segunda-feira, 14 de setembro de 2020

formação da dialética em hegel

 

Analisando o livro de Roger Garaudy “Dieu est mort” nós vemos que existe um desenvolvimento na filosofia alemã que redunda em Hegel e sua dialética.Qual é a herança que Hegel recebe e transforma?

Nós temos que ter em mente que seu caminho é o da subjetividade autônoma para compreender o mundo.A subjetividade começa na História de diversas maneiras,através da contribuição de vários autores e personagens,o primeiro deles Lutero e a reforma protestante.

Aqueles que lêem os meus artigos sabem o que digo sobre Lutero e a reforma protestante.Muita gente,principalmente no radicalismo de esquerda,pensa que com isto eu defendo a figura individual de Lutero.É o famoso “ espirito de partido” do comunismo ortodoxo que distorce as coisas.Eu me reporto ao significado histórico da figura,assim como faço com Napoleão.Napoleão representa o avanço do capitalismo,que em relação ao passado medieval configura progresso.

Algo simile se dá com Lutero: conforme as análises e interpretações de Nietzsche,quando o reformador afirma em Worms “ penso assim,não posso agir de outro modo”,está fundando a subjetividade moderna,o individualismo moderno,que aponta o direito e a liberdade de se posicionar diante do mundo.Garaudy atribui a este nascimento do subjetivismo o nascimento do monismo,mas são coisas diferentes(1).



segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Lukacs e o problema nacional

 

Quando da Copa do mundo de 74,a Polônia reapareceu para o mundo com um time muito bom,em que despontavam Lato e Deina.Eu era comunista aos 12 anos e defendia a ética destes jogadores,pensando que o que acontecia lá no país deles era uma evolução a favor do socialismo.Não eram jogadores profissionais,mas operários predominantemente ,que viviam deste trabalho produtivo e não do futebol,mera diversão.

Quatro anos depois,eu tinha 16 anos e entrei no segundo grau e fiquei chocado que aqueles mesmos poloneses evoluídos fizessem uma greve contra o governo comunista.

Não havia de forma alguma evolução no sentido do socialismo,mas um falsa impressão,vendida pelos comunistas e não consentânea com a realidade.

Se o leitor acompanhou o meu artigo anterior vai ver que não houve a prevista desalienação do trabalhador sob o regime de orientação comunista.O operário polonês continuou católico,reproduzindo a “forma alienada de consciência social” e a usando para vencer seus governantes ilegitimos.

Mas diferentemente do que falei no artigo anterior aqui se trata do problema da nação,do comprometimento deste trabalhador e de outros no leste europeu (húngaros)com a nação.

Ainda me lembro de muito comunista se lamentando diante da classe operária abrindo mão do seu direito ao socialismo em favor do conceito burguês de nação,onde exploradores e explorados vivem numa falsa igualdade.

A afirmação de Marx ,seguida por Lukacs,de que “ a classe operária não tem pátria” caiu por terra(alguns radicais do Brasil aí tinham que entender).

O puro reconhecimento das necessidades da classe principal e decisiva não elimina os outros setores de classe,as outras necessidades,culturais,identificadas erradamente com a classe média, mas que faziam parte também dos desejos dos operários,o que não se coadunava com o regime totalitário.

Logicamente muitas explicações para relativizar estas conclusões foram feitas:sabotagem externa;má condução das lideranças;traição da classe operária.mas quando o regime estava de pé a vitória da desalienação era tida como eterna ,num assomo de verdade religiosa no socialismo,que não se sustentou.



domingo, 6 de setembro de 2020

A questão de classe em Lukacs

 

Marx nunca afirmou que ipso facto,havendo um regime socialista a alienação desapareceria,muito menos que suas condições estariam dadas.

Os descaminhos da revolução russa puseram em xeque esta suposta verdade dita por Marx.Como ficou evidente que no minimo havia uma dúvida quanto à desalienação no socialismo real,a esquentar a cabeça dos teóricos,era preciso tomar uma decisão quanto a isto.

Naturalmente o regime stalinista da URSS vendia a ideia de que a desalienação estava em curso ,porque o regime soviético expressava as necessidades dos trabalhadores e as supria.Então o mundo da necessidade tinha sido superado e substituido pelo da liberdade,como prevera e preconizara Marx.Todo o pensamento do socialismo real justifica a sua vida cotidiana com isto:a certeza de ter o essencial para viver torna a vida tranquila e cria tempo livre para aproveitá-la.

