sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Mais fundamentos de minha atividade de pesquisador

Eu também sou muito acusado de dispersão,de querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo,perdendo,com isto,profissionalidade e me tornando “ pau para toda obra”,indistinto e só força.
Em primeiro lugar só uma coisa me interessou na vida:a Utopia,como emancipar a humanidade da miséria e do sofrimento(Razão emancipatória de Habermas).Nisto Marx ainda está comigo,mas não só ele.Outros antes e depois dele me serviram e me servem de referência para este objetivo de vida.
Então toda a minha atividade se funda em conhecimentos interdisciplinares.Eu já disse em outro artigo que a interdisciplinaridade é própria das ciências sociais e também das naturais.Desenvoverei este conceito que já abordei em um texto mais alentado,proximamente.
Mas eu disse na ocasião que era impossível um professor de filosofia ser só estudioso de filosofia,sem saber um pouco de história,ao ponto,neste último caso,de ser capaz também de expor a matéria.Mais ainda o absurdo da impossibilidade de um professor de ciência politica não saber história e assim por diante.
Mas é o que mais tem por aí:professor especializado.
Max Weber explicou que o renascimento,com seus intelectuais e cientistas interdisciplinares ,os quais desafiavam a autoridade dominante,por produzirem mais e mais conhecimento à vista do povo,em determinado momento,foi brutalmente reprimido e contido,pelos movimentos da Reforma e da Contra-Reforma,sendo o episódio de Galileu a centelha deste processo de manipulação e controle do conhecimento pelas monarquias absolutas,que fundaram sociedades científicas com este fim.
Como numa gangorra,desde então a humanidade tem alternado periodos de grande furor criativo,por liberdade conquistada(politicamente)de investigação e de controle,por motivos politicos contrários à pesquisa.
Aqui no Brasil, a introdução de mestrados e doutorados tipicamente inspirados nos Estados Unidos,criou a figura do scholar especializado.Esta tendência tem atingido niveis paroxísticos de formar especialistas em cocô de elefante,no plano da ciência natural zoológica,ou nas ciências sociais,especialistas em uma coisa só,às vezes uma pessoa ou um tema.
O objetivo deste tipo de mestrado e doutorado implantado pela ditadura militar no Brasil,por inspiração ,repito,do conservadorismo americano,como já expliquei,foi controlar o intelectual iluminista,crítico,interdisciplinar,comum antes da década de sessenta e que fez desta década a mais importante,criativamente,do século XX.
Até pessoas de esquerda cairam nesta esparrela e caem até hoje ,realizando um assistencialismo politico(ongs financiadas na Holanda por exemplo)muito dócil com certos conservadorismos em todos os lugares e muito no Brasil.
Mas eu entendo que é necessário este intelectual interdisciplinar ,iluminista e renascentista,um humanista italiano,como Agripino Grieco,hoje esquecido, e resisto aqui,esperando a gangorra voltar,até que ela pare algum dia e se mantenha estacionária,mantendo os dois tipos de criadores numa convivência democrática essencial.No próximo artigo eu falarei de como organizo os meus fudamentos para minha prática de pesquisador.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Os fundamentos da minha atividade de pesquisador

