terça-feira, 25 de julho de 2017

Acerca dos comentadores em filosofia

Serie metalinguagem em filosofia



O que seria de Aristóteles sem os comentaristas árabes?Ele não teria chegado a São Tomás de Aquino,que o usou para construir uma autoridade gnosiológica e " paralisar" o conhecimento.Ficar só nos filósofos obedece a esta lógica tomista de poder e paralisação do conhecimento.Na história como na vida o passo seguinte é o mais importante,porque a vida e o tempo não param.É possível ,e isto se vê em alguns momentos da história ,que fiquem só os comentaristas.Há comentaristas de Descartes como Beyssade que são indispensáveis,de David Hume e Locke também e hoje não se pode ler Marx,principalmente o Capital, sem ler ,pelo menos junto,toda a discussão em torno dele nos últimos cem anos,sem o quê o militante se torna uma criança.
É lógico que a origem,a fonte das discussões se dá sempre com os filósofos.Eu já defini:filósofo é aquele que tem um pensamento-fonte de outros.Ele é original como fonte de outros pensadores.
Um pensador,um filósofo,no entanto,não são dissociados do mundo e de seus antecessores,mesmo estes originais.
Não existe Derrida sem Heidegger e eu,Ernesto Maggiotto Caxeiro,posso usar como fonte interpretações de Derrida,mas nem este nem eu somos filósofos no sentido próprio do termo.E a originalidade não é absoluta.
Também é um problema o grau de universalidade que um filósofo alcança.Os poucos grandes filósofos são universais.
Contudo,a passagem do tempo vale para eles e a  humanidade também,nos seus erros e incapacidade eventual de serem absolutamente transhistóricos,transtemporais.Ninguém controla a sua imortalidade de modo nenhum.
A discussão entre filósofos e comentadores é,guardadas as devidas proporções,a mesma entre professor e aluno e é exemplificada aqui pela relação famosa entre São Tomás de Aquino e Aristóteles.
Quando se alega a verdade de um mentor,digamos,busca-se a intocabilidade,o poder,porque em princípio e sempre a relação é de questionamento,pois sem isso não haveria filosofia,bem como qualquer saber.Não haveria tempo,passo seguinte.
Por mais genial que seja um autor está sujeito a erros e é um direito e uma necessidade questioná-lo.
Nas escolas e nas universidades,até mais ou menos o mestrado,não se admite a discussão,para manter a relação de autoridade professor/aluno.É uma exigência de disciplina,mas não é verdade que tal assertiva garanta a veracidade e a importância  do conhecimento,e a sua manipulação ideológica como consciência falsa do mundo pode estar presente.
Por isso sempre defendi e sempre pratiquei a necessidade ,em qualquer tempo,da discussão,do questionamento,desde o jardim de infância,porque só assim evitam-se estes perigos que rondam a produção do conhecimento.
“Da discussão nasce a luz” já dizia Goethe e o conhecimento não pode,como quis São Tomás,ser paralisado,porque o tempo não é paralisável e a realidade social e natural se modifica e parece infinitamente observável.
Esta última lição foi dada ao positivismo de Comte,outra formulação ideológica,quando ele afirma que só aquilo que podia ser observado era objeto de ciência.O átomo e sua comprovação puseram por terra este erro.
Newton errou ao dizer que “ matéria atrai matéria na razão direta das massas e no inverso do quadrado das distâncias”,porque Leibniz contestara,dizendo serem o espaço e o tempo relativos,relacionados.Porque não é “ quadrado da distância,mas da massa ,como provaram Lorentz e Einstein.
Sobre Marx eu já falei,mas é importante ressaltar esta passagem do tempo e reconhecer a errância humana(Nietzsche)em todos,não só os filósofos.
David Hume pode ser fonte de muitos pensadores,em sua obra toda,mas o decisivo é um único trecho do “ Tratado do Entendimento Humano”,que influenciou Kant,tirando-o do seu “ sono dogmático”.Neste mesmo Tratado Hume afirma que Locke não tem mais importância e realmente,Locke só é reconhecido nos dias atuais pelo segundo  “ Tratado do governo civil” que serviu de base à Independência dos Estados Unidos e pelo reconhecimento da empiria no pensamento de Kant,que une Hume a Locke(ironia).
O próprio Kant,na sua “ Crítica da Razão Pura” propõe uma revitalização impossível da metafísica,mas esta foi superada por ele mesmo,que atirou no que viu e acertou no que não viu.
Não há tanta distância assim entre o passado e o futuro,entre o professor e o aluno,entre o filósofo e o comentador.