E naturalmente Trotsky e seus seguidores ,exilados pelos stalinismo, mostraram o absurdo desta igualação com o pensamento de Marx:”o estado de todo o povo” da constituição de 37 na URSS só ocultava pela força a luta de classes ,que continuava subsumida,como mostrou o trostskista Charles Bettelheim em “ As lutas de Classe na URSS”;o próprio Trotsky afirmava que a hegemonia da classe operária na URSS contrariava Marx porque o comunismo era para acabar com todas as classes e não manter uma só,que seria inevitavelmente opressora.

Mas o que legitima a situação na URSS e confunde todo o debate é a posição de Lukacs,baseada em “ História e Consciência de classe”,em que ele condiciona a consciência dos indivíduos ,vistos como trabalhadores e atores sociais,à sua posição objetiva na classe,por sua vez definida dentro do modo-de-produção.

Na medida em que o estado reconhece a classe operária,única capaz de acabar com todas as outras(sem violência em princípio),a sua consciência é decisiva para a desalienação:a consciência da necessidade satisfeita pelo estado transforma-se em liberdade.

Contudo o que Marx entendia como base para o “ reino da liberdade” não era uma “ democracia de trabalhadores” como dizia o meu professor Roland Corbisier;nem era muito menos um “ estado de todo o povo”.Era um regime que libertava o homem do trabalho exaustivo;não um trabalho para outrem mas para a comunidade humana toda,que usufruiria de todos os bens a qualquer tempo:aí sim haveria tempo livre,a liberdade.O trabalho em Marx é uma mediação da capacidade criativa do ser humano.

Ernst Mandel ,em seu “ Formação do pensamento de Marx”,último capitulo,como trostskista, aprofunda as ideias de seu mestre,mostrando que o sistema de distribuição no socialismo real privilegiava,não supria as necessidades e isto,digo eu,é óbvio para um país isolado,dependente do mercado capitalista e caracterizado por...trabalho exaustivo e inconclusivo para produzir a abundância necessária para a distribuição equitativa,constante e sem privilégios dos bens produzidos.

E mais:com a desalienação,as formas alienadas de consciência social como a religião(entre outras[ciência burguesa])desapareceriam.

Eu tinha 12 anos quando assisti ,como pequeno comunista, a Copa de 74 na Alemanha Ocidental,em que a Polônia reapareceu para o mundo após muitas décadas.E nas entrevistas dos jogadores loas ao socialismo,à despreocupação com o dinheiro.Os jogadores e o técnico contavam que viviam de seus trabalhos e empregos especificos e não do futebol.Recebiam presentes,mas nada de dinheiro injusto ,resultante da exploração.A religião ,na entrevista, não foi abordada,mas estava subentendida.

Quatro anos depois ,em 1978,quando tinha 16 anos e estudava no Arte e Instrução espoucaram as greves de Gdansk e todas aquelas ilusões do menino cairam por terra.E as de Lukacs,Stalin....



domingo, 23 de agosto de 2020

Porque a minha visão de Heidegger é crítica

 

Quando eu era estudante na especialização,uma professora,em nome de Heidegger,afirmou que “ o homem não é isto ou aquilo,mas sentido” eu disse que não aceitava aquilo.Não se há de extrair sentido sem referência a essências,mesmo que não substantivas,aristotélicas.Dizer que a vida é sentido não tem sentido porque o que é sentido?Sentido na humanidade?

Relembrando, o ôntico se refere ao modo de ser dos entes ,a sua essência definidora,o dasein,o isto,o ser-aí;o ontológico se refere ao estudo filosófico destes entes.Um exemplo:o meu modo de agir como professor é ôntico;o estudo da pedagogia é ontológico.

O que contestei na fala da professora da uerj é que o sentido não se apura em geral,mas ligado às essências.É lógico que o estudo dos entes não é condição de existência deles,então a manifestação dos entes na busca de um sentido,o por-se a maneira de algo(essência) não é senão uma interligação de diversas manifestações ,a partir de um modo especifico,que orienta este sentido e é responsável por sua apuração.Por sua existência(ente).