Conforme prometido há muito tempo atrás,depois que concluí o meu livro petição de princípio,desejo desenvolvê-lo com um novo trabalho,mostrando os fundamentos,os autores e pensadores que estão por trás dos meus artigos e dos meus livros.
Muita gente me critica por não citar certos autores,mas no “ petição” eu já explicara os meus critérios de citação:a obrigatoriedade de citar funciona muitas vezes como uma correia de transmissão para promover pessoas que não têm valor nenhum.Isto acontece muito nos mestrados e doutorados.É uma espécie de personalismo que se coloca acima do conhecimento propriamente dito.
Por estas razões cito com muita parcimônia autores ,para preservar o princípio de que o conhecimento legitimo e relevante deve prevalecer sobre as personalidades.O nome deriva do que você faz .Assim preservo a minha formação julio verniana e não promovo nulidades e mantenho a ética de fazer conhecimento sem pensar nos “ guizos da alegria” que certos intelectuais procuram,quando fazem qualquer coisa:já querem os holofotes.Eu não quero holofotes,quero um reconhecimento do esforço que faço para ajudar a progredir a sociedade e a humanidade(modestamente[?]{Julio Verne}).
Pois bem:eu prometera,no entanto,estudar e encontrar autores,idéias,para,de uma certa forma,evitar que eu cometesse erros,do tipo de afirmar coisas minhas,mas que já teriam sido ditas por outros.Eu não faço citações de tipo acadêmico,porque,como também já expliquei,trabalho por fora dela e defendo a liberdade de busca de novas e alternativas formas metodológicas,como parte da liberdade essencial de pesquisa,que a história já provou ser uma das mediações necessárias de toda inovação:pluralidade.
Mas reinvindico uma inovação,esta é minha(ouviram ,alguns leitores especializados dos meus artigos?[radio tupi?]):procurando bases e autores pela internet,achei as bibliotecas americanas,famosas,inteiramente(ou quase inteiramente)digitalizadas e encontrei uma pletora de autores desconhecidos ,que antecipam ideias de autores conhecidos .
Quando era professor de Filosofia do Direito já percebera este fenômeno ao explicar Thomasius,a bem da verdade,o criador desta disciplina,que antecipou algumas concepções de Kant,neste mesmo século XVIII em que os dois viveram.Depois provarei esta minha afirmação(Mas isto já está no livro de filosofia do direito do professor Paulo Nader).
Hoje eu inicio este tipo de trabalho,para provar as minhas assertivas,demonstrar a minha ética rigorosa com um autor que encontrei numa destas bibliotecas:Charles Kirkland Wheeler,totalmente ignorado até hoje.
Charles Kirkland Wheeler
Este professor e autor que aparece acima,escreveu um livro

