domingo, 7 de janeiro de 2018

A experiência da morte



A experiência da morte é a do outro,naquele que já possui consciência.Não assiste razão àqueles que fundam a vivência humana numa não-experiência,a morte,pois ela é experiência. E é construída e modificada no tempo ,na história.
O nascimento da consciência no homem primitivo e o “ desencantamento do mundo” no século XVIII  são dois momentos decisivos deste processo histórico-social,porque primeiro nasce a dúvida sobre a existência da morte e no segundo a dúvida sobre a sua existência(da morte)!!!
Pela questão da morte  do “ Ser-para-a-morte” observamos um traço de união entre o primitivo(com as aspas[agora])e o homem moderno(com também).Apenas o que muda é a relação do homem com ela,na mesma medida da mudança operada entre o mito antigo e a sua concepção atual,moderna(vá lá).
Mudam as concepções,mas não a sua certeza(?).Então a certeza,mas não a sua experiência,individual,subjetiva,dirige esta última no caminho da responsabilidade.Se a experiência da morte do outro é uma ,também,para nós,a responsabilidade continua  e a certeza é uma experiência,distinta da morte em si,mas atinente a ela.
Medos,expectativas,curiosidades(que estavam no outro)são mediações entre a vida e o seu fim.Não há porque pois transformar a morte num transcendental,em algo que não nos toca.Nem muito menos torná-la um fundante absoluto garantidor do sucesso da vida(por oposição ao fracasso[Sartre]).
O sentido de nossa vida é construída pela consciência da morte,mas a nossa consciência é a do outro;é porque nos é dita e experienciada.E a dúvida sobre o fim continua.Logo a existência é um fracasso na medida em que tomamos consciência de algo muito complexo,um espelho de muitas imagens.

sábado, 9 de dezembro de 2017

O princípio republicano

Série Constituições Brasileiras




Amigos inicio aqui uma série sobre os grandes artigos das constituições brasileiras.O primeiro trata do artigo 43 da Constituição Brasileira de 1891:
Art 43 - O Presidente exercerá o cargo por quatro anos, não podendo ser reeleito para o período
presidencial imediato.
Que institui o princípio republicano da alternância de poder,que tanta celeuma causou no tempo de Fernando Henrique,que ,na democracia,foi o único a romper com ele.
Escolho-o porque ele institui este princípio,tão decisivo na democracia ,e porque através dele se pode discutir , a meu ver,uma das coisas mais difíceis de definir na teoria política e nas teorias das formas de governo e estado:o tempo de governo necessário para mudar ,para melhor,um país.
Desde os antigos gregos que se sabe que não existe um modelo único de forma de governo e de estado,dependendo estas formas do caráter do povo,de sua história e cultura.
É famosa a acusação de Rousseau em relação ao Imperador Pedro I ,o Grande,da Rússia,que ,erradamente,quis fazer dos russos franceses,antes de torná-los russos.
Vou continuar estes comentários proximamente.

Nietzsche e Wagner

Série Filosofia




Sempre afirmei aqui que achava exagerada a vinculação, feita por Lukács, de Nietzsche aos propósitos imperialistas da Alemanha,mas no que diz respeito ao objetivo de unificação  alemã  pela aristocracia junker é outra coisa.O transvalorador de valores é um conceito muito útil dentro deste contexto político.
Quando se pensa que durante muito tempo Nietzsche e Wagner conversaram constantemente,dá para imaginar,sabendo que este último colocou  claramente a sua arte  à disposição deste intento,que Nietzsche passou por um processo de dúvida.Talvez Wagner o quisesse convencera fazer algo semelhante com sua obra.
Depois que Wagner se converteu ao cristianismo Nietzsche rompeu com ele,o que indica que houve uma discordância filosófica.Mas isto  pode esconder algo mais.
Senão vejamos:para Nietzsche o cristianismo é a negação do uber-mensch,o transvalorador de valores.O cristianismo é o rebanho, a consciência do rebanho.Wagner parece ter apontado ,com esta conversão, para o fato de que pôs a sua arte ao serviço da política por necessidade,pelas exigências da “ condição objetiva”.
Mas Nietzsche não a aceitou.Por quê?