Lógico que isto se aplica ao homem,não às coisas,aos animais.Neste plano digamos assim, nós podemos analisar o problema do ôntico e do ontológico.Existem ,segundo Heidegger,vários tipos de entes ,listados por Marilena Chauí em seu livro Convite à Filosofia”:

“1. os entes materiais naturais que chamamos de coisas reais (frutas, árvores,
pedras, rios, estrelas, areia, o Sol, a Lua, metais, etc.);
2. os entes materiais artificiais a que também chamamos de coisas reais (nossa
casa, mesas, cadeiras, automóveis, telefone, computador, lâmpadas, chuveiro,
roupas, calçados, pratos, talheres, etc.);
3. os entes ideais, isto é, aqueles que não são coisas materiais, mas idéias gerais,
concebidas pelo pensamento lógico, matemático, científico, filosófico e aos quais
damos o nome de idealidades (igualdade, diferença, número, raiz quadrada,
círculo, conjunto, classe, função, variável, freqüência, animal, vegetal, mineral,
físico, psíquico, matéria, energia, etc.);
4. os entes que podem ser valorizados positiva ou negativamente e aos quais
damos o nome de valores (beleza, feiúra, vício, virtude, raro, comum, bom, mau,
justo, injusto, difícil, fácil, possível, impossível, verdadeiro, falso, desejável,
indesejável, etc.);
5. os entes que pertencem a uma realidade diferente daquela a que pertencem as
coisas, as idealidades e os valores e aos quais damos o nome de metafísicos (a
divindade ou o absoluto; a identidade e a alteridade; o mundo como unidade, a
relação e diferenciação de todos os entes ou de todas as estruturas ônticas, etc.).”


Num passo seguinte a professora(e Heidegger) entra naquilo que considero a base do que eu estou dizendo aqui:

“No caso dos entes ideais, os conceitos ontológicos são bastante diferentes. Em
primeiro lugar, tais entes não são coisas reais – este cavalo é uma coisa real, mas
a idéia do cavalo não é uma coisa, é um conceito e existe apenas como conceito.
Em segundo lugar, não causam uns aos outros, mas são entes que possuem uma
definição própria, podendo relacionar-se com outros – a idéia de homem não
causa a de cavalo, mas podem relacionar-se quando o historiador, por exemplo,
mostra a diferença entre sociedades cujo exército só possui a infantaria e aquelas
que inventaram a cavalaria; um círculo não causa um triângulo, mas podemos
inscrever triângulos num círculo para demonstrar um teorema ou resolver um
problema.”
Se eu digo “ Sou professor”,isto não me torna um e nem define o que é o professor,mas a conexão entre este ente ideal e a prática,orientada afinal por ele,existe a determinar o seu comportamento como tal,a separá-lo de outros e a definir como é vida de uma pessoa,um ente real .O exemplo de Marilena é o historiador ,o matemático,mas não se pode negar esta verdade.

Ela põe um exemplo assim:”Pedro acendeu a luz”,a ontologia pergunta:” o que é o conceito de luz?”,o historiador pergunta;”quando e como se formou o uso pratico da eletricidade?” e o cientista físico:” o que é a luz?”,mas o ato em si ,digo eu,de acender a luz tem um significado de ente ,daquilo que “ se põe à maneira de algo”.Conectado com outros atos da vida cotidiana,quer dizer atos causados pela decisão do sujeito,do ente real do sujeito,que,por isto,expressam um sentido .Acaso estes atos não possuem uma essência?O ôntico e o ontológico não estão interligados?Isto não prova que não existe ruptura total do discurso?Que a experiência une estes dois lados?

Se um professor mata um aluno,ele é um assassino,mas não deixa de ser um professor.Preso,deixa de ser.Quando sai da prisão volta a ser,se superar a culpa.Procurou um psicólogo,um cientista,um filósofo para entender a sua culpa e remissão e voltou a ser.

Critico esta pretensão da filosofia moderna,Heidegger inclusive,de buscar uma transcendentalidade,uma intocabilidade,como condição de construção de sentido.Certo existe o corpo,mas a experiência e os atos são aparentemente deixados de lado.

sábado, 8 de agosto de 2020

Ciência e Existência

 

O espermatozóide e a vida

Certa feita o cientista Faraday apresentou a sua experiência sobre o campo magnético diante do então primeiro ministro inglês Gladstone,que perguntou a ele “ para quê isto serve?”ao que o cientista respondeu:”para quê serve uma criança?”.