escrito em 1870,que expressa a visão que esta época adquirira da filosofia de Kant.Os autores ,por mais conscientes que sejam,são datados e influenciados pelo tempo,pelo tempo pessoal de vida e pelo seu tempo “ externo” ,as suas circunstâncias,para lembrar o conceito de Ortega y Gasset.
E aquilo que é escrito ou produzido não é sempre o que o autor planejou(John Lennon costumava dizer isto sobre as suas obras).E mais,importantíssimo para o nosso artigo aqui:as consequencias do que o autor diz não são as esperadas por ele.Notadamente no tempo do cientificismo,que foi o século XIX( o século do doutor Frankenstein),diziam-se coisas que se pretendiam definitivas,porque a ciência,na sua luta contra a superstição,se achava intocável,impermeável e passava por cima das cosnequencias(Frankenstein).
O que Kant procurou fazer com “A Crítica da Razão Pura” foi recuperar a metafísica,que se tornara um tanto quanto antiquada na figuar do (sub-)filósofo Wolf(outro desconhecido).Só isso.
Ele queria provar que certos conceitos não eram tocados pela experiência.Ele reconhecia a experiência ,a sensibilidade,mas para diferenciar certos juízos nela fundados daqueles que ele considerava transcendentais(doutrina transcendental dos elementos),a matemática,a geometria.Só isso.
Mas quando reconhece a sensibilidade,que é comum a todos,ele admitia que não só os reis e os doutos tinham acesso a esta metafísica,mas o homem comum.A partir desta sua filosofia,chamada por ele de “ Prático/Dogmática”(“Prolegômenos a uma Metafísica Futura”),todos podiam formular o seu pensamento.É este o sentido da “ crítica kantiana”como projeto filosófico.O tempo de Kant,o século XVIII,é o de Benjamin Franklin,que afirmou na prática que o conhecimento científico derivava da atividade livre de qualquer homem,sem necessidade de recorrer a modelos e autoridades prévias,para sua legitimação e relevância.
Mas é evidente e fica claro isto desta exposição,que não existe esta barreira entre a consciência e a sensibilidade,aliás o termo consciência nasce desta integração entra a razão , metafísica, e a sensibilidade,que constrói a experiência.Mas a experiência,a sensibilidade, diluem aos poucos o “sistema metafísico”.Talvez (certamente),pelas limitações de Kant,ele não pode entender este fato,mas ao longo da primeira metade do século XIX, o seu pensamento foi seguido sem crítica,mas,de pouquinho em pouquinho as fraturas se tornaram claras.
O livro de Wheeler resume ,em 1870,uma data não fortuita, esta constatação,mas embora a sociologia e a psicologia que redundará ,esta última, em Freud,tenham contribuído para isto,ainda não se pode chegar às conclusões das escolas de Marburg e Baden,no final deste século,que recuperaram ,contra o mestre,a filosofia de Kant,deixando de lado a “ ding -an-sich”( a coisa em si incognoscível,que tantos debates errados causou no marxismo,por sua incompreensão),em nome de uma experiência subjetiva óbvia,que participa da compreensão do processo social.
A coisa-em-si significa que não é pela razão que se conhece o mundo.Não se pode intuir o real imediato,senão pela sensibilidade,que concorre para a apreensão do real.A intuição percebe,segundo Kant,aprioristicamente, o tempo e o espaço,mas não este real imediato.Só se conhece uma parede se se a percebe pelos sentidos.
Ainda me lembro que promovi um curso em 1984,no sindicato dos professores ,com Carlos Nelson Coutinho,sobre Gramsci,e o escândalo que ele provocou,no âmbito do marxismo em que eu atuava,ao dizer(concordando indiretamente com Kant),que a filosofia(a razão,digo eu,a metafísica)não prova que a realidade existe.
Um cego de nascença,só pode dizer o que é uma parede se senti-la e a sua impressão será diferente daquele que tem visão.Ou terá que recorrer à memória do que alguém lhe disse sobre o que é uma parede.
Muita gente me criticou em outros artigos sobre Kant me acusando de interpretar esta parte essencial da sua obra:eu teria dito que a coisa em si incognoscível é que não se pode apreender o cosmos integralmente,mas isto é uma derivação destas premissas.Agora eu especifico onde surgiu.
Mas realmente ,para falar de Kant,como de Marx, é preciso entender as modificações do seu pensamento,porque eles estão inseridos no fundamento básico da modernidade ,que é a exigência permanente de auto-fundamentação,no tempo( e só pode ser nele,que passa a ser uma categoria filosófica reconhecida).Hegel também se inclui nesta problemática.
As escolas de Marburg e Baden,recuperam Kant,apesar dele mesmo.Ultrapassam esta questão da intuição e trabalham já com os ganhos da sociologia e psicologia,numa progressiva filosofia da consciência ,da subjetividade,da experiência,forçando inclusive(no caso de Marx por exemplo) revisão de algumas teorias do século XIX,que em sua pretensão cientificista ficou um pouco datado.
O uso deste autor desconhecido ,Wheeler,por mim,atende aos obejtivos pessoais de fundamentação de meu trabalho,mas de acompanhar este processo de revisão de Kant,dos anos 1870 até a psicanálise.
E também para mostrar aos intelectuais acadêmicos(principalmente no Brasil)que a celebração da carreira deles não quer dizer nada.Que o vedetismo não é aceitável,ainda mais por causa da responsabilidade nacional educativa do magistério,que não existe para si mesmo,mas para a coletividade nacional.