terça-feira, 18 de julho de 2017

De volta à relação Kant/ Nietzsche



O ego e o Eu estão, a partir de Kant,interligados.Existe uma ligação entre Kant e Freud.Não há ecletismo no pensamento de Kant,mas o reconhecimento de que no corpo humano,há uma continuidade entre o tempo,a substância,o ego e o Eu,o valor,a escolha, o reconhecimento(social).
Isto não é o propósito original de Kant,mas conseqüência de seu pensamento que ele chamava de “ prático-dogmático”(“ Prolegômenos a uma Metafísica Futura”).
Neste sentido não há como falar em Nietzsche ,como já foi dito em outro artigo ,sem admitir a liberdade da linguagem,subjetiva, que a filosofia de Kant proporciona.A crítica à metafísica, de Nietzsche,passa pela de Kant,indireta,enviesada.
Mas o que me anima aqui é mostrar como não é possível,com base nesta continuidade,dissociar os valores de uma experiência psicológica comum(ego),dos ressentidos aos aristocratas,aos transvaloradores.
O valor,a escolha,derivados da estimação do mundo por parte do sujeito,depende de pré-condições localizadas na experiência ,a qual se faz no tempo.Não é possível criar valores referenciados a uma perspectiva somente sem que isto esteja relacionado com a experiência e esta não é dissociada das outras.
De Nietzsche a Husserl todos procuraram uma transcendentalidade,uma ideação capaz de ser só relativa ao sujeito,não ao mundo,não à experiência.Husserl se referia à intencionalidade como base desta proposta filosófica.O seu conceito de “ Eu transcendental” visava a dar uma explicação a esta (também)idéia.
No caso de Nietzsche ,em “ A genealogia da Moral”,”o eterno retorno”,busca-se o fundamento de um fundamento sem fundamento ou com fundamento só nos valores,nas escolhas,no eu.
O cientificismo supõe que a escolha do Eu é baseada na objetividade da ciência.O psicologismo supõe que a base está na compreensão do ego,mas ambas as perspectivas  estão erradas porque o valor é o que fundamenta a escolha.
A descoberta de eventuais razões para uma determinada escolha não a impede de subsistir,como a da  existência(Nietzsche é um dos criadores do existencialismo).
Contudo ainda que não se procure esta razão,esta “ causa”,não há como separar a influencia do ego sobre o eu.
Transcender aos valores do cientificismo e do psicologismo(e de outros ismos),evitando o remoer da procura ,do ego,das razões do agir,não impede a influência sociológica da troca simbólica que forma a todos.A autonomização crescente não é absoluta porque não se nasce senão na sociedade,numa condição em que é impossível evitar o condicionamento.
A consciência de manada se expressa  nestes ismos e também no dogma,que são faces da mesma moeda,conforme a capacidade de pensar ou a sua incapacidade.
O fundamento do valor,consciente ou inconsciente ,é o ego.
A subsistência  do valor e da existência,no sentido,como fundamento do agir do sujeito,gera um individualismo,com a predominância inesperada do ego,o que parece ter acontecido com o próprio Nietzsche,que fez uma autobiografia “ Ecce Homo”(comparando-se a Cristo),cujos capítulos eram assim:”Porque sou tão inteligente”;” porque escrevo livros tão bons”.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Porque é importante discutir a maturidade da humanidade?



A discussão sobre a maturidade da humanidade segue o mesmo caminho da maturidade individual,com algumas diferenças,claro:adequação ao mundo real.É uma forma de ontogenética,da ontogenética ligada à filogenética(Haeckel).Ao desenvolvimento geral social corresponde o individual e vice-versa(dialeticamente falando).
Mas será que é assim mesmo,este esquema funciona?A adequação do individuo(socialização)é idêntica à da humanidade?
Certamente que  as diferenças são claras.Não há como estabelecer um padrão único de maturidade para a humanidade como um todo.Atribui-se a Piaget(seguido por Habermas)que ao desenvolvimento material,ao conhecimento cada vez maior,cultural,da humanidade quanto ao seu entorno,social e natural,corresponderia  um progresso moral,tanto no plano geral quanto no individual.Esta idéia,supostamente dele,é contestada.
Julio Verne,seguindo uma longa tradição que vem de Benjamin Franklin,afirmou que a ciência(e o conhecimento) uniriam os homens,mas,eu aduzo,se estes quiserem,se as barreiras nacionais e interesses particularísticos deixarem e não deixam,o que põe o problema da moralidade como escolha não necessariamente associada às relações humanas,como a sociedade e a natureza,mas com algo transcendente,que carece de modelo prévio ,mas é construído na voragem do tempo.
Alguns critérios são chamados a formar este modelo:se os homens vivessem no famoso país de cocagne,em que que o leite e o mel brotam da terra,ininterruptamente,não haveria razão para dissensão e ódio,e parte da utopia é chegar a este país.
Eu disse no artigo anterior que a maturidade do homem começa com Freud e o reconhecimento das necessidades e direitos do corpo,mas esta verdade acrescenta-se àquela do século XVIII,do “ desencantamento do mundo” de Horkheimer,que prepara a construção de uma humanidade,posta separada da natureza,expressada numa declaração de direitos,tosca e ainda por fazer,sofrendo diluição e recondensação continuos.
Assim sendo o problema do começo já é um problema de como definir o tempo,o seu tempo,o que é este começo e a possibilidade de seu fim.
Se na esfera individual pode-se identificar etapas temporais de maturidade e imaturidade,conforme o nível de consciência,no plano geral é este um tema aberto.
No seio deste “ começo”,que deveria apresentar uma estabilidade para o gênero humano,cataclismos e violência atribuídos ao passado se repetem,se reforçam,mesmo no momento em que a constatação dos “ direitos humanos “ é mais forte.
A dialética pretende justificar isto(ideologia como consciência falsa)afirmando que a liberdade só se põe quando está perdida,mas a história da humanidade demonstra que,nas sociedades primitivas, as utopias do passado,de retorno  ao seu igualitarismo desaprovam as “ vantagens “ da civilização”(idade de ouro).Houve resistência à passagem da comunidade primitiva à civilização,como s evê na Biblia,no primeiro crime.
O problema desta maturidade geral se insere na confusão prévia entre o passado e o presente.A constatação do corpo só foi possível com o desencantamento e o desencantamento conduz ao corpo.
E o futuro,onde está?