Existem pessoas que gostam de ridicularizar o conhecimento,como inútil para a vida(embora vivam cercados de conhecimento e de produtos do conhecimento) e principalmente conhecimentos pequenos,tidos como fúteis.

Esta semana foi feita uma descoberta deste tipo aí:o modo como o espermatozóide nada no sêmen não era como os observadores tradicionais,de microscópios antigos ,achavam.Leeuwenhoek,o holandês piedoso que os observou pela primeira vez(não sei como obteve a amostra para o seu microscópio...)deu a resposta,que valeu até esta semana:por isto um estratagema o espermatozóide fazia um movimento de corpo pendular no sêmen e conseguia se mover.Na última semana ,com um microscópio de última geração viu-se que nunca foi assim:o movimento de um saca-rolhas sobre um outro saca-rolhas,que se formava no liquido,explica como o espermatozóide tenta chegar ao óvulo.

E aí o leitor pode fazer a mesma pergunta do premier Gladstone.A experiência de Faraday foi a base dos futuros motores ,dentro dos carros,originando assim formas de tributação que ajudaram os governos(não necessariamente os povos).

A nova face do espermatozóide aparentemente não tem nada a oferecer,mas tudo o que se conhece,o que se sabe ,no tempo,pode vir a surpreender ,como no caso acima.

Do ponto de vista estritamente científico esta descoberta não tem ,ainda,consequencias tão importantes,mas do ponto de vista filosófico,confirma o que tenho dito frequentemente aqui sobre o papel da ciência e da existência:são duas coisas distintas,a vida e o conhecimento.

Nunca passou pela cabeça de ninguém que tal conhecimento sobre o espermatozóide pudesse mudar a vida de alguém,mas passou sim que a ciência poderia,o que é a mesma coisa.

O iluminismo francês,o século XVIII e principalmente o XIX venderam esta ideia de que o conhecimento científico,a descoberta das causas das coisas orientaria o comportamento individual e coletivo da humanidade.

Nós vemos num personagem do velho Maia de Eça de Queiróz esta visão prosperar e redundar no fracasso de sua família.Nós vemos na dialética dogmática stalinista a “crença”(o termo é este mesmo)de que quem detém o conhecimento da dialética está na frente dos outros.E nós vemos a antropologia nascer como justificadora do imperialismo e neo-colonialismo,entre outros exemplos.

Pensar que a ciência e o conhecimento são itens obrigatórios para a conduta psicológica do sujeito humano é colocá-la à mercê do próximo passo da ciência,da explicação seguinte.Não adianta supor que a ciência,assim entendida,será aplicada apenas ao que for conveniente,de acordo com seu objeto de investigação,porque,primeiro ela não será efetiva e segundo não o será por causa(olha aí)desta decisão de atar o sujeito ao que está fora de si,como princípio.Ainda que a aplicação da ciência ao problema existencial possa ,no imediato,dissolver eventuais problemas,a sua imposição como critério de vida,a submeterá ,como exigência,de fora para dentro,mesmo que problema algum apareça,porque ela já se colocou como essência da existência e dela não se separa mais.

Por isto Sartre diz que a existência precede a esssência.Do nascimento,onde não há consciência,até à maturidade e à morte,em que a essência surge,o que predomina é aquilo que já estava no berço: a existência.

Apesar de Kant dizer que o “ homem que sente saudades da infância jamais saiu dela”,assiste razão à Nelson Rodrigues ao afirmar que “ no adulto ainda está o menino,a criança”.

A relação entre a ciência a existência, para ser equilibrada tem que se dar assim:quando um problema atrapalha a existência a primeira é chamada;resolvido,a existência continua.

Freud admitia “ análise da vida toda”,” interminável”,mas isto não significa contradição e desequilibrio pois o analista sabe ou deve saber diferenciar e ajudar o paciente entre a vida e o conhecimento.E muitas vezes é por confundir estes dois termos que o paciente vai ao divã.

