domingo, 9 de junho de 2019

Macabéa heroina de nossa gente!

Clarice Lispector nunca foi próxima de mim,pelos seus temas,mas nem por isto deixo de considerá-la um gênio da literatura brasileira.Fui sempre mais afeito aos temas sociais e no momento em que Clarice os aborda ,na “ Hora da Estrela”,eu me interesso.
O personagem principal ,Macabéa é um dos maiores da literatura universal e expressa muito do que o povo brasileiro(e a mulher brasileira)é.
Eu não estou generalizando,mas a figura de Macabéa mostra como os impasses do povo brasileiro,imerso na pobreza,se dão.Clarice não faz uma aproximação vulgar entre a miséria,a carência e a psicologia do pobre,do carente.
Esta constatação,quando vi pela primeir vez este personagem, foi decisiva para mim,que fazia esta conexão falsa.Macabéa tem uma imensa vocação para o saber.Adora a antiga rádio relógio e vive perguntando.Independentemente dos perigos que a sua condição apresenta,se joga naquilo que gosta.Pergunta ao namorado “ o que é cultura”.
Ela está,diriam os moralistas,à esquerda e à direita,” alienada”,mas o seu furor de conhecimento os desmente.A sua despreocupação com o contexto social não legitima a sua pobreza,mas deslegitima o seu abandono social.Ela é uma maior abandonada.Socialmente abandonada e tem a ingenuidade de pensar que a culpa não é de ninguém.Será o brasileiro cordial em forma de mulher?
O que mais,no entanto,me chama atenção neste personagem extraordinário é que como a distância entre a sua vocação e a luta para a sua realização é simultâneamente pequena e grande.
A vocação dela,como disse,é para a filosofia,o jornalismo,a pesquisa,mas a auto-consciência é como um abismo intransponível,entre o imediato da pergunta e o mediato da necessidade de crescer.de sair da pobreza.
Para um pedagogo qual seria o conselho para Macabéa não ficar abandonada?E o psicólogo o que diria?
A relação com o Brasil e o povo brasileiro é que em grande parte as vocações estão aí ,em todos os lugares,mas as dificuldades ,objetivas e subjetivas, intransponíveis,como o abismo.


sexta-feira, 26 de abril de 2019

Se te amo que te importa?

A frase famosa de Goethe expressa os meus sentimentos sobre o significado do amor:a experiência humana do amor é subjetiva,ou seja,subsiste por si mesma na subjetividade.
Certa vez ,no inicio do namoro do casal existencialista,Simone de Beauvoir reclamou da ausência de Sartre,alegando que ela “ precisava de um corpo” para o amor,porque não o separava dos desejos,afecções e afetos que ele porta.
A distância é um problema entre os casais:ora por causa das necessidades econômicas,os corpos dos casais são separados;ora por repressão e opressão ,como no caso de Santa Teresa D´Ávila;ora por desentendimentos fúteis;ora pelas condições econômicas(materialismo histórico).
Todos estes problemas e alguns outros atacam o desejo(desejo?)da Igreja da indissolubilidade eterna do casamento ou da relação homem/mulher.
Então eu pergunto o que fazer diante de uma situação como esta?A frase de Goethe aponta o caminho(não Simone de Beauvoir).
O Amor transcende ao corpo,mas não à sua experiência inelutável.A menos que sejamos como Kaspar Hauser ou como o menino lobo do doutor Pinel,a experiência do corpo,de um jeito ou de outro,acontece quando nascemos.
E dificilmente a experiência das afecções,dos afetos,é evitada,de modo que não há ser humano normal,médio,que não tenha esta conexão básica,que leva para os momentos de sofrimento e separação que são muitos neste vale de lágrimas.
Leva a memória inelutável de bons momentos,de uma experiência que não pode ser separada da pessoa sequer pela tortura,mas só pela morte,”na qual”,tais problemas não são.
Assim Santa Teresa sublimou o desejo neste amor,uma vez que obrigada a ir para o convento.Assim Goethe sublimou uma frustração com o seu conceito.Assim Michelangelo sublimou seus desejos sexuais.O mesmo valendo para Da Vinci.
A sublimação da necessidade sexual,do desejo,se dá de diversos modos,mas unicamente com base nesta memória essencial do contato amoroso com o mundo.
Mesmo quem só vê imagens na internet consegue sublimar e se preencher( e continuar na vida)se o objeto amado é inalcançável.
Outra é a situação se ele é alcançável.Maquiavel definiu o inferno como querer participar da politica quando ela está tão perto.Mas sublimou-o ao escrever o “Princípe”.
Aliás quando George Orwell escreveu “ 1984” colocou como atividade salvadora do personagem principal a escrita,o diário simples,atribuído pejorativamente às moças ingênuas,que ainda não perderam a virgindade.Mas um diário é uma atividade,ainda que não reconhecida,de toda a pessoa orpimida,que quer sublimar,com e pelo corpo,a sua opressão.
Ter a mulher amada perto e não tê-la de fato é o inferno para o amante(no sentido abstrato geral deste termo).