domingo, 6 de outubro de 2019

Freud e o pai

Ao publicar o meu livro sobre Marx e Freud inicialmente coloquei um fato de sua infância que,quando soube,me impressionou bastante:as qualidades de estudioso do pequeno Freud se revelaram muito cedo e o menino começou a exigir condições para seu desenvolvimento intelectual,atrapalhado pelo piano das irmãs.
Estas acusavam o irmão de pretensão,individualismo,de querer ser melhor do que os outros,mas o pai de Freud,Gabriel,percebendo as diferenças entre eles ,apoiou o garoto e modificou a ergonomia da casa para favorecê-lo,sem,no entanto,reprimir ou excluir o piano.
Desde pequeno,acostumado a um clima familiar de igualitarismo comunista,esta história me fez refletir,ao longo das minhas idades,sobre a justeza deste mesmo igualitarismo,tido pelos totalitarismos e pelas religiões como supra sumo da ética e moral.
O grande problema da humanidade(modestamente)é equilibrar o igualitarismo com as diferenças inevitáveis e naturais entre os homens.Locke e Rousseau se revezam ao longo do tempo.
Quando as condições sociais pioram, os laços de solidariedade e o igualitarismo adquirem prioridade;quando existe afluência a tendência oposta se manifesta.Mas não só no tempo ocorre isto:em toda a vida da humanidade convivem uma humanidade lauta e outra inserida na miséria,fundamentando-se cada um dos lados em Locke ou Rousseau respectivamente.Cada um tenta impor a sua necessidade como uma verdade ao outro,mas é a condição objetiva que determina o fundamento.
As relações sociais exigem uma socialização desde que o homem nasce e se insere progressivamente na sociedade.O processo de integração exige um igualitarismo,aprender a não se colocar acima dos outros,mas ,na medida em que o homem se torna adulto,podendo conduzir a sua vontade como quiser ,este princípio é modificado e a pessoa se destaca e se distingue das outras,sem no entanto,agredi-las(se não tiver traumas).
A citada história de Freud pequeno,no entanto,impõe uma evidente nova perspectiva ao problema:desde a infância,na imaturidade do homem,esta questão já está presente e o seu desconhecimento gera problemas e dificuldades,porque um dilema surge,que é o de escolher induzir um solidarismo desde os primeiros tempos ou,contràriamente, uma capacidade de luta ,de afirmação.(É aquela cena do “ Super-homem no 1,em que Jor El interpretado por Marlon Brando,prefere mandar Clark para um planeta menor[a terra]]em que ele seria mais forte,por causa da kriptonita{a mãe preferia que ele fosse para um planeta igual,para ter mais amigos e não ficar solitário})
O problema social acima referido,que é dificil de harmonizar e mais ainda na infância,por causa das condições materiais de existência, acabam por influir também:uma criança que tivesse as mesmas dotações de Freud(e acontece sim)numa situação de carência,não poderia alegar o que o fundador da psicanálise alegou,tendo que adquirir uma profunda solidarização,ao arrepio das suas potencialidades individualíssimas,privilegiando a ajuda dos amigos e do grupo.Ela não poderia ter tempo para se dedicar a si mesma.
Se uma criança nasce numa situação de plenitude financeira, já não existe entrave.
O problema (comunista)de criar plenitude material para todos está presente como se vê,mas enquanto um regime assim não se implanta como igualar os dois contextos?
Por enquanto não é possível embaralhar tudo,então ,no meu modo de ver,só a sociedade,através do estado,representando a sociedade,pode fazer uma correção aí,priorizando aquele que tem mais adversidades contra si.
No entanto,seguindo o exemplo de Freud e de seu pai,penso que corresponde a isto um comportamento público,um comportamento baseado no conhecimento da natureza humana,na sua inevitável desigualdade(favorecendo Locke).A explicação disto para a criança,porém,demanda um esforço,para evitar os traumas e frustrações que ficam naqueles filhos que não compreenderem a solução.É muito fácil falar em desigualdade quando se está por cima,mas quando isto significa perder a sua posição,tudo muda,principalmente se as condições econômicas são uma barreira,apesar das qualidades da pessoa.
No episódio do reconhecimento do valor de Freud,uma série de questões sociais surgem,mas não é só isto o que me chamou a atenção nos primeiros anos de contato com a biografia do criador da psicanálise.
Intuitivamente algumas dúvidas penetraram em minha cabecinha de púbere quanto ao comunismo que eu estava ,então,aprendendo(às forças sem muita vontade[entre um jogo de botão e outro]).
Primeira dúvida,que eu hoje,supero(momento histórico):as pessoas não são iguais.Pode-se e deve-se diminuir as distâncias pela educação e superação das barreiras econômicas e sociais( a questão social continua),mas Locke é quem tinha razão;
Segunda dúvida ,superada:igualar à forceps as pessoas,como Lênin e a Revolução Russa quiseram ,só gera distorções e monstruosidades( “ os sonho da razão produz monstros” Goya).O solidarismo como forma única,monista de moralidade e de utopia,expressa no princípio de colaboração com os outros é uma verdade parcial,porque ela está situada na vida social,no processo histórico.Nem toda socialização é boa.Platão já tinha identificado isto na “República “,dizendo que igualar a todos,sem levar em conta as diferenças,favorecia os espertos,que,às escondidas,manipulam estas coletividades forçadas,que reprimem o talento individual em nome do todo,do bem de todos,quando,talvez,tudo melhorasse se o equilibrio entre a individualidade e a coletividade fosse construída.Nem toda relação,igualação é boa.Esta é uma das razões porque forçar o comunismo,o “ comunismo absoluto” de Nelson Levy,é tão violento(ou mais em alguns casos)do que as ditaduras da burguesia.

