sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Wittgenstein e Édipo

“ Daquilo que não podemos falar,devemos nos calar”



Esta frase famosa  essencial do “Tractatus “ de Wittgenstein nos coloca a questão de que o esquecimento de nossa experiência  primeva com os pais não deve ser buscada,deixando Freud sem trabalho,sem profissão.
Mas mesmo Freud e a psicanálise sabem que só a lembrança patogênica deve ser chamada à baila.Mesmo que esta se encadeie com outras ,é a sua natureza especifica que desata o nó da neurose,logo,os pressupostos de Wittgenstein têm uma certa fundamentação na realidade,até uma obrigatoriedade.
No caso de Édipo se esta frase valesse ele poderia escapar da sua culpa,porque a relação constituidora com a mãe,mesmo lembrada após seu casamento com Jocasta,se não fosse tão decisiva,não o levaria aos atos extremos que praticou,o que nos leva a ver que a lógica de Wittgenstein não é fundada inteiramente na realidade,exceto no que diz respeito aos mitos,como consciência falsa.
É lógico que Édipo sentiu culpa,mas porque estava inserido numa realidade governada e legislada pelos deuses,por mitos,diferentemente de  nós,que nos “ livramos “ deles,pela razão.Nem se ele tivesse tempo de refletir e elaborar,fosse capaz de superar a frustração e parmanecer com os olhos.É a consciência falsa,verdadeira para o crente ,que funda a culpa,neste caso.
Neste sentido é um momento racional ,ou de nascimento da razão, a frase de Wittgenstein.A constituição da identidade na relação com a mãe tem que ser um ato racional,de memória elaborada,porque a dependência,ainda que emocional, dos momentos de adequação com os pais,gera  a neurose,que é ,para Freud a origem dos mitos e das religiões(incapacidade de conhecer a si mesmo e admitir os limites e controlar as paixões),constatação que reconcilia os dois pensadores.
Daquilo que não se pode falar há que se calar é uma condição de saúde,porque do que não se fala é porque não há relações(e dentro delas a culpa),não havendo   como extrair intenções e dolos.Isto é um Anti-Édipo.
Superar as ideologias de poder é ter este contato com a realidade da qual se fala e não se cala.
Aqueles que leram “ Os Maias” de Eça Queiróz sabem que o romance termina de forma dramática num incesto entre irmãos,mas a solução é diferente porque a razão predomina e o véu dos mitos foi desvelado.Ninguém se mutila,mas amaina a frutração(e aprende)
Com Heidegger nós aprendemos que ninguém tem a experiência da morte e que vamos da inconsciência ao nada;com Nietzsche vamos do homem ao além do homem,de um conceito para a realidade;com Freud vamos da amnésia e da memória patógena ao conhecimento do mundo(inclusive de nós mesmos);e com Wittgenstein do que não se sabe para o que se pode saber.
Em todos estes percursos o homem se nadifica,não como os niilistas,mas reconhece que o que predomina na existência e é a sua condição é um limite bem pequeno diante do imenso nada que não abordamos,por diversas razões.

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