"O que é verdadeiramente amoral é ter desistido de si mesma. "


domingo, 7 de abril de 2019

A grande contribuição de Einstein

Na verdade o que Einstein fez na História foi adiantar o relógio do conhecimento.A sua contribuição é real,apesar do que diz a atual direita brasileira,boçal.Mas a distância dela para a de outros,cientificamente falando, não é tão grande quanto a midia em geral propaga.
Realmente ninguém se interessou pelos problemas da física até ao momento em que ,com a bomba atômica,eles se tornaram midiáticos e a partir de um erro que o senso comum,como sempre,comete:atribuir a Einstein a responsabilidade pela destruição de Hiroshima e Nagasaki.
A descoberta dos segredos do átomo,da transformação da matéria em energia( e o inverso),gerou efetivamente a bomba,mas como é possível que alguém,não só Einstein,soubesse disso em 1905?
Durante muito tempo muitas biografias reproduziram este erro e em nome do escândalo que vende,deturpou na mente da juventude a realização do cientista.
E isto vale para Freud,Marx ,Nietzsche.Eu já cheguei à conclusão de que uma das tarefas dos pesquisadores(eu incluído)é limpar este caminho que vai da contribuição dos criadores com o povo,porque o que isto provoca de problemas ,agitações, cataclismos,é uma grandeza.
É uma tarefa dos professores,que ,no entanto,muitas vezes dão seguimento a erros deste tipo.Isso ocorre,num contexto normal,porque não são pesquisadores e não têm,normalmente,a liberdade de contestar certas informações,por receio de represálias.
Isto põe um outro problema,relacionado com Einstein e os outros:o discurso de poder manipula o conhecimento para obter vantagens,mas no caso de Einstein isto teve uma consequencia positiva,pois,por considerarem as visões dele como “ degenerescência judaica”,os nazistas não deram importância às revelações do átomo propiciadas por ele.
Alguem poderia usar este exemplo para mostrar que o conhecimento deve ficar oculto,na mão de pessoas responsáveis,mas a verdade é que se todas as consequências fossem conhecidas,de pronto,transmitidas por meios responsáveis,os perigos da revelação de verdades poderiam ser impedidos por uma opinião pública consciente.
Tenho certeza de que os caminhos tortuosos entre o poder e a ciencia é que impuseram uma barreira à construção da bomba pelos alemães.Se eles soubessem e fossem informados a teriam feito,mesmo que acreditassem numa “ciência judaica”.Não dariam a menor pelota para isto.E teria bom paar eles se ninguém soubesse de nada.
Não existe isto de ciência de classe,judaica,enfim,o que a ciência é é transcendente.Ela vale por cima de tudo,enquanto suas assertivas se adequarem ao mundo real.Ou o contrário.
Mas a pequena contribuição de Einstein tem uma consequencia para a humanidade,porque se não fosse ele,que ,fora da universidade,e sozinho,se interessou desde criança pelas grandes questões de sua época,outros levariam mais tempo para desencadear toda uma pesquisa física que mudou completamente nossa visão do mundo,nos separando de séculos passados.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Wittgenstein:Lógica ou Filosofia?