sábado, 5 de outubro de 2019

Platão e Cristo

É conhecida,através de Nietzsche,a relação contraditória do cristianismo com Platão.
Platão criou uma filosofia(ou discurso de poder?[ideológico?]{falsa consciência?})próprio das aristocracias.O cristianismo,ao contrário,é uma filosofia(?)(discurso de poder?ideologia=consciência falsa[forma ilusória de consciência social:Religião=consciência falsa ou verdadeira?]para os escravos,para os pobres e humildes,exaltando as suas carências e as transformando em virtudes.
Quem vence esta batalha?A meu ver esta batalha pode ser vista de ângulos infinitos,mas no aspecto fundamental citado,filosófico,Cristo vence,na medida em que o pensamento humano-geral se funda em Cristo,no seu epíteto real “Cristo-na-Cruz”.O sofrimento é o que une a humanidade toda.É o fenômeno,digamos assim,que une o máximo de mediações unficadoras da humanidade. A comunidade universal começa e se desenvolve a partir daí.
Esta verdade me foi revelada mais uma vez por Hegel e sua concepção da religião,através de Habermas,em seu “ Discurso Filosófico da Modernidade”.
Hegel aponta duas formas de religião:a religião teológica ou dos doutos e a popular.
A religião popular é definida como a das crenças,as práticas e costumeiras concepções do homem comum,do crente,cujo fundamento único de sua ação,a partir destas mediações,é o cristo-na-cruz.
A religião dos doutos busca os fundamentos complexos do cristianismo a partir do epiteto.
O que as une é o epiteto,mas o que os separa é a sua extensão.
Se a pura relação com ele funda a religião popular,a dos doutos o é com a principal consequencia do evento,a subida e sofrimento na cruz,ou, a constatação de que a humanidade se unifica progressivamente no seu reconhecimento.Mesmo o não-cristão não pode ser indiferente ao sofrimento.A extensão referida é esta progressividade do seu reconhecimento e a sua também progressivamente busca de superação(do sofrimento).
Por todo o período helenístico e medieval esta questão avulta.Ao surgir a ciência moderna o conhecimento passou a se constituir na relação com o mundo ,com a natureza,mas mesmo assim a problemática do conflito entre a ciência e Cristo permaneceu e permanece.Uma tentativa ,a meu ver,bem sucedida de superar este(falso)conflito,é Kant.
Toda a produção de conhecimento só existe porque há o subjetivo e o subjetivo não se separa do corpo.Este é o ensinamento(um deles)de Cristo:o conhecimento não é só racional,mas precisa dos atributos do corpo(antecipação de Kant).Cristo limita e acaba com a filosofia racional grega e propõe um caminho,no mínimo,alternativo.
E o subjetivo é humano,não religioso,então qualquer ser humano não é diferente dele(do sofrimento[de Cristo ou de qualquer sofrimento]).Ser o Cristo é não ser indiferente,ou seja,diferente,não sofrimento(hedonê[que é falsa{pois nega o limite do sofrimento}]).
Todas as discussões humanas,portanto,direta ou indiretamente,passam e passaram por esta constatação.Mesmo os gregos ,racionais,são tocados por algo que se consituiu no futuro para eles.O sofrimento não é presente e futuro,mas passado também ,tribio,como no tempo tribio de Santo Agostinho.
A utopia não é superar de vez o sofrimento e instituir a hedonê,mas tê-lo sempre como possibilidade a se evitar.Por isto São Paulo defende a necessária e permanente memória do sofrimento de Cristo,no dia a dia,como condição da ressurreição.Mesmo na Utopia,esta memória é sua condição de estabelecimento.E além do mais o termo sofrimento indica muitas coisas:limite,esforço,dor,não só sofrimento.
O tempo tribio,transferindo também para o passado o sofrimento como fundamento humano,funda a História,porque funda uma utopia(a superação do sofrimento),no tempo.
A compaixão não é ,como acusa Nietzsche,uma despotencialização do homem,ou melhor,da perspectiva ,mas um momento incial de mobilização da pessoa de bem cuja definição axiológica começa com o reconhecimento da dor.Não importa que a pessoa de bem não sofra como a pessoa que sofre,mas o rerconhecimento do sofrimento de Cristo cria a chance,no mínimo,de depô-lo da cruz.
O que eu quero marcar neste artigo que compara Platão e Cristo é que o conhecimento em Platão cria uma barreira instransponível entre a razão e os atributos corpóreos da sensibilidade,mas Cristo ,como vemos abaixo,repõe a dignidade desta última,como fonte do conhecimento,porque não somente pelas razões que colocamos acima, o corpo não está dissociado da Razão(e vice-versa[embora com uma hierarquia em favor da razão]),mas igualmente porque o conhecimento é humano e a crença em que o conhecimento se resume à Razão desumaniza,tanto a humanidade como a razão,por parcialidade,por distorcer a realidade.Não é à toa que Aristóteles e Platão justificavam a escravidão e o seu pensamento justificou barreiras séculos depois e até nos nossos dias.