De qualquer maneira a ciência é explicação,mas a vida é a vida.Condicionar a vida ao conhecimento é o mesmo que condicioná-la ao espermatozóide.




quinta-feira, 30 de julho de 2020

Em quê Marx é filósofo


Sempre fui e sempre serei escrupuloso.E toda pessoa escrupulosa é justa.É claro que estas afirmações sobre o diletantismo do marxismo,que vieram da direita,causam espécie.Por isto tenho que retornar ao tema frequentemente,porque sei que este é o lado mais dificil,digamos,assim,do meu pensamento.A concordação com a direita,eu sabia,ia ser uma acusação inevitavel depois do que eu disse.
Mas o que disse foi fundamentado em outros autores,de esquerda,como Edmund Wilson,Coletti,Garaudy,André Gorz.O radicalzinho de esquerda que me ataca não tem estas leituras,pelo menos no Brasil.Mas na Europa isto é moeda corrente há décadas.
Na questão do método, Marx é profissional,mas mesmo assim é superado depois pela sociologia.No entanto as aplicações do método dedutivo,acrescido pelo conceito de totalidade,de Hegel,demonstram compreensão profissional do problema.
Profissional é,no entanto,aquele que compreende todo o processo do seu saber,quer dizer,as suas consequências totais,bem como as suas partes.
O exemplo histórico maior de profissionalismo que eu conheço e ,naturalmente ,admiro,é o de Shakespeare,que sabia dos textos,mas também da lâmpada,da coxia e de todos os elementos constitutivos da atividade teatral.
E Edmund Wilson ressalta que a compreensão dos textos dos filósofos não é completa por Marx e Engels.Eu disse:o que se entendia por filosofia na época deles não era bem uma filosofia no sentido profissional do termo e a abordagem de ambos de filósofos como Kant e Hegel não era até ao final.
Marx gostava de citar Balzac,cujo princípio fundador da Comédia Humana era “ se temos que criticar a sociedade,vamos criticá-la até ao fim”.Mas Marx não levou isto até ao final,porque nesta frase está contida uma verdade essencial:nesta crítica até ao fim está a crítica a si mesmo.
Um filósofo francês ,Paul Ricouer,chamou Marx,entre outros(Freud,Darwin),de “ mestre da suspeita”,porque ele punha para a contemporaneidade o fato de que os modelos explicativos tradicionais da sociedade moderna não são perfeitos,antes ocultam as falhas,descontinuidades e injustiças do real.
Contudo aquele que suspeita do mundo e dos outros,tem que entender duas realidades:que em termos éticos ,para desconfiar dos outros é preciso desconfiar,primeiro,de si mesmo e que ao desconfiar do mundo é lógico que aquele que desconfia está nele.
No caso da leitura de Hegel Marx podia ter ido mais longe na desconfiança em relação a ele e notado que o Espirito Absoluto não é uma entidade transcendental,mas o Ser em geral.
No caso de Kant há que se perdoar Marx porque só no final do século XIX se pode apreender outras possibilidades do seu pensamento,mas ainda assim era possível repudiar o agnosticismo como invectiva contra ele,porque nunca Kant afirmara a impossibilidade de conhecer,mas de conhecer tudo.
Assim eu concluo minhas reflexões sobre esta questão,a não ser que algo mais serio ou importante apareça.