Ao tomar contato,pela primeira vez,na Universidade,com os Tratados de Wittgenstein os rejeitei como completamente fora do lugar.Mas,na verdade eu o fizera mais por causa da sua aplicação filosófica,que,por sua vez expressava a idéia(até hoje para mim errada)de que a sua proposta era “ filosofia” e,pior ainda,a filosofia definitiva.
A proposta de Wittgenstein é de uma lógica e há uma diferença entre lógica e filosofia.A lógica já é um começo de profissionalização da filosofia e lhe pertence em geral,mas há uma distinção não notada por ele e por muitos de seus seguidores,que quiseram refundar todo o pensamento filosófico a partir das suas proposições lógicas.E é assim que consideramos Wittgenstein e sua obra:como lógica,não pensamento filosófico.
E neste sentido ,certa vez,perguntei a uma professora minha professora especialista,se a lógica formal era a de Aristóteles e ela disse:”Não,esta lógica (de Wittgenstein)é que é”.
Então a minha primeira abordagem de Wittgenstein é discutir a natureza deste conhecimento.
Ora, a lógica formal atribuída a Aristóteles se define pelo princípio da identidade:A=A,tanto no discurso do sujeito(logos),quanto na Physis(logos[adequação com o logos interno da Physis]).Mas neste último caso a physis é apreendida por sua forma e substância(aquilo que está sob o Ser).
A lógica formal,na sua definição clássica,aristotélica,não prescinde desta conexão entre forma e substanz.O movimento físico não é admitido e portanto a questão do movimento do Ser se resolve na das suas transformações:quando a substância muda, a forma muda.
No futuro Hegel estabelecerá uma conexão dialética contraditória entre estas duas categorias,bem como nas outras,provindas de Aristóteles.Mas eu tratarei disto em outro trabalho.
Porque então a minha antiga professora(que ainda deve estar dando aula,pois era muito jovem)chama o “ Tractatus” de Wittegenstein de lógica formal?
O Tratctatus de Wittgenstein aborda os fatos do real.O novo objeto de investigação e organização são os fatos.Os fatos são mais do que a forma e a substância.Eles se referem a toda uma pletora de fenômenos desconhecidos de Aristóteles:os simbolos,os fatos sociais e culturais que passaram a ser obejto de estudo no século XIX.
O que faz Wittgenstein é incluir estes fatos,nos quais,eu pergunti:se pode manter os conceitos e categorias de Aristóteles?
Se respodermos positivamente teremos que dispensar de vez a Metafísica(ontologia)de Aristóteles.E se não fizermos qual o papel de cada uma destas lógicas?
A minha resposta a estas indagações,que começaram com o diálogo com a professora,há muitas décadas,é que a lógica de Wittgenstein abarca ,em termos, a de Aristóteles.Ambas são formais ,mas com objetos diferentes.
Os fatos são fenômenos se substância?Acaso a Physis não pode ser apreendida como fenômenos,como fatos.Tudo gira em torno da substanz.
Se a lógica dos fatos atinge ou toca minimamente que seja a da Physis é um problema a resolver,mas de antemão digo que a Physis subsiste não só como lógica,mas também como ontologia.
Talvez ,e eu estou com esta assertiva, o Tractatus acabe com a metafísica,com os sistemas fechados,mas é outra questão complexa que quero colocar aqui em próximos artigos.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Tenho pressa em ser feliz

Com a leitura da crônica de Clarice Lispector devo esclarecer que faço muitas coisas porque tenho pressa de ser feliz.A única coisa que me interessou na vida foi a Utopia,a questão social,o Amor.E o que motiva o libertário é o sentimento de amor aos outros,que equivale ao ódio às injustiças.
Um amor discricionário,escrupuloso,porque os dias que correm não são como os de antigamente:hoje temos tempos competitivos,individualistas,não solidários,mas eu,como libertário continuo a luta pelo ideal amoroso de ajudar as pessoas,sem olhar,sem esperar retribuição.
É o momento,derivado de Kant,em que o dever e o amor se adequam no ideal.
Eu sou assim mesmo,um cabana do Pai Tomás,que muita gente entende ser uma demonstração de covardia:sou um tipo de São Francisco misturado com Tostoi.Choro ao ver um passarinho;fico com lágrimas diante de um mendigo,de uma senhora desamparada ou enganada.Infelizmente os movimentos sociais perderam esta referência que muitos diriam cristã,mas que faz parte da bondade humana geral,que ganha uma expressão hiperbólica no sofrimento de Cristo.
No entanto,sigo o cristianismo no sentido de associar a minha atividade à luta para superar estas injustiças,para ajudar as pessoas sofridas,aliás como tenho feito ao longo da vida.
Por isto estudo tanta coisa,escrevo tanto,trabalho,luto tanto.
A vida,no entanto,é limitada,no tempo e no espaço e tenho pressa em ser feliz.Luto também,porque estou incluído na humanidade para ser feliz,para não sofrer injustiças,agressões.
Aprendi com Luiza Erundina e com outros revolucionários que somos como pequenos Moisés:nenhum de nós vai ver a terra prometida,mas de todos os modos possíveis deve se procurar ficar no cangote dos homens e instá-los à busca permanente.
Mas esperando a tristeza do fim,individualmente falando,a busca deste lutador em geral,é pelo amor na sua vida,porque só assim ele exercita o amor pelos outros.
Tenho,pois,pressa,pois estando mais perto do final do que do começo, quero de novo o amor(que já encontrei).O amor definitivo.

