nas escolas e nas universidades,até mais ou menos o mestrado,não se admite a discussão,para manter a relação de autoridade professor/aluno.É uma exigência de disciplina,mas não é verdade que tal assertiva garanta a veracidade e a importância  do conhecimento,e a sua manipulação ideológica como consciência falsa do mundo pode estar presente.
Por isso sempre defendi e sempre pratiquei a necessidade ,em qualquer tempo,da discussão,do questionamento,desde o jardim de infância,porque só assim evitam-se estes perigos que rondam a produção do conhecimento.
“Da discussão nasce a luz” já dizia Goethe e o conhecimento não pode,como quis São Tomás,ser paralisado,porque o tempo não é paralisável e a realidade social e natural se modifica e parece infinitamente observável.
Esta última lição foi dada ao positivismo de Comte,outra formulação ideológica,quando ele afirma que só aquilo que podia ser observado era objeto de ciência.O átomo e sua comprovação puseram por terra este erro.
Newton errou ao dizer que “ matéria atrai matéria na razão direta das massas e no inverso do quadrado das distâncias”,porque Leibniz contestara,dizendo serem o espaço e o tempo relativos,relacionados.Porque não é “ quadrado da distância,mas da massa ,como provaram Lorentz e Einstein.
Sobre Marx eu já falei,mas é importante ressaltar esta passagem do tempo e reconhecer a errância humana(Nietzsche)em todos,não só os filósofos.
David Hume pode ser fonte de muitos pensadores,em sua obra toda,mas o decisivo é um único trecho do “ Tratado do Entendimento Humano”,que influenciou Kant,tirando-o do seu “ sono dogmático”.Neste mesmo Tratado Hume afirma que Locke não tem mais importância e realmente,Locke só é reconhecido nos dias atuais pelo segundo  “ Tratado do governo civil” que serviu de base à Independência dos Estados Unidos e pelo reconhecimento da empiria no pensamento de Kant,que une Hume a Locke(ironia).
O próprio Kant,na sua “ Crítica da Razão Pura” propõe uma revitalização impossível da metafísica,mas esta foi superada por ele mesmo,que atirou no que viu e acertou no que não viu.
Não há tanta distância assim entre o passado e o futuro,entre o professor e o aluno,entre o filósofo e o comentador.

terça-feira, 18 de julho de 2017

De volta à relação Kant/ Nietzsche



O ego e o Eu estão, a partir de Kant,interligados.Existe uma ligação entre Kant e Freud.Não há ecletismo no pensamento de Kant,mas o reconhecimento de que no corpo humano,há uma continuidade entre o tempo,a substância,o ego e o Eu,o valor,a escolha, o reconhecimento(social).
Isto não é o propósito original de Kant,mas conseqüência de seu pensamento que ele chamava de “ prático-dogmático”(“ Prolegômenos a uma Metafísica Futura”).
Neste sentido não há como falar em Nietzsche ,como já foi dito em outro artigo ,sem admitir a liberdade da linguagem,subjetiva, que a filosofia de Kant proporciona.A crítica à metafísica, de Nietzsche,passa pela de Kant,indireta,enviesada.
Mas o que me anima aqui é mostrar como não é possível,com base nesta continuidade,dissociar os valores de uma experiência psicológica comum(ego),dos ressentidos aos aristocratas,aos transvaloradores.
O valor,a escolha,derivados da estimação do mundo por parte do sujeito,depende de pré-condições localizadas na experiência ,a qual se faz no tempo.Não é possível criar valores referenciados a uma perspectiva somente sem que isto esteja relacionado com a experiência e esta não é dissociada das outras.
De Nietzsche a Husserl todos procuraram uma transcendentalidade,uma ideação capaz de ser só relativa ao sujeito,não ao mundo,não à experiência.Husserl se referia à intencionalidade como base desta proposta filosófica.O seu conceito de “ Eu transcendental” visava a dar uma explicação a esta (também)idéia.
No caso de Nietzsche ,em “ A genealogia da Moral”,”o eterno retorno”,busca-se o fundamento de um fundamento sem fundamento ou com fundamento só nos valores,nas escolhas,no eu.
O cientificismo supõe que a escolha do Eu é baseada na objetividade da ciência.O psicologismo supõe que a base está na compreensão do ego,mas ambas as perspectivas  estão erradas porque o valor é o que fundamenta a escolha.
A descoberta de eventuais razões para uma determinada escolha não a impede de subsistir,como a da  existência(Nietzsche é um dos criadores do existencialismo).
Contudo ainda que não se procure esta razão,esta “ causa”,não há como separar a influencia do ego sobre o eu.
Transcender aos valores do cientificismo e do psicologismo(e de outros ismos),evitando o remoer da procura ,do ego,das razões do agir,não impede a influência sociológica da troca simbólica que forma a todos.A autonomização crescente não é absoluta porque não se nasce senão na sociedade,numa condição em que é impossível evitar o condicionamento.
A consciência de manada se expressa  nestes ismos e também no dogma,que são faces da mesma moeda,conforme a capacidade de pensar ou a sua incapacidade.
O fundamento do valor,consciente ou inconsciente ,é o ego.
A subsistência  do valor e da existência,no sentido,como fundamento do agir do sujeito,gera um individualismo,com a predominância inesperada do ego,o que parece ter acontecido com o próprio Nietzsche,que fez uma autobiografia “ Ecce Homo”(comparando-se a Cristo),cujos capítulos eram assim:”Porque sou tão inteligente”;” porque escrevo livros tão bons”.