domingo, 19 de julho de 2020

Da propriedade


Duas vertentes do pensamento ocidental orientam as discussões sobre o papel da propriedade:uma provém de Rousseau,outra de John Locke ,o pai do liberalismo e dos Estados Unidos.
Neste artigo tratarei do segundo,mas para que o contraste entre os dois ajude a compreensão,relembro a posição de Rousseau:no tratado “ Origem da desigualdade entre as línguas e os povos”,antecessor imediato do “ Contrato Social”,Rousseau atribui ao surgimento da propriedade os males da humanidade.Esta visão repercute evidentemente em Marx,que condiciona a sua utopia à sua supressão.
Locke ,em seu “Segundo Tratado do Governo Civil”,no capitulo evidentemente dedicado à “ Propriedade”define-a da seguinte maneira,em diversos itens:
“26. Deus, que deu o mundo aos homens em comum, deu-lhes também a razão, para que se servissem dele
para o maior benefício de sua vida e de suas conveniências. A terra e tudo o que ela contém foi dada aos homens
para o sustento e o conforto de sua existência. Todas as frutas que ela naturalmente produz, assim como os
animais selvagens que alimenta, pertencem à humanidade em comum, pois são produção espontânea da
natureza; e ninguém possui originalmente o domínio privado de uma parte qualquer, excluindo o resto da
humanidade, quando estes bens se apresentam em seu estado natural; entretanto, como foram dispostos para a
utilização dos homens, é preciso necessariamente que haja um meio qualquer de se apropriar deles, antes que se
tornem úteis ou de alguma forma proveitosos para algum homem em particular. Os frutos ou a caça que alimenta
o índio selvagem, que não conhece as cercas e é ainda proprietário em comum, devem lhe pertencer, e lhe
pertencer de tal forma, ou seja, fazer parte dele, que ninguém mais possa ter direito sobre eles, antes que ele
possa usufruí-los para o sustento de sua vida”.(
25. God, who hath given the world to men in common, hath also
given them reason to make use of it to the best advantage of life and
convenience. The earth and all that is therein is given to men for the
support and comfort of their being. And though all the fruits it naturally
produces, and beasts it feeds, belong to mankind in common, as they are
116/John Locke
produced by the spontaneous hand of Nature, and nobody has originally
a private dominion exclusive of the rest of mankind in any of them, as
they are thus in their natural state, yet being given for the use of men,
there must of necessity be a means to appropriate them some way or
other before they can be of any use, or at all beneficial, to any particular
men. The fruit or venison which nourishes the wild Indian, who knows
no enclosure, and is still a tenant in common, must be his, and so his—
i.e., a part of him, that another can no longer have any right to it before
it can do him any good for the support of his life.)”
“27. Ainda que a terra e todas as criaturas inferiores pertençam em comum a todos os homens, cada um
guarda a propriedade de sua própria pessoa; sobre esta ninguém tem qualquer direito, exceto ela. Podemos dizer
que o trabalho de seu corpo e a obra produzida por suas mãos são propriedade sua. Sempre
que ele tira um objeto do estado em que a natureza o colocou e deixou, mistura nisso o seu trabalho e a isso
acrescenta algo que lhe pertence, por isso o tornando sua propriedade. Ao remover este objeto do estado comum
em que a natureza o colocou, através do seu trabalho adiciona-lhe algo que excluiu o direito comum dos outros
homens. Sendo este trabalho uma propriedade inquestionável do trabalhador, nenhum homem, exceto ele, pode
ter o direito ao que o trabalho lhe acrescentou, pelo menos quando o que resta é suficiente aos outros, em
quantidade e em qualidade.(
26. Though the earth and all inferior creatures be common to all
men, yet every man has a “property” in his own “person.” This nobody
has any right to but himself. The “labour” of his body and the “work” of
his hands, we may say, are properly his. Whatsoever, then, he removes
out of the state that Nature hath provided and left it in, he hath mixed his
labour with it, and joined to it something that is his own, and thereby
makes it his property. It being by him removed from the common state
Nature placed it in, it hath by this labour something annexed to it that
excludes the common right of other men. For this “labour” being the
unquestionable property of the labourer, no man but he can have a right
to what that is once joined to, at least where there is enough, and as good
left in common for others.)”.
  1. Aquele que se alimentou com bolotas que colheu sob um carvalho, ou das maçãs que retirou das
    árvores na floresta, certamente se apropriou deles para si. Ninguém pode negar que a alimentação é sua. Pergunto
    então: Quando começaram a lhe pertencer? Quando os digeriu? Quando os comeu? Quando os cozinhou? Quando
    os levou para casa? ou Quando os apanhou? E é evidente que se o primeiro ato de apanhar não os tornasse sua
    propriedade, nada mais poderia fazê-lo. Aquele trabalho estabeleceu uma distinção entre eles e o bem comum; ele
    lhes acrescentou algo além do que a natureza, a mãe de tudo, havia feito, e assim eles se tornaram seu direito
    privado. Será que alguém pode dizer que ele não tem direito àquelas bolotas do carvalho ou àquelas maçãs de que
    se apropriou porque não tinha o consentimento de toda a humanidade para agir dessa forma? Poderia ser
    chamado de roubo a apropriação de algo que pertencia a todos em comum? Se tal consentimento fosse necessário,