sábado, 23 de março de 2019

Clarice Lispector

Acrescentando mais um autor para meu próximo livro sobre literatura,falo um pouco hoje sobre esta minha desconhecida que é Clarice Lispector.
Eu só tive um contato rápido com ela no segundo grau,lendo “ O Lustre”,mas o que me chamou a atenção para ela foi ver o filme de Suzana Amaral baseado em “ A Hora da Estrela”.
O personagem Macabéa é um dos maiores da literatura universal e expressa como ninguém o abismo que existe entre uma pessoa e outra.Entre o si e o si-mesmo.
Macabéa e uma pessoa muito pobre,mas muito pobre mesmo,que se muda para uma pensão,após a morte de um familiar.
Tem poucas coisas,poucos bens e um emprego chinfrim,ou melhor,um sub-emprego,o qual executa sem nenhuma competência.
No entanto encontra um namorado.E aí o aspecto mais interessante de sua personalidade aparece,que é o desejo permanente de perguntar a ele sobre as coisas que ouve de noite na antiga rádio relógio.
O que é cultura?Você sabia que a unha do pé cresce em milimetros?Ela despeja a sua curiosidade intelectual sobre o nordestino desamparado como ela,que,lógico,não sabe responder.
Há uma outra relação de Macabéa com a colega de trabalho,um loura de farmácia(segundo ,acertadamente,a avaliação de Macabéa),beleza de periferia,a ressaltar a feiúra da protagonista,atributo reconhecido por ela mesmo.
Mas o que avulta em importância é a sua vocação intelectual demonstrada pelo “ vício” de perguntar,que viceja nos estratos mais humildes do Brasil e que poderia ser aproveitado nacionalmente pelos órgãos educacionais responsáveis pelo progresso social do Brasil.
E em segundo lugar,eu,como professor,ao tomar conhecimento da personagem e sendo um otimista ,amadureci,reconhecendo o quão dificil é ,no âmbito de uma subjetividade,fazer este passo de auto-consciência,da vocação para a sua realização.
Macabéa e Clarice me ensinaram algo que eu vinha aprendendo com os estudos que faço da revolução russa,que expulsou Clarice nos anos vinte da Ucrânia,região esmagada pelso comunistas:não adianta forçar o progresso,porque não é legítimo e porquê uma mudança,por pequena que pareça,pode causar transtornos existenciais irreversíveis.Foi assim na revolução.
Macabéa é complexa,cheia de potencialidades,mas presa a uma existência simples,da qual não se sabe se pode e se deve sair.
Cada profissão tem o seu lado ruim e a do professor é muitas vezes querer desenvolver estas potencialidades à revelia do aprendente.Diante de um gênio que só quer se casar, muito professor realiza ultrapassamentos perigosos,no afã de adquirir através do outro ,um nome,que ele mesmo não é capaz de construir.É análogo a certos pais que forçam os filhos a serem gênios precocemente:para cada dois ou três bem sucedidos,um monte enlouquece.
O que me fascina em certos escritores,como Machado de Assis e Clarice é que são capazes de escrever tratados a partir do nada.
Machado construiu personagens comuns,sem nenhum brilho heróico e situações elucidativas sem nenhuma importância,como em “ Memórias Póstumas” e “ Dom Casmurro”(e em outros também).Com isto,com esta capacidade ,ele transformou a inocuidade da classe dominante no Brasil do século XIX e algo de se analisar.Através de um filho família das classes altas do Brasil,Machado o retrata como é e como não deveria ser.
Macabéa no século XX,apresenta como o povo brasileiro é e não deveria ser e expõe a faixa de consciência em que uma mudança poderia ocorrer.
Todo educador,professor ou não,deveria estudar este personagem.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O direito,Kant e Kelsen