sábado, 13 de maio de 2017

A maturidade da humanidade



Ainda se propaga nas Universidades que o iluminismo é o momento da maturidade da humanidade,mas este conceito está errado e superado há muito tempo.O problema está na questão mesma do modelo:todo mundo quer que o seu modelo seja o vencedor dentro da luta social que se trava na humanidade desde a Revolução Francesa.
Como a Ilustração foi a última grande proposta de unidade do ser humano,o último grande projeto para a humanidade ,todos se voltam para este transcendente,cujas carcterísticas de puro racionalismo não servem mais para a nossa complexa realidade social.
Foucault notou isto em seus livros,ao ponto de chegar a  dizer “ O Homem morreu”.O que ele quis dizer  com isto é que o projeto abstrato acabou,havendo necessidade de reconhecer a realidade individual,os problemas relativos à sexualidade,à intimidade,que no século XVIII não ocupavam lugar de destaque(mas in limine).O individuo concreto vivo,como diz Marx estava ainda ainda nascendo.
A resposta positiva de Kant ,sobre a possibilidade deste individuo comum fazer filosofia ( e tudo o mais)só teve reconhecimento no final do século XIX,através da escola da Marburg e Hessen e Ernst Cassirer,mas Foucault percebeu esta nova realidade com Freud,a partir da “ Interpretação dos Sonhos” e o nascimento da discussão sobre a relação do homem  com o corpo,que já não é uma abstração explicativa,mas uma verdade que não pode ser definida por uma categoria científica única.” A verdade é concreta” Diz Marx antecipadoramente.
Esta verdade,de si para  para consigo mesmo( transexualidade,homoafetividade)são problemas que a razão não não só não  resolve,mas só um conjunto complexo que a reúne,as emoções,os sentimentos,os desejos,o sofrimento e assim por diante.
No meu modo de entender  existe um momento em que o iluminismo adquire o seu ápice final em Kant,com as consequencias devidas do seu pensamento,que reconhece,muito liminarmente,a presença da sensibilidade humana junto à razão e o crescimento desta consciência que se une(à revelia dos autores)com Freud(há outros,mas eu fixo neste eixo o caminho de transformação da sociedade humana contemporânea).
Contudo é preciso entender que a “ maturidade humana” é um conceito metafórico,porque não há termo de relação entre a maturidade individual e a da humanidade como um todo.Em primeiro lugar,porque seguindo uam visão de Horkheimer,o “ desencantamento do mundo”,não é,como eu já disse,a maturidade do ser humano,mas uma sua  pré-condição.
Humanidade é uma abstração,mas os individuos não.
Cassirer demonstra que a repulsão à Revolução Francesa ,bem como a sua sacralização(Hegel)jogou água demais no moinho da razão,do modelo:tudo segue um curso normal,lógico,dentro de uma suposta filosofia da história.Quem repeliu buscou outros modelos,quem sacralizou afirmou que os seus momentos são um caminho necessário e racional(a de aprendizado?)da sociedade.
Ambas as posturas estão erradas.O caminho de Kierkegaard é mais acertado(falaremos dele depois).
Assim sendo a maturidade individual(não abstrata) tem um fim,precede a morte,cuja experiência ninguém tem(Heidegger),mas a maturidade da humanidade não tem um fim,pelo menos definido,por qualquer instância.
Nem a ecologia,que vaticina o risco de fim da humanidade,nem a religião,com a escatologia,possuem condições de afirmar este fim.Então onde está o momento,a linha que caracteriza e estabelece tal maturidade?E o que vem depois é decadência?É manutenção?
Em princípio,e como minha hipótese, eu entendo que esta linha é o reconhecimento total das necessidades e direitos deste “ individuo concreto vivo” e num acréscimo ecológico,de tudo o que é vivo(a vida).
O reconhecimento da diversidade sexual,o amor livre(no sentido próprio do termo),a liberdade espiritual e material(superação da miséria)são os elementos desta maturidade humana geral,entendida como um epifenômeno(Kant)do fenômeno real da sociedade concreta,onde está o corpo.


Então esta maturidade começa em Freud,mas não sei onde nem  com quem ela termina.O que  sei é que ela não se funda numa contribuição intelectual ou científica única e em nenhum destes individuos,mas na concreticidade toda.