    o homem teria morrido de fome, apesar da abundância que Deus lhe proporcionou. Sobre as terras comuns que
    assim permanecem por convenção, vemos que o fato gerador do direito de propriedade, sem o qual essas terras
    não servem para nada, é o ato de tomar uma parte qualquer dos bens e retirá-la do estado em que a natureza a
    deixou. E este ato de tomar esta ou aquela parte não depende do consentimento expresso de todos. Assim, a
    grama que meu cavalo pastou, a relva que meu criado cortou, e o ouro que eu extraí em qualquer lugar onde eu
    tinha direito a eles em comum com outros, tornaram-se minha propriedade sem a cessão ou o consentimento de
    ninguém. O trabalho de removê-los daquele estado comum em que estavam fixou meu direito de propriedade
    sobre eles.(27. He that is nourished by the acorns he picked up under an oak, or
    the apples he gathered from the trees in the wood, has certainly appropriated them to himself. Nobody can deny but the nourishment is his. I
    ask, then, when did they begin to be his? when he digested? or when he
    ate? or when he boiled? or when he brought them home? or when he
    picked them up? And it is plain, if the first gathering made them not his,
    nothing else could. That labour put a distinction between them and common.)”
Resumindo:se o leitor ler estes textos,estas citações, vai perceber que Locke admite uma origem comunitária(comunista?)da propriedade,mas que considera que o trabalho de alguém que busca sobreviver com os bens em comum,legitima esta posse,porque ninguém na comunidade(diriamos hoje comunidade primitiva)tem o direito de impedir o esforço de sobrevivência,expresso no trabalho,obtido pelo trabalho.
É curioso como Locke não nega este direito aos indios(naturalmente ele pensava na colônia americana):
“Os frutos ou a caça que alimenta
o índio selvagem, que não conhece as cercas e é ainda proprietário em comum, devem lhe pertencer, e lhe
pertencer de tal forma, ou seja, fazer parte dele, que ninguém mais possa ter direito sobre eles, antes que ele
possa usufruí-los para o sustento de sua vida.

(before they can be of any use, or at all beneficial, to any particular
men. The fruit or venison which nourishes the wild Indian, who knows
no enclosure, and is still a tenant in common, must be his, and so his—i.e., a part of him, that another can no longer have any right to it before it can do him any good for the support of his life.)”.
Locke ,como fundamento ideológico dos Estados Unidos,não autoriza a exclusão dos indios,como aconteceu na colônia.Conclui-se que os Estados Unidos nasceram como uma república clássica e democrática e se transformou internamente e externamente num império,com a marcha para o oeste.
O nosso assunto ,no entanto,não é este,mas a definição da propriedade.E como se conflita,desde o inicio do liberalismo,uma visão comunitária,biblica,que Locke reconhece,e a comunitária(comunista?):a comunidade não tem o direito de se interpor(como o estado não tem o direito)entre o esforço de trabalho,de sobrevivência,entre a pessoa e o produto deste seu trabalho.
Evidente que a perspectiva de Locke é abstrata.Ele não tem noção de como funciona a comunidade primitiva:nela a atividade individual não necessariamentes se conflita com os objetivos da comunidade,mas o que ele ataca e isto é importante e fundamental, é a condição individual diante de um estado,de uma sociedade,em que as distinções entre publico e privado já estão presentes.
Locke é protestante e cristaliza em seu pensamento todas as consequencias de “ revolução protestante”:esta distinção é uma delas.Não é mais como na comunidade primitiva ou mesmo na sociedade medieval,em que as relações são em grande parte(ou totalmente ,na comunidade primitiva)diretas,mas mediatizadas pela cada vez maior “ sociedade civil burguesa”.
Esta teia complexa cada vez maior,exige uma instância protetiva e legitimadora da atividade individual,do trabalhador abstrato de Locke.Porque sem isto este trabalhador se diluiria nesta teia,como a mosca presa pela aranha.
Face a esta ameaça é que Locke põe esta figura do trabalhador,do indivíduo,do ...cidadão moderno.
O comunismo,que se desenvolve no século posterior ao de Locke(que morreu em 1704)finge não se opor a esta concepção liberal,mas se opõe.
Na comunidade primitiva a interferência no trabalho é algo contraditório,por atentar contra a sobrevivência do grupo,mas os antropólogos mostram certas distinções injustas e quando a agricultura nasce,aumentando fundamentalmente o desequilibrio desta comunidade, a civilização e as classes estão prontas para criar a história dos desatinos que vemos até hoje e que Locke,como ser mortal,tocou em um determinado momento,respondendo do seu modo:a liberdade individual,como princípio absoluto,reconhecido pela “ comunidade”, é que a garante.Mas ele só põe o problema porque em todo o lugar o estado absolutista interfere e fica claro que esta interferência o prejudica,emquanto que a sociedade civil burguesa progride.
Em torno desta dicussão gira o debate sobre a propriedade,que foi centro do combate entre capitalismo e comunismo e que permanece de outras formas,como eu vou explicar no próximo artigo.