domingo, 4 de agosto de 2019

O método de Kant

Kant segue Platão do Teeteto afirmando que o método do conheciménto é aquele que busca o universal ,a conexão universal necessária,para deppois aplicar-se à experiência.
Segundo o crítico Riehl a questão da universalidade e necessidade não é uma base de argumentação mas um problema em si mesmo.kant não deduz o apriorismo da universalização,mas vice-versa,isto é,do apriorismo,do conhecimento pré-dado, deduz a universalidade.
Uberweg e Ritter afirmam que a universalização rigorosa é própria também da indução,fato que é reforçado por Stuart Mill.

A incidência dos raios do sol e do calor sobre a água causa uma vaporização e se pode fazer,pela indução,uma lei universal.
Kant não contraditaria esta afirmação dizendo que o calor em contato com a água gera a vaporização do líquido,portando a indução seria capaz de juízo universal,mas numa generalização,uma generalização articular ,referencial a uma região do mundo.Assim os juizos universais não seriam derivados de uma experiência(sempre particular),imediata,obtida pelos sentidos,mas da dedução puramente racional,segundo categorias pré-dadas.Mas isto não é possível.Na prática esta ruptura idealista kantiana não é possível,pois a experiência não se rompe. (nota:aqui é que surge o imbroglio com o materialismo e o marxismo:o fato de Kant ter disto o põe como idealista auto-proclamado,mas ,na prática,ele opera uma integração também sujeito/objeto,como Hegel,na medida em que une a razão com a sensibilidade.O erro dele é supor uma ruptura nesta integração,é menosprezar e desprezar os juizos a posteriori e isto se dá porque ele não tem[limitações de época]compreensão do desenvolvimento histórico das ciências.Por seu lado tem razão em destacar a subjetividade como fonte de produção ,suficiente, do conhecimento.E mais ainda,por outro lado,o erro do marxismo é achar que a subjetividade só subsiste e só tem legitimidade se se compreender o desenvolvimento social,sem reconhecer a autonomia do sujeito.Erros de parte a parte).

terça-feira, 30 de julho de 2019

Dois Judeus:Freud e Cristo(ou Cristo e Freud)