domingo, 12 de novembro de 2017

Wagner e Marx deviam ter vivido até aos 100 anos



Por razões óbvias:o primeiro é acusado de ser precursor do genocídio,o segundo stalinismo.Este texto faz parte de estudos que tenho feito para encontrar um método de abordagem das figuras históricas,que têm influência sobre acontecimentos futuros,que se lhes seguem e as duas mais importantes são estas aí.
São estudos para evitar más interpretações,especialmente quando faço menção a Getúlio Vargas e sou confundido como getulista.
As idéias não são absolutamente originais e criações ultra-individuais.Elas são uma passagem do coletivo para o individual.A dialética do individual para o coletivo não existe(mais uma das razões para eu criticar a dialética...),pois tudo nasce da experiência dos povos,como notara Kant.
Assim ,muito dificilmente, quando cito um autor ou um personagem ,cito-o como homenagem ou elogio pessoal,mas como aquela pessoa que mais cristalizou um pensamento.
Wagner é o mais importante formulador do socialismo nacional,ou seja,do futuro nazismo.Contudo ele morreu muito antes de Hitler e do movimento que praticou crimes no século XX.O meu pai stalinista costumava dizer que a História  não podia ser analisada a partir do código penal(idéia do stalinismo) e eu ,naturalmente discordo,mas se o faço não tenho como julgar a figura de Wagner pelo genocídio,por motivos óbvios.
O fato dele propugnar ,no seu tempo,como está em muitas cartas,a expulsão e  a queima dos judeus,que,segundo,ele ,tiravam os empregos dos alemães(como Wagner),não nos autoriza a condená-lo,pois ninguém sabe se ele o faria,se estivesse vivo em 1942.
Do mesmo modo ,a acusação de economicismo feita por Mikhailovski contra Marx,que parece ser a base da uma falta de ética original no movimento comunista,favorecedora do stalinismo(isto sou eu  quem está dizendo e não Mikhailovski)não nos deve conduzir a uma condena moral de Marx,mas tanto Wagner e principalmente este último precisavam estar vivos para dizer se suas concepções e pessoas apoiariam o que sucedeu,em grande parte,em nome deles.
Quanto de sofrimento poderia ter sido evitado e o que isto representaria,no caso de Marx,de salvação e continuidade para o socialismo,até aos dias atuais,tão acusado,justamente,de cometer crimes,em nome de Marx?
Ainda que uma idéia individual apareça ela só é válida na medida em que impregna uma época,uma sociedade,uma profissão ou expressa o desejo de uma experiência de revelar-se,como é o caso de Nietszche,que se dizia um autor “ póstumo” não reconhecido na sua época.A mesma coisa se diz do escritor preferido deste filósofo,Stendhal,que não foi reconhecido no seu tempo ,mas previu o seu renascimento para o final do século XIX,o que se deu realmente.
Aquilo que é puramente individual é como uma garrafa do náufrago ,que da ilha,a lança para se comunicar ou para deixar um testemunho de seu tempo.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Os sistemas de Nietszche


Série Filosofia



Desde que estudei mais a obra de Nietszche, na UERJ,no curso de especialização ,sempre achei que havia contradições em seu “ sistema”.Na época ainda me atiçava a mente o fato dele defender a “ vontade de poder”,que teria sido a base da relação de sua filosofia com o nazismo.
Os meus professores na ocasião me corrigiram,dizendo que Nietszche se referia sempre à “ vontade de potência”,afirmação da perspectiva(dir-se-ia individual [termo impreciso]{não muito presente nele}) e isto é uma verdade.
Contudo o termo “ vontade de poder” também está presente em “ A genealogia da moral”,numa flagrante contradição com o outro.A coragem para vir aqui e “ denunciar” esta contradição veio da leitura de Eugen Fink,” O pensamento de Niesztche” onde ele mostra outras possibilidades de sistemas no filósofo.
E não é só isso:frases e mais frases de Niezstche guardam pouca concordância umas com as outras.Algumas idéias parecem defender o direito de uma perspectiva ética ,para além do rebanho, e outras ,o sentido oposto de criar uma nova aristocracia!
Eu tenho sido muito crítico com Lukács na abordagem que ele faz de Niesztche,mas este apego à aristocracia casa bem com a aristocracia Juncker na Alemanha que realizou a unificação.O “ ferro,sangue e lágrimas” de Bismarck, associado a uma conduta pessoal, parece mesmo compor bem com o clima nacionalista da época.
O filósofo parecia ter uma descompensação emocional,por falta de reconhecimento(“há homens que nascem póstumos”[numa postura muito parecida com a de seu escritor favorito Stendhal])e por isto buscava nesta atitude individualista uma forma de afirmação,a ser reconhecida pelos outros.
Até ao momento em que a perspectiva subjetiva tem realidade,isto é,verdade,tudo é admissível,mas como tenho dito ser dissociado do resto é impossível e não há porque não preferir a “ moral crítica de Marx” ao amoralismo de Nietszche .