Há muitos anos atrás havia este debate nas faculdades de direito entre as concepções de Kant e Kelsen a respeito da norma jurídica.Ainda mais porque é claro que não se pode falar em Kelsen sem falar antes em Kant.
Kant ,como tenho explicado aqui,afirmou que a filosofia integra a experiência dos povos,sendo um de seus elementos,não o elemento. Com isso os modelos metafísicos se esboroam definitivamente levando consigo esquemas tradicionais de poder.A filosofia e o saber em geral podem ou não constituir um modelo ou não constituir nenhum.
Ao dizer isto Kant abre o caminho para a “teoria pura do direito” de Kelsen,na medida em que o direito também se liberta dos arquétipos metafísicos e se explica por si mesmo(daí o “ pura”),na relação inelutável com a referida “ experiência dos povos”.
Mas,sem o dizer,Kant abre espaço para uma dialética entre a filosofia e o direito,entre os valores e a experiência dos povos.
A palavra direito ,bem como a norma ,têm uma polissemia,uma amplitude de significados,mas nasce necessariamente na axiologia,na teoria dos valores,que ,na vida,antecede ao direito e ao estado.
Muita gente,principalmente no lado do marxismo, não entendeu ,ainda, que a norma,o senso de limite ,inere à existência humana,sendo mesmo uma medida e condição da humanidade,como espécie que conhece.Mas do limite(conhecimento,costumes,prática)se vai para uma avaliação e estimação do mundo(e vice-versa[dialeticamente falando]) e destas para a construção de sentido e significado.
O caminho é este:uma coisa é perceber o mundo,dizer o que é uma coisa é,outra é atribuir-lhe valor e ser tocado por ele,pelo seu significado.
Sei o que é uma parede,mas atribuo-lhe significados quando dependuro um retrato de meus pais,os quais me servem de inspiração na vida,no que é uma relação dialética,como produto da consciência.
Assim é,também ,com o direito,(produto da consciência),que funciona como um limite,uma regra,cheia de significados possíveis e que depende deles.Afirmar pura e simplesmente o direito,qualquer um pode.Stalin,Churchill e Hitler usaram o direito ,como noção geral de limite,para impor os seus modelos intocáveis.Mas o direito sem o fundamento do valor(Kant[filosofia{axiologia}]),sem a eventual dialética do retorno em bem-estar não tem sentido,ou tem um não-sentido(destruição)anti-humano.
Embora a metafísica tenha acabado,um seu elemento,o valor,como experiência humana cotidiana,constante,permanece parte dos limites e regras essenciais do sentido construtivo que a espécie humana precisa ter(deve ter[se quiser se afirmar{existir}]).
É aqui que a crítica a Kelsen se faz presente por sua ligação,quer dizer, da sua toria pura,com o estado forte,na Áustria,tão útil ao nazismo ,quando invadiu o seu país.
Para Kelsen o valor fundamental do direito é a segurança.Na verdade é um anti-valor(anti-humano),porque transfere para algo fora do valor,ou distinto de sua natureza própria(estimação),a segurança,como condição única(objetiva[heterônoma])da existência humana,que deriva(concepção do estado forte e dos totalitarismos) só da vontade,que se pretende abstrata,mas que é condicionada.
O ser humano é condenado a estimar.Ainda que negue o seu caráter axiológico,inconscientemente avalia,sendo a negação disto a mediação pervertida e distorcida dos “ismos” destrutivos do século XX,o fascismo,o stalinismo e os imperialismos(com suas diversas justificativas),que embasam os seus crimes e garantem a sua reprodução,o seu caminho de impostura.
Não é só a vontade que fundamenta a existência do homem,mas sua capacidade de escolha(como diante de uma parede e de um quadro.Por isso Kant diz na “ Metafísica dos Costumes”,que a vontade que vale é a incondicionada,porque assim ela se conecta imediatamente com o valor,com a capacidade estimativa,perfazendo a ligação entre o elemento filosófico com os costumes(experiência),que dilui a metafísica,mas não descarta o papel social e cotidiano(mais adequado,mais democrático,mais situado)da filosofia,através da axiologia.
A vontade condicionada se submete às conveniências do tempo,” objetivas”,como se fosse possível medir o homem por algo fora dele,fora-de-si.
Desta forma é que a idéia de segurança(tão em voga no Brasil hoje)falseia,com uma abstração vazia(porque não consulta as subjetividades)o desejo humano de liberdade.Basta excluir o criminoso que eu posso deixar minha porta aberta...Como se este silogimo fosse suficiente para abarcar e solucionar o problema humano complexo do direito e da liberdade.Para Kant não existe liberdade sem direito,direito no seu sentido polissemico,de norma,valor(certo e errado),limite.Para Kelsen,basta o Estado garantir a coesão social,de cima para baixo...
Mas eu escrevi este artigo para demonstrar também como as discussões filosóficas mais complexas passam de forma errada para o senso-comum e sofrem distorções perigosas(que levam aos nazismos...);como esta mínima ligação entre filosofia e costumes é necessário de se conhecer pelo senso-comum(simples razão).
Acaso o nazismo não fez o que fez em nome do direito da Alemanha?Se houvesse esta compreensão do povo alemão,de que antes do direito existe o valor,a alegação do direito não seria feita,porque sem fundamento.
Há pessoas em rádios do rio de janeiro que reproduzem este erro(esta besteira) e aí cometem aquele ato condenado pelo direito positivo,de “summum ius,summum injuria”,” excesso de direito,excesso de injustiça(abuso do direito)”.O direito também deve se limitar.