É conhecida a afirmação de Freud sobre a religião caracterizando-a como a “ neurose obsessiva da humanidade”.Para enfrentar a inadequação com a realidade,que é insuficiente para a subjetividade e mais do que isto,impõe limites intoleráveis(como a morte)o homem inventou a religião.
Assim sendo o sofrimento de Cristo seria inteligivel dentro desta visão,como um modo de tornar suportável o insuportável.Os deuses em geral seriam assim.E a religião em torno deles cumpriria uma função de manutenção deste escopo.
Ao longo da História do pensamento esta caracterização foi sempre feita de diversos modos,bastando lembrar Feuerbach e Marx,mas ambos os fenômenos são mais complexos do que a pura constatação de sua inobjetividade,de sua inadequação com o rela.Quero dizer, a pura oposição do real ao mito falseia o mundo e mantém o homem iludido e desviado de suas tarefas principais,inclusive e principalmente consigo mesmo.
Algo se dizia e se diz ,semelhante,sobre os romances e as artes.Onde haveria uma figura como a de Dom Quixote?Ou de qualquer personagem da literatura?Não é importante,para mim,pelo menos,saber se Cristo é real ou não.Ele é como Dom Quixote ou o Capitão Rodrigo de Érico Veríssimo:um resumo da humanidade em seu significado mais importante,a dor do mundo,que é a única coisa que unifica o ser humano em todas as épocas,como um transcendente trans-histórico permanente.
Cristo é uma metáfora,mas ele é mais do que isto.Não é um elemento da arte.Ele é isto na medida em que a arte expressa tendências da vida que devem ser expostas diante do ser humano.
Na medida em que estas mediações se imbricam com a religião não se pode concordar com a visão de Freud,a não ser quanto à expectativa sempiterna de compensação,mas como fenômeno humano ela atende,como Cristo ,a necessidades construtivas de sentido,de elaboração de sentido,de comunicação de valores e idéias.
Como Feuerbach e Marx,Freud padece um pouco de cientificismo e não vê totalmente claro que as suas próprias contribuições municiam a subjetividade de uma autonomia ,em cujo âmbito a religião e os personagens dentro dela, adquirem um significado positivo de portadores de valores,significados e idéias.
Toda a discussão sobre a inadequação do mito com o real,a perversão eventual das superstições,é válida,mas este núcleo básico não se altera.
Cristo,como Dom Quixote,expressa milhões de pessoas que sofrem e que não foram ajudados(ainda)pela ciência e pela politica e que vêem na sua figura um modo de expressão.
E no caso de Freud,que preconizava a aproximação do terapeuta com o sofrimento do paciente,para ajudá-lo a “curar-se”,a figura sofredora de Cristo oferece um ensinamento(pedagogia) técnico ao terapeuta:que o sofrimento é real(adequado)e não sempiterno.



É conhecida a afirmação de Freud sobre a religião caracterizando-a como a “ neurose obsessiva da humanidade”.Para enfrentar a inadequação com a realidade,que é insuficiente para a subjetividade e mais do que isto,impõe limites intoleráveis(como a morte)o homem inventou a religião.
Assim sendo o sofrimento de Cristo seria inteligivel dentro desta visão,como um modo de tornar suportável o insuportável.Os deuses em geral seriam assim.E a religião em torno deles cumpriria uma função de manutenção deste escopo.
Ao longo da História do pensamento esta caracterização foi sempre feita de diversos modos,bastando lembrar Feuerbach e Marx,mas ambos os fenômenos são mais complexos do que a pura constatação de sua inobjetividade,de sua inadequação com o rela.Quero dizer, a pura oposição do real ao mito falseia o mundo e mantém o homem iludido e desviado de suas tarefas principais,inclusive e principalmente consigo mesmo.
Algo se dizia e se diz ,semelhante,sobre os romances e as artes.Onde haveria uma figura como a de Dom Quixote?Ou de qualquer personagem da literatura?Não é importante,para mim,pelo menos,saber se Cristo é real ou não.Ele é como Dom Quixote ou o Capitão Rodrigo de Érico Veríssimo:um resumo da humanidade em seu significado mais importante,a dor do mundo,que é a única coisa que unifica o ser humano em todas as épocas,como um transcendente trans-histórico permanente.
Cristo é uma metáfora,mas ele é mais do que isto.Não é um elemento da arte.Ele é isto na medida em que a arte expressa tendências da vida que devem ser expostas diante do ser humano.
Na medida em que estas mediações se imbricam com a religião não se pode concordar com a visão de Freud,a não ser quanto à expectativa sempiterna de compensação,mas como fenômeno humano ela atende,como Cristo ,a necessidades construtivas de sentido,de elaboração de sentido,de comunicação de valores e idéias.
Como Feuerbach e Marx,Freud padece um pouco de cientificismo e não vê totalmente claro que as suas próprias contribuições municiam a subjetividade de uma autonomia ,em cujo âmbito a religião e os personagens dentro dela, adquirem um significado positivo de portadores de valores,significados e idéias.
Toda a discussão sobre a inadequação do mito com o real,a perversão eventual das superstições,é válida,mas este núcleo básico não se altera.
Cristo,como Dom Quixote,expressa milhões de pessoas que sofrem e que não foram ajudados(ainda)pela ciência e pela politica e que vêem na sua figura um modo de expressão.
E no caso de Freud,que preconizava a aproximação do terapeuta com o sofrimento do paciente,para ajudá-lo a “curar-se”,a figura sofredora de Cristo oferece um ensinamento(pedagogia) técnico ao terapeuta:que o sofrimento é real(adequado)e não sempiterno.


domingo, 23 de junho de 2019

A vocação de Macabéa

Muita gente não entendeu porque,no meu artigo anterior sobre o personagem de Clarice Lispector,Macabéa, disse que ela era vocacionada,apesar da baixa escolaridade e do siderúrgico infantilismo ,para a filosofia,jornalismo e outras profissões.
Ora, o desejo de saber expressado na sua conduta de perguntadora contumaz é parte do processo de conhecimento,como já nos provara Sócrates há mais de 2000 anos.
Pode parecer algo comum ter este “ vicio”,mas na verdade o seu aparecimento não é patológico(exceto pelo exagero,o que não é o caso),mas parte de uma disposição psicológica legitima.
Então porque Macabéa não toma a iniciativa de buscar formação e ,profissionalizando-se ,sair da sua situação de pobreza extrema?Uma pergunta nacional e humana.
Não se trata das circunstâncias imediatas de vida de Macabéa,ou seja,não é cupa dos que estão próximos dela(inclusive o seu namorado),mas da sua vida pregressa,com a falta de formação,falta de experiência de vida e desconexão total com um propósito.
O que está por trás de todas estas carências é a falta de sociabilidade,socialização.A incompreensão do papel social que o indivíduo deve ter.Este insight decisivo não ocorre a todas as pessoas.
Freud diz que os elementos formadores da personalidade desde a infância são em grande parte aleatórios,mas fazendo a necessária crítica sociológica,há que reconhecer as circunstãncias sociais como um elemento decisivo.
Macabéa vive o seu imediato apenas.O faz por inércia,sem maiores objetivos do que este que se apresenta diante dela:uma datilógrafa desastrada e que e,no final,despedida(ou pelo menos parece).
Há uma insinuação de que sem emprego o destino da estrela é o bordel,mas é só insinuação.O que avulta é a exigência de socialização do personagem brasileiro abandonado à própria sorte.
Ainda que não possa mais ser factível torná-la profissional,a intervenção auxiliadora da sociedade é obrigatória diante do referido abandono e o reconhecimento da autenticidde vocacional de Macabéa fundamenta o minimo de esforço de obtenção da sua inclusão social.
Mas o abismo a que fiz alusão no artigo anterior é o abismo da sociabilidade:falta de formação;relações familiares frágeis e pouco educacionais;falta de recursos materiais;pouca relação com outras pessoas(desde a infância provavelmente).A superação destes problemas todos é necessária ou pelo menos de alguns para adptá-la à sua situação.Tarefas para psicólogos e pedagogos.Não ao indiferentismo.